Super Quarta: 10 especialistas falam sobre expectativas para decisões do Copom e FOMC

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Mercado conhece hoje as decisões de política monetária do Brasil e dos EUA. Especialistas comentam desafios macroeconômicos

Os olhos do mercado voltam-se hoje (17) às decisões de política monetária do Brasil e dos Estados Unidos. No plano doméstico, esta é a primeira reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) após a concessão da autonomia do Banco Central, carregada pelo consenso no mercado de uma decisão favorável à elevação da taxa básica de juros da economia.

A expectativa é amparada pela retirada do forward guidance no último encontro do Copom, em janeiro, e pela inflação medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que acumula em 12 meses elevação de 5,20% frente a taxa Selic de 2% ao ano (a.a.), enquanto a atividade econômica do país ainda respira por aparelhos, assim como centenas de milhares de brasileiros vítimas do novo coronavírus.

Nos EUA, a pressão inflacionária também está nos holofotes do mercado e, consequentemente, da reunião do FOMC (Federal Open Market Committee). A inflação medida pelo CPI (Consumer Price Index) no país acumula variação positiva de 1,7% e as perspectivas são de aceleração da taxa com a injeção de US$ 1,9 trilhão em estímulos à economia e iminente reabertura do país diante do avanço da vacinação. Os EUA têm vacinado, em média, dois milhões de pessoas todos os dias.

Apesar da expectativa de retorno a alguma normalidade nos EUA nos próximos meses e de inflação, porta-vozes do Federal Reserve já sinalizaram que a taxa de juros no país deve permanecer em patamar mínimo, entre 0% e 0,25% até que o pleno emprego seja atingido no país. A taxa de desemprego dos EUA é de 6,2%, segundo dados de fevereiro do Bureau of Labor Statistics.

Para entender as expectativas para as decisões de hoje, bem como seus possíveis impactos sobre os mercados globais, em especial os emergentes, como o Brasil, a Forbes ouviu economistas e especialistas do mercado financeiro. Veja as análises abaixo:

  • Alexandre Espirito Santo, economista-chefe da Órama

    “Acredito na elevação de 0,5%, para 2,5%. Minha maior curiosidade recai sobre o comunicado divulgado após a reunião para ver o tom de preocupação do Comitê com o cenário de inflação. A aposta da Órama é de elevação até 4% a.a. (quatro altas de 0,5%), mas não podemos descartar um aumento um pouco maior. Por enquanto nossa projeção para o IPCA é de 4,2%, com uma forte pressão ao longo do 1º semestre, para depois desaquecer gradativamente.

    Nos Estados Unidos, enxergamos uma manutenção na reunião desta semana. Todavia, acreditamos que a curva de juros, que já iniciou um processo de alta nas últimas semanas, vai continuar empinando. Vemos os juros de 10 anos rumando para 1,8%. Não tenho essa convicção de que a inflação nos EUA ficará comportada por longo tempo. Contudo, tenho dúvidas reais sobre o que esperar dos Estados Unidos em 2021, creio que o Fed manterá a taxa próxima de zero e o quantitative easing (compras de títulos) ativo. Todavia, se meu cenário de recuperação da economia (com as vacinas prosperando celeremente) prevalecer, poderemos ter um superaquecimento. Se for assim, o Fed terá de rever sua política no 1º semestre de 2022.”

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  • Betina Roxo, estrategista-chefe da Rico Investimentos

    “No Brasil, a dinâmica da pandemia piorou, demandando medidas restritivas mais duras, que concomitante às preocupações políticas, elevaram os prêmios de risco dos ativos brasileiros. Continuamos esperando uma apreciação da taxa de câmbio – refletindo o superávit das contas externas e a alta dos juros locais – mas em menor intensidade: R$ 5,30 por dólar no final deste ano (R$ 4,90 antes). O câmbio mais depreciado leva a uma inflação maior este ano e à necessidade do Banco Central subir os juros mais rapidamente para manter o IPCA na meta em 2022. Projetamos a Selic em 5,0%, com seis altas consecutivas de 0,5 p.p. a partir deste mês.”

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  • Bruno Musa, economista e sócio da Acqua Investimentos

    “Eu acredito que o Copom vai subir os juros entre 0,5% e 0,75%, apesar de achar que se viesse aumento de 1% seria mais benéfico e mais correto para o Brasil nesse momento, vide o quadro fiscal que enfrentamos. Se tudo seguir correndo como está, com reformas bem encaminhadas e sendo aprovadas, devemos ter ainda um movimento de altas graduais da Selic, levando o real a valorizações frente ao dólar e, com isso, um ajuste da inflação para patamares mais aceitáveis, além de uma acomodação da economia na totalidade.

    Já o Fed deve manter os juros, como já deixou bastante claro. Saiu o CPI e PPI semana passada, longe dos 2% anuais que eles disseram que irão aceitar e, com isso, Jerome Powell tem sido muito claro de que irá manter a taxa entre 0 e 0,25%, que se encontra agora. O impacto nos emergentes e Brasil pode vir da alta da curva de juros futuros, tanto a NOTE 10y como os bonds de 30y. Isso pode levar capital especulativo a sair de emergentes e ir em direção a esses papéis, além de um fortalecimento do dólar que pode impactar o real e os consequentes impactos que isso traz. O Banco Central dos Estados Unidos tem sido claro que vai manter a taxa inalterada até 2023. Apenas uma alta na curva de juros fora do padrão e bem fora dos 2% que eles disseram aceitar poderia mudar o cenário, o que ainda parece longe da realidade.”

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  • Cristiano Oliveira, economista-chefe do Banco Fibra

    “O consenso entre economistas é que o Copom aumente a taxa de juros básica em 50 pontos base (p.b.) para 2,5% a.a., porém o mercado de juros precifica alta próxima de 75 p.b. Infelizmente, o país tem enfrentado de modo muito ineficiente (para dizer o mínimo) as crises sanitária, econômica, política e ambiental nos últimos trimestres. O fato de o real brasileiro ser a moeda com maior desvalorização do mundo nos últimos doze meses e a inflação acelerar mesmo numa recessão (estamos provavelmente entrando em estagflação).

    No cenário externo, a percepção é de que a economia norte-americana tem acumulado pressões inflacionárias que devem se materializar nos próximos anos, elevou a remuneração (yield) dos títulos do Tesouro de 10 anos de 0,91% no início do ano para 1,62% na última sexta-feira (1º). Acreditamos que o yield do papel de 10 anos deverá terminar o ano em torno de 2,5% a.a. – o que impacta a taxa de câmbio e a taxa de juros das diversas economias (tendência de depreciação das moedas locais e aumento da taxa de juros, principalmente em mercados emergentes).”

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  • David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America

    “Esperamos que o Copom suba a taxa em 0,50 p.p. para 2,50% (a.a.). O cenário para a inflação segue preocupando, levando o mercado a revisar as projeções para cima. Na semana passada, revisamos a nossa projeção de inflação deste ano para 4,6% e esperamos que o IPCA fique acima de 7% ao ano em maio. Por outro lado, a atividade econômica será negativamente afetada pela segunda onda do Covid e pelas medidas que foram tomadas para conter o vírus, incluindo o fechamento de estabelecimentos e mudanças em horários de funcionamento. A aprovação da PEC emergencial foi um avanço importante, mas a situação fiscal no Brasil segue delicada.

    Esperamos aumento de juros para 4% neste ano (de 2%) e para 5,25% no ano que vem. Acreditamos que o Banco Central deveria elevar o volume de intervenções no mercado de câmbio para ajudar a corrigir o descolamento do real em relação aos seus pares.

    Como amplamente anunciado, o Fed deve manter as taxas de juros no patamar mínimo entre 0 e 0,25%, dado que a inflação ainda não é um risco de fato e a economia americana tem espaço para estímulos monetários para o crescimento e retorno ao pleno emprego. O Fed não deve alterar a política monetária em 2021 e uma possível alta dos juros deve iniciar somente em 2022.”

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  • Felipe Tadewald, sócio e especialista da Suno Research

    “Acredito que as recentes pressões inflacionárias que temos visto – tanto no IGP-M quanto no IPCA, que fechou fevereiro em 0,86%, e fez o Focus revisar sua projeção para 4,6% este ano, ficando mais próximo do teto da meta – devem servir como impulso para o Copom elevar a taxa básica de juros em pelo menos 0,25%, podendo ser um reajuste de 0,5%. Eu não vejo grandes chances de o Brasil encerrar o ano com uma taxa Selic acima de 5%, uma vez que poderia aprofundar o movimento de desaceleração econômica.

    Nos EUA, a tendência mais clara é que o Fed opte por manter a taxa próxima de 0 a 0,25%, já que a inflação ainda continua controlada e o desemprego segue relativamente elevado em relação aos níveis pré-Covid. Em minha avaliação, visualizo o governo americano realizando um monitoramento constante dos níveis de inflação e desemprego. Sendo que, na medida em que o desemprego volte a estar próximo aos 3,5% (patamar antes da Covid-19) e eventualmente a inflação apresente alta, o Fed pode optar por elevar juros de forma gradual, o que poderia impactar moedas internacionais.”

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  • Paloma Brum, analista da Toro Investimentos

    “A minha expectativa é que o Copom deve iniciar um movimento de alta da taxa básica de juros na reunião desta semana, adicionando 0,5 ponto percentual à Selic meta que, dessa forma, passará dos atuais 2% a.a. para 2,5% a.a. O IPCA de fevereiro já mostra inflação acumulada de 1,1% neste ano e de 5,2% nos últimos 12 meses, enquanto o Boletim Focus já reflete um resultado de 4,6% para o indicador ao final do ano, ou seja, acima do centro da meta de 3,75% para 2021 e se aproximando do teto da meta em 5,25% no ano. Dessa forma, caso o Banco Central demore a iniciar o movimento de alta da Selic, estará incorrendo no risco de ter que fazê-lo tardiamente, o que pode causar uma disparada inflacionária mais forte levando o aumento do nível de preços a um patamar mais difícil de se controlar no futuro.

    Nos EUA, ainda devemos observar a manutenção dos juros básicos de curto prazo na faixa de 0% a 0,25% ao ano, uma vez que o Fed está inclinado a prover os estímulos que a economia americana necessita para uma recuperação mais rápida e consistente. Um fator que tem sido bastante considerado pelos dirigentes do Fed tange à retomada do mercado de trabalho americano, que ainda permanece fragilizado pelos efeitos causados pela queda nas atividades devido à pandemia. Visto que ainda existe muito espaço para os americanos recuperarem o nível de emprego pré-pandemia, os membros do FOMC tendem a manter uma política monetária expansionista a curto prazo.”

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  • Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter

    “Nossa expectativa é de uma alta de 0,50% nessa próxima reunião, levando a Selic para 2,5%. Apesar dos desafios da pandemia em relação à atividade, que pode desacelerar em março, o ritmo de recuperação desde julho do ano passado e inclusive observado em janeiro, com o IBC-br subindo 1% no mês, continua mais forte que o esperado. Com os choques consecutivos de oferta, primeiro nos preços agrícolas e agora nos combustíveis, com a alta do dólar, que reflete um risco fiscal mais elevado, as expectativas de inflação para 2021 tiveram forte alta e já se encontram bem acima da meta: na nossa projeção o IPCA deve encerrar 2021 em 4,75%. Além disso, o avanço da vacinação e a reabertura da economia, principalmente o setor de serviços a partir do segundo semestre, podem representar uma adicional pressão inflacionária. Assim, o BC deve começar a retirar os estímulos extraordinários da política monetária, iniciando o ciclo de alta da Selic agora em março.”

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  • Ronaldo Távora, economista-chefe do Banco do Brasil

    “Nossa expectativa é que o Copom aumentará a taxa Selic em 50 pontos base, elevando-a para 2,50% a.a. Em nossa visão, a autoridade monetária reagirá ao maior risco inflacionário, ao mesmo que será relativamente parcimonioso dada a situação ainda preocupante da atividade econômica por conta do atual contexto da pandemia no país. Acreditamos que o Banco Central manterá o processo de elevação da taxa Selic ao longo do ano, a qual deve encerrar 2021, segundo nossas projeções, em 4,25% a.a. Com as projeções de inflação se afastando consistentemente do centro da meta para este ano e dadas as defasagens da política monetária para afetar a inflação, os olhares começam a se direcionar para o IPCA de 2022. Apesar do atual comportamento dos índices inflacionários parecer referendar um ritmo mais agressivo por parte do Bacen, a incerteza em torno da pandemia e seus impactos no PIB levarão a um movimento mais cauteloso por parte da autoridade monetária. Além disso, em nossa percepção, o aumento do risco inflacionário tem se dado principalmente em componentes pouco sensíveis à política monetária, o que indica uma eficácia limitada de um aumento mais rápido dos juros para conter o processo inflacionário em curso.

    O Fomc, Comitê Federal de Mercado Aberto do Fed, deve manter a taxa básica de juros nos Estados Unidos próxima a zero. Além disso, a instituição deverá reafirmar um tom dovish em seu comunicado, ressaltando que, apesar da melhora nas projeções para o PIB e para a inflação, o mercado de trabalho ainda se encontra abaixo do seu potencial e as expectativas de inflação permanecem bem ancoradas. Uma vez que consideramos que as expectativas dos agentes já estariam alinhadas nesse sentido, acreditamos que os impactos nos mercados globais após a decisão não devem ser significativos, incluindo no Brasil.”

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  • Rossano Oltramari, sócio e estrategista da 051 Capital

    “Acreditamos que o Banco Central irá aumentar em 0,5 p.p. a taxa de juros básica iniciando assim um ciclo de aumento da taxa Selic com o objetivo de reduzir os estímulos da política monetária. Esse movimento é influenciado por uma deterioração dos riscos inflacionários tanto internacionalmente como no Brasil. O mais importante a observarmos é qual a tendência da curva de juros e o que vai acontecer daqui para frente, se a taxa aumentará rapidamente ou de forma lenta ao longo do ano.

    Temos observado uma deterioração grande nas expectativas inflacionárias no Brasil semana após semana, que já eleva as projeções da inflação do ano corrente acima da meta estipulada pelo Banco Central. Além disso, o quadro fiscal brasileiro continua bastante frágil, o que contribui para uma maior incerteza em relação à inflação brasileira.

    No fronte internacional, o último pacote anunciado pelo governo americano juntamente com uma campanha de vacinação muito eficiente está criando um ambiente de retomada econômica forte dos EUA e, consequentemente, de pressões inflacionárias que fazem com que expectativa de inflação por parte dos agentes econômicos subam e pressionem os rendimentos dos títulos americanos. A política monetária será mantida inalterada neste ano de 2021. As diretrizes do Banco Central são baseadas em resultados tanto de inflação, como de emprego. De acordo com o presidente do BC americano, a economia ainda tem um longo caminho para se recuperar e o país está longe do pleno emprego.”

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Alexandre Espirito Santo, economista-chefe da Órama

“Acredito na elevação de 0,5%, para 2,5%. Minha maior curiosidade recai sobre o comunicado divulgado após a reunião para ver o tom de preocupação do Comitê com o cenário de inflação. A aposta da Órama é de elevação até 4% a.a. (quatro altas de 0,5%), mas não podemos descartar um aumento um pouco maior. Por enquanto nossa projeção para o IPCA é de 4,2%, com uma forte pressão ao longo do 1º semestre, para depois desaquecer gradativamente.

Nos Estados Unidos, enxergamos uma manutenção na reunião desta semana. Todavia, acreditamos que a curva de juros, que já iniciou um processo de alta nas últimas semanas, vai continuar empinando. Vemos os juros de 10 anos rumando para 1,8%. Não tenho essa convicção de que a inflação nos EUA ficará comportada por longo tempo. Contudo, tenho dúvidas reais sobre o que esperar dos Estados Unidos em 2021, creio que o Fed manterá a taxa próxima de zero e o quantitative easing (compras de títulos) ativo. Todavia, se meu cenário de recuperação da economia (com as vacinas prosperando celeremente) prevalecer, poderemos ter um superaquecimento. Se for assim, o Fed terá de rever sua política no 1º semestre de 2022.”

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