Como o Brown Brothers criou as finanças modernas nos EUA

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Segundo autor do livro, fundador do Brown Brothers ficaria “horrorizado” com a Wall Street de 2021

Em “Inside Money: Brown Brothers Harriman and the American Way of Power”, livro lançado no início deste ano nos Estados Unidos, o historiador e investidor Zachary Karabell narra a ascensão de um banco desde suas raízes como uma humilde empresa têxtil na cidade de Baltimore há mais de dois séculos, até ele se tornar um pilar das finanças e da política norte-americana. O Brown Brothers conectou Wall Street e Washington de uma forma nunca vista antes – moldando a política monetária e externa dos Estados Unidos, para melhor ou para pior, durante três décadas no século 20, quando o poder norte-americano atingiu o seu apogeu.

A história de Karabell começa com Alexander Brown, um negociador de linho que migrou da Irlanda para os EUA em 1800 e, ao longo dos 34 anos finais de sua vida, estabeleceu o início da dinastia Brown Brothers. Desde meados do século 20, quando sua famosa sala de associados abrigava mesas de políticos, os ideais que Alexander Brown pregou a seus quatro filhos continuaram a definir a empresa.

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Ele acreditava que reputação, relacionamentos, confiança e uma abordagem conservadora ao risco eram os alicerces do sucesso nos negócios e nas finanças. Segundo Brown, aqueles que eram agraciados com grande riqueza e poder tinham a responsabilidade de empregá-los de maneira a beneficiar as pessoas ao seu redor. E ele queria que seus herdeiros acreditassem nas mesmas coisas.

Perguntei a Karabell no início desta semana o que Alexander Brown pensaria se fosse transportado do distrito financeiro de Baltimore, de 1821, para a Wall Street de 2021.

“Ele ficaria horrorizado”, disse Karabell. “Não usamos muito a palavra horrorizado, mas ele a usaria e teria esse sentimento. Ele era um chefão cheio de princípios – vestia seu terno preto, falava como um banqueiro, andava como um banqueiro. Não haveria uma Spac do Brown Brothers.”

Durante o século 19, a economia dos EUA oscilava a cada vinte anos entre booms e pânicos dolorosos. Ao longo dessa época, o Brown Brothers manteve os olhos em seu próprio quintal: conseguiu financiamento para outros comerciantes, investiu em ferrovias e navios e, por muitos anos, negociou algodão americano para empresas têxteis no Reino Unido – engajando-se no ato execrável de lucrar com a escravidão de outros seres humanos.

Entretanto, à medida que a Era Dourada deu lugar à vigorosa política externa adotada por Theodore Roosevelt, o Brown Brothers e outras empresas americanas começaram a olhar cada vez mais para fora. Isso levou à era da diplomacia do dólar, da qual Brown Brothers foi um dos expoentes mais proeminentes. À época, o banco decidiu expandir para a Nicarágua, onde tomou o controle efetivo do banco e da ferrovia nacionais, gerando críticas de que o país havia se tornado a “República dos Brown Brothers.”

Após a Primeira Guerra Mundial, quando os Estados Unidos emergiram como o novo centro das finanças globais, os sócios do Brown Brothers começaram a desempenhar um papel ainda mais essencial, ajudando a escrever as novas regras que definiriam como o dinheiro se moveria pelo globo. A ascensão da União Soviética apenas aumentou as motivações que sempre guiaram os líderes do banco.

Ganhar dinheiro era bom, claro, mas eles acreditavam que o verdadeiro objetivo do capitalismo era promover as ideias americanas de liberdade e provar a sua superioridade. Eles acreditavam profundamente que as finanças americanas eram a chave para o sucesso de outras nações, e que era seu dever promover o crescimento de outras empresas americanas para melhorar a vida das pessoas em todo o mundo. As finanças tornaram-se modernas de várias maneiras: complexas, multifacetadas e verdadeiramente globais, refletindo o internacionalismo da era pós-guerra. Mas também, no sentido mais crítico, impulsionado por uma crença central de que o progresso poderia ser alcançado apenas se os processos certos fossem seguidos.

Considerando o contexto da Ameaça Vermelha e, mais tarde, da Guerra Fria, a urgência de espalhar os ideais americanos no exterior tornou-se ainda mais intensa. E que ideais são mais americanos que o capitalismo e o excepcionalismo?

“Às vezes, eles confundiam a fórmula que os fazia feito enriquecer com o sistema operacional de todas as sociedades estáveis ​​e bem-sucedidas e, portanto, tratavam o desafio do comunismo como uma ameaça existencial”, escreve Karabell, referindo-se aos sócios do Brown Brothers. “Mas eles nunca abandonaram a crença central de que ganhar dinheiro traz consigo responsabilidades, e que eles só seriam úteis se se lembrassem de que estão no negócio de facilitar o trabalho dos outros.”

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Nos primórdios do J.P. Morgan, negócios e política eram esferas muito distintas. Em meados do século 20, elas começaram a colidir, e poucos pareciam mais adeptos a navegar nesta nova realidade do que os sócios do Brown Brothers. Averell Harriman era sócio da empresa, também diplomata, embaixador e 48º governador de Nova York. Robert Lovett, outro sócio, ajudou a moldar a política na Segunda Guerra Mundial e se tornou Secretário de Defesa. Um terceiro sócio, Prescott Bush, foi senador por Connecticut e, mais tarde, pai e avô de presidentes (George H. W. Bush e George W. Bush). Eles ajudaram a criar a relação moderna entre Wall Street e Washington.

Eles eram a definição do establishment em uma época em que muitos americanos acreditavam na sua bondade e honestidade. Os EUA perderam muito de sua inocência durante as duas Guerras Mundiais e a Grande Depressão, mas ainda havia uma crença sincera de que o país representava o bem.

E então chegou a década de 1960. Vietnã. Direitos civis. Acontece que os membros do establishment podem não ser os melhores e os mais brilhantes afinal de contas. A inocência se transformou em cinismo. De repente, a ideia de combinar o poder da política e dos grandes negócios para promover os interesses americanos no exterior tornou-se muito mais sinistra. Para milhões de americanos, empresas como o Brown Brothers não eram mais algo de que se orgulhar.

“No final da década de 1960”, escreve Karabell, “a empresa foi vista como parte de um sistema injusto governado por um país imoral para fins mercenários que, longe de salvar o mundo, estava deixando-o em ruínas em nome do poder americano e do todo-poderoso dólar. ”

Esse cinismo em relação a Wall Street acabou sendo internalizado como cinismo dentro de Wall Street. O velho modernismo progressista cedeu. Karabell investiga alguns dos fatores que transformaram o mundo das finanças americanas nas décadas de 1970 e 1980, dando origem à era da “ganância é boa”, com seus junk bonds (títulos de renda fixa altamente voláteis) e compras alavancadas. Para começar, havia dinheiro demais envolvido. Em pouco tempo, a ideia de que as finanças promoviam alguma verdade mais profunda sobre a melhor maneira de as nações funcionarem tornou-se ultrapassada. Não havia “uma” verdade. Esse é, em muitos aspectos, o problema pós-moderno: qual é o sentido de tudo isso? Negociadores que se lançaram de cabeça em Wall Street decidiram que o objetivo era vencer. E a maneira de vencer era ganhar muito dinheiro.

Isso não significa que os manifestantes anti-Vietnã das décadas de 1960 e 1970 tenham se tornado os acólitos de Gordon Gekko dos anos 1980. Mas aquele niilismo cultural pós-moderno que emergiu do Vietnã parece um precursor que guiou as finanças nos últimos 40 anos.

As páginas finais de “Inside Money” trazem uma breve aparição de Marshall McLuhan, o teórico pós-moderno que descreveu o dinheiro como uma metáfora, que armazena trabalho e depois o traduz em outras coisas. McLuhan também escreveu a famosa frase “o meio é a mensagem” – a ideia de que o meio pelo qual uma mensagem é transmitida talvez seja mais importante do que a própria mensagem.

Acho que esse é um bom momento para encerrar esse assunto. Por um século e meio, o dinheiro não era um fim em si mesmo para um banco como o Brown Brothers. Era um meio para um fim, uma forma de serviço e dever. Mas na Wall Street pós-moderna, o dinheiro se tornou tanto o meio quanto a mensagem. A inocência e a seriedade que foram os fatores definidores da ascensão das finanças americanas durante a metade do século 20 desapareceram para sempre. E não há como voltar atrás.

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