Você não precisa de dividendos

Mario Gutiérrez/Getty Images
Mario Gutiérrez/Getty Images

Usando um pouquinho da matemática financeira conseguimos juntar os componentes para ter o retorno que você precisa ter na sua carteira para atingir os seus objetivos

Todos os dias centenas de pessoas me perguntam se vale a pena comprar determinada empresa por que ela noticiou que vai pagar muitos dividendos ou se vale a pena comprar empresas que pagam dividendos, além de qual empresa deveria comprar para receber dividendos.

Faz total sentido pensar em comprar uma empresa para se tornar sócio dela e o dividendo é o prêmio que o acionista recebe por ser sócio dela, só que a imensa maioria das pessoas estão em uma fase de construção patrimonial que exige crescimento e não o recebimento imediato de dividendos.

O dividendo é a distribuição do lucro que a empresa tem. Ela tem por obrigação seguir o seu estatuto e distribuir aquilo que ela determina nele, que inclusive foi aprovado pelos seus sócios, mas toda vez que a empresa distribui algum capital (dividendos, juros sobre capital próprio, bonificação, etc), ela deixa de investir na sua atividade principal.

Assim, ela deixa de crescer para distribuir os seus dividendos e quanto maior for a parcela de distribuição de dividendos menor tende a ser o crescimento da empresa.

Claro que as empresas possuem outras maneiras de crescer, como o financiamento com capital de terceiros, mas via de regra, o dividendo é o combustível para o crescimento da empresa e se alguém está pensando em crescimento patrimonial deveria focar em empresas em estágio de crescimento e não em boas pagadoras de dividendo.

É aí que a gente abre a primeira separação das empresas em estágios de maturidade diferentes, pois algumas estão em crescimento mais acelerado e, por isso, distribuem menos dividendos – como o Magazine Luiza -. Outras estão em estágio de maturidade mais avançado e já não têm muito para onde crescer, por isso acabam distribuindo mais dividendos, como é o caso da Ambev, que não tem muito para onde crescer, pois já cresceu em todo o território nacional, domina o seu mercado local e, até por questões regulatórias, não pode crescer muito além do que já tem, então é natural que ela distribua mais dividendos.

Mas o grande equívoco que eu percebo nas pessoas não é não saber escolher entre uma empresa de dividendos e uma empresa de crescimento – ou até mesmo fazer a composição da sua carteira com ativos diferentes e ter uma carteira diversificada. O grande erro das pessoas é não saber onde se deseja chegar, é não ter um objetivo claro. É muito comum que as pessoas me digam “o meu objetivo é investir para o longo prazo”, mas longo prazo é só o prazo, não é objetivo. Da mesma maneira, dizer que “o meu objetivo é investir em renda variável” também não é objetivo, o objetivo é o quê, o como, o quando e o onde você vai investir para chegar onde deseja.

Usando um pouquinho da matemática financeira conseguimos juntar todos esses componentes e ter como resultado o percentual de retorno que você precisa ter na sua carteira para atingir os seus objetivos.

Eu sei que, falando assim, parece abstrato, mas deixe-me simplificar: eu sempre falo para os meus alunos que de uma carteira de dividendos espera-se um retorno entre 5 e 10% ao ano em dividendos. Se você usar a matemática financeira e ela disser que você precisa de um retorno de 5 a 10% ao ano de crescimento para atingir o seu objetivo, ok, as empresas de dividendos ou fundos imobiliários são sim a solução para os seus objetivos. Agora, se você precisa de retornos superiores a 10%, focar em empresas de dividendos provavelmente não vai te trazer o retorno que você procura e aí você precisa tomar um pouco mais de risco e investir em empresas voltadas mais para crescimento, pois assim você consegue atingir o objetivo que deseja para suas metas.

Tenho certeza que você está se perguntando se dá pra misturar os dois tipos de empresas e a resposta é: Sim!

Mas isso é igual receita de bolo, se aumentar a quantidade de um ingrediente, o resultado será diferente, então colocar mais crescimento gera mais risco, mas permite maior retorno, da mesma maneira que colocar mais pagadoras de dividendos gera menos risco, mas também reduz o retorno da sua carteira.

Então, a grande dificuldade do investidor não é escolher os ativos, a grande dificuldade é não ter objetivos bem definidos, eu vejo isso acontecer com investidores novos e antigos, o que deixa claro que o tempo que se tem nos investimentos não significa que se está investindo de forma correta. Quando se tem um objetivo claro fica muito mais fácil buscar os ativos capazes de entregar esse retorno, e aí chegamos ao resultado ideal que é uma carteira voltada aos objetivos. Então, antes de pensar em qual é o seu perfil, pense nos seus objetivos, porque são os seus objetivos que devem definir os seus investimentos.

O seu objetivo é como querer viajar para o Japão, o investimento é o avião, é o carro, é o barco, é a moto. Então o local para onde deseja viajar é a primeira coisa que você deve definir, o meio de transporte vem depois e aí vai ficar claro que se você quer viajar para o Japão, o melhor caminho é o avião, pois vai te levar mais rápido, mas você pode escolher outros meios de transporte, porém você vai levar muito mais tempo pra chegar onde deseja ou até mesmo podem fazer com que você não chegue no seu objetivo, então definir o objetivo lhe permite escolher o meio de transporte mais adequado. Antes de pensar em investimentos, antes de perguntar a um profissional qual é o investimento correto, defina os seus objetivos. Só assim você conseguirá ir atrás dos melhores investimentos para sua necessidade.

Eduardo Mira é formado em telecomunicações, com pós-graduação em pedagogia empresarial e MBA em gestão de investimento. É analista CNPI, certificado CPA10 e CPA20, ex-gerente do Banco do Brasil e da corretora Modal.

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