Entenda a guerra entre gamers e mineradores de criptomoedas por GPUs

A alta demanda por unidades de processamento gráfico por jogadores e mineradores de criptomoedas tem aumentado a escassez do produto no mercado.

Abram Brown
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Reprodução/Forbes
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Jensen Huang, CEO da Nvidia, apresentando um Drive PX, uma das mais recentes GPUs da empresa

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Ao longo da semana, Doug Dejarnette dirige-se para a sala de jogos de sua casa na cidade de Houston, nos Estados Unidos, e lá se transforma completamente. Às vezes, o oficial de serviços de 38 anos se torna um guerreiro Paladino, invadindo masmorras na versão para PC do jogo World of Warcraft e, em outras ocasiões, um personagem de Half-Life Alyx, lutando contra ETs em uma versão da Terra ocupada por alienígenas, tudo através de um headset da marca Oculus Rift. O que torna seus jogos possíveis é um dispositivo em forma de videocassete dentro de seu computador chamado de GPU (Unidade de Processamento Gráfico, em tradução livre para o português), que renderiza a animação dos jogos, permitindo a transmissão para uma tela.

O Nvidia GeForce RTX 3080 de Dejarnette é um modelo top de linha e não foi fácil de encontrar. Quando ele tentou comprar um novo no ano passado, descobriu que era “simplesmente impossível encontrar em qualquer lugar. Acordei cedo no dia do lançamento para acessar todos os sites. Finalmente desisti e comprei um no Reddit por cerca de US$ 1.000”, um valor 30% mais alto.

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Há uma escassez mundial de GPUs novas e antigas no momento, levando a uma sensação de pura calamidade entre os jogadores desanimados em obter uma versão mais recente ou até mesmo substituir uma peça antiga, diz Dejarnette. Isso tem levado os gamers a pensar que a culpa da escassez de GPUs é de outro grupo: os mineradores de criptomoedas. Os jogadores e outros observadores do mercado de GPU dizem que os mineradores causaram um estrago de US$ 20 bilhões na indústria, sobrecarregando-a com uma demanda inesperada, com os componentes-chave para as GPUs – os microchips – quase não estão disponíveis. No último dia 19, a Nvidia anunciou que mudaria algumas versões futuras de suas GPUs para torná-las menos atraentes para os mineradores de criptomoedas. Mas essa atualização na fabricação das unidades não chegará tão cedo.

“Não há nada lá fora”, disse o minerador Shaneel Mohandas, de 22 anos, sobre a disponibilidade atual de GPUs. O profissional de TI tem 7 GPUs funcionando em um quarto escuro em Durban, na África do Sul, com cada uma delas dedicadas à produção de criptomoedas, como bitcoin e ethereum. Ele acredita que até mesmo sua coleção de GPUs envelhecida pode chegar a 2,5 vezes seu preço original. “É tudo muito caro. E isso está deixando os gamers loucos.” Por meio da mineração, Mohandas recebe bitcoin como recompensa por criar blocos de transações verificadas que são adicionadas ao blockchain, sem precisar pagar por isso.

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A disputa entre gamers e mineradores de criptomoedas pelos aparelhos de alta tecnologia é uma maneira útil de entender algo muito mais amplo que está acontecendo no mundo: há uma grande escassez mundial de microchips, um produto que se tornou quase tão essencial quanto concreto, óleo ou trigo para um planeta cada vez mais digitalizado. Quase meio trilhão de dólares são vendidos a cada ano. Eles alimentam sistemas eletrônicos de aviões, automóveis, smartphones – e claro, GPUs. Além disso, eles são cada vez mais encontrados em objetos do cotidiano, como escovas de dente, geladeiras e cafeteiras.

“Tornou-se uma espécie de vício”, admite o minerador Aniel Varma, em Orlando, na Flórida. “Todo mundo quer construir sua própria máquina. É uma impressora de dinheiro. ”

À medida que a liquidez financeira cresce em todo o mundo, os consumidores querem mais e mais desses tipos de coisas a cada ano, e alguns tiveram uma demanda especialmente alta durante a pandemia. Mas muitos dos chips para esses itens são fabricados fora dos Estados Unidos, como a Taiwan Semiconductor e a Samsung. Essas cadeias de suprimentos globais foram fortemente pressionadas pela pandemia, interrompidas por fatores como fechamentos de fábricas e de fronteiras – além de tensões entre Taiwan e a China continental, que nunca reconheceu seu direito de existir como um país soberano. Os governos mundiais estão preocupados: o presidente Biden, por exemplo, prometeu injetar quase US$ 40 bilhões na indústria para impulsionar a fabricação de semicondutores nos Estados Unidos em fevereiro. No mesmo mês, ministros da União Europeia se reuniram para discutir um pacote de US$ 60 bilhões destinado ao mesmo objetivo em seu território de 27 países.

O que está acontecendo nesse pequeno universo nerd se repete de alguma forma em todos os setores que dependem de microchips. “Acho que o que você tem é uma tempestade perfeita de coisas”, diz Matthew Stafford, editor-gerente da Tom’s Hardware, uma bíblia do setor para o pessoal de TI. “As empresas globais esperam estabilidade. E isso é tudo menos estabilidade.”

A Nvidia e seus concorrentes têm feito GPUs para jogadores durante grande parte das últimas três décadas. Segundo relatos, os três cofundadores da Nvidia teriam, basicamente, sonhado com todo o mercado durante um café da manhã na Califórnia em 1993, imaginando que haveria um mercado para pessoas que procuram melhorar seus PCs. Um desses homens, Jensen Huang, continua sendo o CEO da Nvidia e tem uma fortuna pessoal estimada em US$ 14,2 bilhões. A Nvidia, por sua vez, tem uma avaliação de mercado de quase US$ 370 bilhões. A AMD, rival mais próximo da companhia, vale perto de US$ 100 bilhões. O preço das ações da Nvidia subiu mais de 67% no ano passado, ultrapassando em muito o ganho de 43% do Nasdaq.

Os gamers tinham as GPUs para si mesmos até a última década, quando o boom das criptomoedas começou. As GPUs realizam trilhões de cálculos a cada segundo e seu imenso poder de computação pode ser aplicado a cripto mineração, onde um computador resolve uma série de equações complexas, produzindo novas porções das criptomoedas que podem ser trocadas por dinheiro em exchanges, como a Coinbase.

A Nvidia e a AMD foram em grande parte apanhadas de surpresa pela crescente demanda dos mineradores e não parecem ainda não entender completamente qual porcentagem de suas vendas vem das criptomoedas. Em uma recente teleconferência com analistas de Wall Street, os executivos da Nvidia citaram dados vagos de terceiros ao discutir que parte de suas GPUs vão para a cripto mineração. “Eles provavelmente não sabem”, diz Stacy Rasgon, analista da Bernstein. O número pode chegar a 10% das vendas, acima de praticamente zero uma década atrás e perto de meio bilhão de dólares. A situação provavelmente só está piorando: os preços das criptomoedas dispararam entre 2020 e 2021, aumentando o apelo à mineração.

Os fabricantes de GPUs não querem os mineradores como seus principais clientes. Eles viram uma explosão semelhante na demanda dos mineradores em 2017 e 2018, outro momento de alta nos preços das criptomoedas. Mas quando a bolha anterior estourou, eles inundaram o mercado com GPUs de segunda mão, reduzindo os preços e suprimindo a demanda por novos modelos. O dano ficou evidente nos números que a Nvidia relatou em seu primeiro trimestre fiscal de 2019: quase um terço a menos na receita do ano anterior, apenas US$ 2,2 bilhões, uma rara queda para a empresa.

Portanto, a Nvidia e seus concorrentes não estão apenas lidando com uma crise de oferta, mas também com a forte demanda de um grupo de consumidores que pode desaparecer a qualquer segundo se os preços de criptomoedas despencarem novamente. Ou seja, mesmo que o fornecimento melhorasse e as empresas integrassem melhor a mineração em suas previsões, eles poderiam ter um excesso de produtos, enfraquecendo os preços.

Considerando todos esses fatores, as empresas decidiram não fazer grandes ajustes. O resultado é a tensão entre gamers e mineradores e a corrida louca por qualquer GPU que exista, muitas vezes usados ​​no eBay ou negociados por meio de fóruns do Reddit pelo dobro ou o triplo dos preços originais das unidades.

Justin Kelly, 42 anos, está entre os dois mundos, um ex-gamer que se tornou minerador. Kelly comprou várias GPUs para jogar – “amigos viriam, jogaríamos Duke Nukem ou Delta Force 2” – e depois começou com a mineração de bitcoin por volta de 2013. Ele pagou US$ 10 mil nas últimas placas da Nvidia no ano passado, o suficiente para produzir até US$ 600 em criptomoedas por dia. Ele gostaria de ter comprado mais. “Eu teria gasto mais, mas não consegui fazer isso ”, diz Kelly, consultor de TI de Seattle. Muitas das vendas tinham um limite estrito de uma GPU por pedido.

“Tornou-se uma espécie de vício”, admite o minerador Aniel Varma, de Orlando, Flórida. “Todo mundo quer construir sua própria máquina. É uma impressora de dinheiro.” Varma, 36 anos, conseguiu comprar 30 GPUs Nvidia nos últimos 12 meses depois de encontrar alguém para lhe vender um bot, um software que pode ser ensinado a vasculhar a web em busca de vendas de GPU e obtê-las assim que um site as adicionar.

Varma, que também é consultor de tecnologia, instalou quatro computadores em sua casa: um na sala de estar, um na sala de entrada da casa, outros dois no quarto de hóspedes e no corredor. Ele minera principalmente bitcoin e ethereum, mas recentemente se ramificou para o dogecoin também, por insistência de sua filha. “Estou construindo esses supercomputadores incríveis”, diz ele com orgulho. “Todo mundo que entra em minha casa e vê as plataformas fica completamente pasmo”.

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