Novas formas de consumir café desafiam cadeia produtiva brasileira

Pandemia apresentou novo cenário de consumo e em 2020 o país exportou volume recorde de grãos, 10,3% frente ao ano anterior pré-pandêmico .

Vera Ondei
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Starbucks de 2.700 metros quadrados em Xangai, inaugurada no fim de 2017; no início de 2018, a poucos metros dali, foi aberta a primeira unidade da concorrente Luckin Coffee, que hoje se aproxima de 5 mil lojas

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Um dos muitos efeitos colaterais da pandemia tem sido um novo ordenamento global no consumo de alimentos e bebidas. E o café, uma das principais commodities exportadas pelo Brasil, não está fora dos impactos e das mudanças já provocadas e daquelas que ainda estão por vir. “A pandemia chegou como algo completamente desconhecido, em fevereiro do ano passado. E aí, com o medo e a potencial percepção de perda de renda do consumidor global, deu para acreditar que entraríamos em cenários muito complexos, não só para o café”, diz o colombiano Nicolas Rueda, diretor-presidente da ED&F Man Volcafé no país, que desde janeiro também está à frente do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), entidade que reúne 120 exportadores. “O produto foi exportado e chegou ao seu destino. E, por enquanto, não temos informação se ele está se acumulando nesses destinos. O café é resiliente.”

No ano passado, o Brasil exportou um volume recorde de grãos (verde, solúvel, torrado e moído) da ordem de 44,5 milhões de sacas de 60 quilos, por US$ 5,6 bilhões, 10,3% acima de 2019. Neste início de 2021, o cenário continua inalterado. Entre janeiro e março foram embarcadas 11 milhões de sacas por US$ 1,43 bilhão, mantendo o mesmo ritmo de crescimento em volume, acima de 10%.

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Engenheiro de produção e mestre em administração, Rueda passou 20 de seus 43 anos no setor – trabalhou em tradings na Holanda antes de chegar ao Brasil, em 2015. Para ele, a constatação de que o local de consumo mudou, com tantas cafeterias e restaurantes fechados e as pessoas trabalhando de casa, não responde a todas as perguntas que têm sido impostas pelo dito “novo normal”. “Temos de observar a riqueza e a diversidade dos nossos mercados. E aí utilizar a inteligência de mercado para agir”, afirma.

Para atender às mudanças recentes do maior consumidor global de café, a NCA (National Coffee Association), principal associação de pesquisa de mercado, informações ao consumidor e lobby para a indústria cafeeira nos Estados Unidos, apresentou recentemente o estudo “Consumidores e Covid-19: roteiro para a recuperação”. Foi a primeira iniciativa no mundo visando entender o que ocorre na ponta do mercado. Os EUA são o principal importador brasileiro. No ano passado, compraram 8,1 milhões de sacas, 18,3% do total vendido pelo país. A pesquisa da NCA mostra que mais da metade dos norte-americanos já voltaram ou planejam voltar às cafeterias nos próximos meses, embora cerca de 80% deles também consumam cafés em suas residências. Não por acaso, 75% afirmaram que a pandemia não mudou o seu hábito, mas sim o caminho para chegar à bebida. Os pedidos por aplicativos cresceram 63%, e nos drive-thru aumentaram 13%. “Efetivamente, os jogadores tradicionais, aqueles com marcas muito perceptíveis e que conseguiram entrar no mundo digital, do delivery, do drive-thru, com certeza atingiram um melhor desenvolvimento na pandemia”, diz Rueda.

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Tendências como o solúvel, a monodose e o café pronto para o consumo, que já estavam dadas, vêm em curva ascendente mais perceptível no mercado global. “As inovações trazem oportunidades. O Brasil não só produz muito café, mas também uma ampla gama de opções. Temos os mais suaves, mais finos, lavados arábicos, semilavados, cafés naturais dos arábicos e também o conilon.” Ele lembra que há 15 anos a primeira onda trouxe novas categorias de cafeterias, como a norte-americana Starbucks, seguida por uma segunda onda iniciada na Europa com a chegada das novas gerações de frequentadores.

Agora uma terceira onda toma o mundo com a diversificação dos modos de preparo – e já vem aí uma quarta onda, com bebidas completamente diferenciadas em sabores e formulações. Mesmo assim, é preciso cuidar dos mercados tradicionais, como o europeu, que leva 50% da produção nacional de café, e o norte-americano, o maior importador individual, porque eles ditam tendências. As cápsulas, por exemplo, surgiram na Europa.

Muito além da tradição

O Brasil tem exportado também para mercados que são considerados “novos paradigmas”. Entre eles estão o México e a Colômbia, países produtores e exportadores do grão. Eles importam para o consumo interno e também para industrializar e vender a outros países – como é o caso do México, que vende muito café para os EUA. “O México virou uma potência industrial do café solúvel e tem demandado nosso café cada vez mais”, afirma Rueda. Em 2010, o país comprou apenas 12,3 mil toneladas. Há cinco anos esse volume já havia saltado para 45 mil toneladas e, no ano passado, foram 61,5 mil toneladas, por US$ 85 milhões.

Nesse movimento, o executivo coloca com destaque a Ásia, como ocorre com muitas outras commodities brasileiras com real potencial de crescimento naquela parte do mundo. Rueda classifica três tipos de mercados potenciais: os clássicos, que não produzem café, como o Japão, por exemplo, que já é um destino tradicional para o café brasileiro; no segundo grupo estão os mercados emergentes que não produzem café ou produzem volumes irrisórios, como a China e as Filipinas; e há um terceiro grupo onde estão países como Índia, Indonésia e Vietnã, que são grandes produtores. “Alguns deles têm demandado café brasileiro, como a Índia e a Indonésia, onde estão instaladas grandes indústrias de solubilização.”

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No caso da China, o Cecafé está criando uma força-tarefa com os adidos agrícolas e outros órgãos, entre eles a Abic (Associação Brasileira da Indústria do Café), com vistas a um movimento de promoção do produto brasileiro. Rueda acredita na possibilidade de agigantar essa ação, diferentemente do que já ocorreu em campanhas pontuais anteriores. Há duas décadas, o país da cultura do chá não importava um único grão de café do Brasil. Já no ano passado, foram pouco mais de 200 mil sacas, um volume ainda pequeno.

Nos dias atuais, o consumo anual da China oscila entre 4 milhões e 5 milhões de sacas, atraindo grandes multinacionais, como a própria Starbucks, Nestlé e outras. “Mudar uma cultura leva tempo, mas quando ela começa a mudar, particularmente puxada por grandes metrópoles como Pequim e Xangai, o interesse do consumidor só aumenta”, diz o especialista. “O Brasil tem uma oportunidade monumental e precisa se preparar.”

Reportagem publicada na edição 86, lançada em abril de 2021

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