O monstro de US$ 5 trilhões que atormenta a economia do Japão em 2021

Kim Kyung-Hoon/Reuters
Kim Kyung-Hoon/Reuters

ETFs, títulos públicos e deflação: entenda os desafios da política monetária japonesa

Desde 2013, Haruhiko Kuroda, presidente do BOJ (Banco Central do Japão), supervisiona uma expansão sem precedentes no balanço do BC japonês, por meio principalmente da compra de títulos da dívida pública japonesa -mas também com acúmulo de ações de ETFS na onda positiva do mercado. No final de 2018, a instituição superou o tamanho da economia do Japão de US$ 5 trilhões – e só cresceu desde então.

Somente em 2020, a equipe de Kuroda adicionou US$ 65 bilhões em ETFs, tornando o BOJ uma “baleia” dos investimentos no Japão. Muito acima dos US$ 38 bilhões de 2013.

Mesmo assim, em maio – e aí vem a grande provocação – o BOJ passou um mês inteiro sem aumentar suas participações em ETFs, a primeira pausa de 30 dias em oito anos. Isso fez com que muitos investidores acreditassem que Kuroda de repente estava falando sério sobre diminuir o apoio do BOJ para as ações.

Mas essa é uma aposta incerta, já que a recuperação da Covid-19 do Japão está atrasada em relação ao restante do mundo desenvolvido,  talvez significativamente.

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A queda de 6% do iene em relação ao dólar norte-americano explica bem o contexto. À medida que a América do Norte e a Europa se estabilizam e retomam o crescimento econômico, as forças por trás da desaceleração do Japão permanecem teimosamente negativas. Os números das vendas no varejo, da produção industrial, dos salários e da confiança empresarial têm convencido muitos economistas que o Japão pode não retornar aos níveis anteriores à Covid até 2023.

A China está fazendo isso agora, enquanto outros países esperam uma recuperação em 2022. O fato do Japão ainda precisar de dois anos para retomar sua atividade está influenciando as expectativas de inflação. Enquanto os EUA e outras economias importantes se preparam para o aumento dos preços ao consumidor, o Japão está voltando para o vermelho.

Em abril, o índice de preços ao consumidor japonês caiu pelo nono mês consecutivo. O declínio de 0,1% ano a ano está fora de compasso com as tendências de praticamente todos os outros países do mundo. Isso ajuda a explicar o porquê do iene ter o pior desempenho entre as moedas do G10. Isso explica também porque o BOJ não deve mudar tão cedo sua postura monetária, mesmo que o Federal Reserve o faça em Washington.

Conclui-se, então, que as participações do BOJ nos ETFs vieram para ficar – e, ao mesmo tempo, trazer lições para outros países.

Quando Kuroda chegou à sede do BOJ, o banco central já vinha brincando com flexibilização quantitativa há 12 anos. Se estamos falando sobre quando o BOJ se tornou a primeira grande autoridade monetária a reduzir as taxas de juros a zero, já se foram 14 anos. Kuroda ampliou o esforço: primeiro, ele monopolizou o mercado de títulos públicos. Depois, o mercado de ações.

No entanto, todo esse apoio de uma instituição estatal está distorcendo a dinâmica do mercado de ações. Em fevereiro, os ganhos do BOJ pelas participações em ETFs atingiram um recorde de US$ 149 bilhões na semana em que o índice de referência Nikkei 225 Stock Average chegou à máxima de três décadas. Esse ganho é mais que o dobro do PIB de Mianmar, país do sudeste asiático.

O problema é que o BOJ está efetivamente preso. Se tentar se retirar do mercado de títulos, os rendimentos quase certamente dispararão. A única coisa que faz a relação dívida/PIB de 250% de Tóquio parecer um pouco administrável são as taxas de 10 anos a 0,06%. Como o crédito é essencialmente gratuito, o Japão sustenta seu crescimento por meio de gastos deficitários.

Não é impossível dizer que Tóquio criou uma espécie de Frankenstein monetário. Se o BOJ não tomar cuidado, o monstro ficará fora de controle e voltará para prejudicar seu criador.

O presidente do Fed, Jerome Powell, está em uma situação semelhante. Ele com certeza aprenderá logo que entrar em uma miríade de classes de ativos é uma coisa. Sair é outra completamente diferente. Se Powell tentar diminuir o ritmo, políticos, CEOs, banqueiros e investidores irão protestar.

Qualquer indício de que o Fed possa começar a encerrar a liquidez, provavelmente aceleraria a tendência de baixa do iene. As apostas de fundos de hedge contra o iene estão perto dos níveis mais altos desde o início de 2019. Parte da negatividade reflete o fluxo de caixa do Japão para M&As. O investimento direto no exterior, incluindo fusões e aquisições, saltou quase 30% entre janeiro e março, em relação ao ano anterior.

A maior parte, porém, reflete temores de que a recuperação do Japão ainda demore dois anos. Mesmo as boas notícias no Japão, atualmente elas ainda são ruins. A economia do país encolheu 3,9% no primeiro trimestre, um pouco melhor do que a estimativa inicial de 5,1%.

“Esperamos que a economia experimente outra contração no segundo trimestre devido às restrições estendidas, o que pesará muito, especialmente no setor de serviços”, disse Makoto Tsuchiya, da Oxford Economics.

A deflação, entretanto, é mais uma vez um risco muito maior do que o aumento dos preços. Mais uma razão para se pensar que o saldo de US$ 5 trilhões do BOJ poderá crescer – e não diminuir – à medida que o Japão busca se recuperar. Enquanto isso, os monstros criados ao longo do caminho podem aparecer no horizonte.

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