Por que o governo se beneficia com a alta da inflação

sefa ozel/Getty Images
sefa ozel/Getty Images

A inflação é sentida diariamente, com a alta nos produtos de consumo básicos

Que a vida vem ficando mais cara você já percebeu, certo? E já deve saber de quem é a culpa: a famosa inflação.

Nesta semana, o boletim Focus, do Banco Central, reportou alta no IPCA (nosso principal índice de inflação) de 6,07% para 6,11% em 2021, um número bem acima do teto da meta para este ano, que é de 5,25%. Isso vem ocorrendo por causa do aumento dos preços de bens industriais e também dos produtos básicos que são monitorados pelo índice.

Mas o que eu quero te explicar hoje é de que forma o governo se beneficia da inflação e o que você pode fazer para se proteger dos efeitos nocivos dela sobre o seu dinheiro.

O que é a inflação

Antes de mais nada, é importante você compreender que inflação é o aumento geral dos preços de produtos e serviços. Quando os economistas falam que a inflação aumentou, significa que o poder de compra das pessoas diminuiu. Ou seja, para poder continuar consumindo a mesma quantidade de coisas, você precisa de mais dinheiro do que precisava antes.

Por exemplo, no ano 2000 um pão francês custava, em média, R$ 0,05 e, atualmente, custa R$ 1,00. Em relação a esse item, a moeda perdeu seu poder de compra em quase 2000% neste período, ou seja, o dinheiro foi corroído pela inflação. Um pouco assustador, não?

Mas isso não significa que essa foi a inflação do país nos últimos 21 anos. Na verdade, o cálculo da inflação é composto por vários itens.

Como se mede

O IPCA, Índice de Preços ao Consumidor Amplo, é o indicador oficial da inflação e está vinculado à taxa básica de juros, a Selic, que, por sua vez, influi diretamente na rentabilidade dos investimentos.

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mede o IPCA desde 1979. Ele faz um levantamento mensal de preços de produtos e serviços em 13 grandes áreas urbanas do país. Esses preços são comparados com os do mês anterior, refletindo, então, a variação geral de preços ao consumidor no período.

Também existem outros indicadores econômicos que são utilizados, como o IGPM, o IPCA-15, entre outros. Mas hoje focaremos no IPCA, que é o principal deles. É por meio desse índice que o governo monitora a variação dos preços dos produtos e serviços que consumimos no dia a dia, e o Banco Central usa o IPCA para definir suas ações de controle da inflação, para que ela seja mantida dentro da meta.

Por que existe meta de inflação

O aumento da inflação é positivo para o governo, desde que ele consiga mantê-la dentro da meta estabelecida.

A meta da inflação é parte da política monetária, através da qual o governo busca garantir o crescimento da economia dentro de padrões sustentáveis e que não prejudiquem o poder de compra da população.

Atualmente, a meta de inflação anual para 2021 é de 3,75%; 3,50%, em 2022; 3,25%, em 2023 e 3,00%, em 2024. Essa definição é feita para reduzir as incertezas e possibilitar um melhor planejamento para empresas e consumidores.

Para o governo, é importante que a inflação exista, pois, se ela ficar abaixo da meta, pode gerar deflação. Isso não é desejável, já que significa que os preços estão caindo.

Parece estranho? Pense comigo: a tendência de queda de preços leva ao adiamento dos investimentos na criação ou ampliação de empresas, e reduz também o consumo de bens e serviços, pois todos ficam na expectativa de fazer seus gastos quando os preços caírem ainda mais.

Assim, esse movimento pode ocasionar estagnação econômica e queda de arrecadação. Faz sentido agora?

Como o governo se beneficia da inflação

Todos os produtos e serviços que você consome em seu dia a dia contêm uma alta carga tributária. Sendo assim, toda vez que os preços sobem, a arrecadação do governo aumenta.

Para você ter uma ideia da magnitude disso, em 2020 a arrecadação de ICMS pelos estados cresceu R$ 45,1 bilhões em comparação a 2019. Isso foi resultado do aumento da inflação impulsionada pelo valor das commodities e a alta geral dos preços causada pela pandemia.

Só no período entre janeiro e maio de 2021, o crescimento da arrecadação dos estados foi de 11% em comparação com 2020.

A análise dos especialistas é que esse fôlego financeiro leve os governantes a investirem em obras que se tornem vitrines eleitorais para 2022.

Uma outra vantagem para o governo com a inflação é que a desvalorização do real beneficia os devedores, já que o custo de sua dívida cai. Como sabemos, o maior devedor do país é o próprio governo, que emite títulos do tesouro para poder custear parte de suas despesas.

Além dessas vantagens, a política monetária estabelece que a União pode reajustar o teto de gastos com base na inflação dos últimos 12 meses. Ou seja, com o crescimento da inflação, o governo federal, além de arrecadar mais, ainda ganha um aumento no tamanho do seu orçamento para o ano seguinte.

Os maiores prejudicados

O crescimento da inflação tem efeitos ruins na economia como um todo, mas prejudica muito mais a parcela da população com menor renda e que gasta todo o salário basicamente em subsistência, não tendo nenhuma condição para fazer aplicações financeiras que a proteja dos efeitos do aumento de preços.

Além disso, a alta carga tributária embutida nos produtos faz com que parcela da renda dos mais pobres usada para o pagamento de tributos seja imensamente maior que a dos mais ricos, já que os impostos são os mesmos para todos.

Claro que a inflação também penaliza outros setores, mas esses têm mecanismos para minimizar suas perdas. A maioria das empresas consegue repassar os custos da alta dos preços, e os investidores têm opções de aplicações financeiras que mitigam perdas com a inflação, mas a população mais carente não tem como escapar.

Como proteger seu dinheiro contra o aumento da inflação

Para proteger seu dinheiro da inflação é fundamental que você tenha claro o conceito de ganho real.
O ganho real do seu investimento é a quantia que o dinheiro, trabalhando para você, gerou, após o desconto das taxas, imposto e inflação. Em outras palavras, o ganho real é o lucro gerado pelos seus investimentos.

Uma forma direta de ter rentabilidade acima da inflação de maneira simples são os investimentos pós-fixados atrelados ao IPCA. CDB, Tesouro Direto, debêntures, CRI e CRA, que estabeleçam uma porção pré fixada (ganho real), além da variação do IPCA.

Os títulos somente pré-fixados trazem embutida em sua precificação a expectativa do IPCA para o período de vencimento, conhecida por inflação implícita. Se compararmos os títulos pré e pós fixados de mesmo vencimento, podemos perceber a expectativa do mercado para o período, que pode ou não ser confirmada em caso de dificuldade no controle da inflação.

Por fim, sempre vale lembrar que as ações que compramos na Bolsa de Valores são de empresas que vendem seus produtos e serviços aos consumidores, e a inflação é justamente o aumento dos preços dos produtos dessas empresas – isso significa que os lucros e dividendos delas estão naturalmente ligados à inflação e protegidos do seu impacto. Por isso, essa sempre será uma excelente forma de investimento para quem pensa em longo prazo.

Eduardo Mira é formado em telecomunicações, com pós-graduação em pedagogia empresarial e MBA em gestão de investimento. É analista CNPI, certificado CPA10 e CPA20, ex-gerente do Banco do Brasil e da corretora Modal.

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