Como profissionais autônomos podem organizar suas finanças e investir?

Mais de 14 milhões de brasileiros se tornaram MEI na pandemia, especialistas em finanças compartilham dicas de como cuidar da vida financeira.

Iasmin Paiva
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Pandemia acelerou informalidade no mercado de trabalho e empreendedorismo no Brasil

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O número de profissionais autônomos vem crescendo no mercado de trabalho brasileiro. Em 2019, eles somaram 24 milhões de pessoas, segundo levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), recorde histórico para a série que começou a ser calculada em 2012.

A pandemia favoreceu esse movimento de transformação do mercado de trabalho: menos empregos formais e mais trabalhadores autônomos. São os freelancers ou microempreendedores individuais (MEI), que se deixam o trabalho formal e migram para novas formas de atuação profissional.

Segundo o relatório GEM (Global Entrepreneurship Monitor) de 2020, mais de 14 milhões de brasileiros se tornaram MEI durante a pandemia. Enquanto isso, as plataformas de contratação de serviços – que conectam freelancers a oportunidades de trabalho – também registraram aumento nos cadastros. A Workana viu crescer em 32% a base de profissionais brasileiros durante os dez primeiros meses de 2020, enquanto, na GetNinjas, esse número avançou em 62%.

Atuar nesse novo modelo de trabalho, contudo, exige uma organização financeira diferente, com estratégias individuais para o futuro, em especial para a aposentadoria. O primeiro passo, segundo Ana Leoni, especialista em comportamento financeiro, ex-executiva da Anbima e, atualmente, empreendedora no projeto Dinheiro com Atitude, é traçar um perfil detalhado do novo estilo de renda. Isto é: identificar as fontes de receita e as despesas mensais. “Assim, o profissional vai ter uma ideia do seu ganho efetivo”, explica.

Murilo Duarte, ex-auditor sênior na KPMG, fundador do canal Favelado Investidor e Forbes Under30, comenta que, além de identificar todo o dinheiro que entra e sai do orçamento, é preciso dar uma atenção extra à reserva de caixa, também conhecida como reserva de emergência, já que a oscilação da renda será uma questão presente. “Precisa definir uma porcentagem da receita para construir a reserva, além de controlar os custos. O percentual é uma boa medida justamente porque a renda não é fixa, esse valor vai ser menor ou maior ao longo do tempo.”

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Além de possuir uma renda mensal variável, esses profissionais também estão mais expostos aos riscos econômicos: como o de variações nos juros e na inflação. Duarte conta que, “se o profissional não tiver uma boa gestão de processos (com os colaboradores ou com a administração do seu próprio tempo), vai encontrar [muito mais] dificuldades.”

Além da proteção da reserva, Ana levanta a possibilidade dessas pessoas contarem com um seguro para complementar sua segurança financeira. “A reserva pode ser menor, porque o empreendedor tem um seguro que pode ajudar em momentos de instabilidade.”

“Investimento de empreendedor”

Mas é seguro investir sendo empreendedor? Para Ana Leoni, os riscos da instabilidade da renda e a exposição às questões econômicas não impedem ninguém de investir em renda variável, mas é preciso ter uma organização muito clara para isso.

“O ponto-chave é dividir os investimentos do profissional dos investimentos pessoais, porque os investimentos da Pessoa Jurídica precisam ser mais conservadores e voltados para os negócios da companhia: ela não investe para sua própria aposentadoria, mas para garantir que ela produza aquilo que precisa no mercado.”

Por isso, os empreendedores precisam separar as caixinhas: o investimento da empresa difere dos investimentos pessoais. Os investimentos da empresa, por exemplo, exigem mais segurança e liquidez, pois eles servem para reinvestir no próprio negócio para fazê-lo crescer. “O dinheiro da empresa muito provavelmente não vai ser investido em ativos de risco, mas em produtos que protejam o poder de compra”, explica a especialista.

Dentro das despesas do negócio, portanto, é preciso destinar uma parte da receita para pagar um “salário” ao empreendedor. Depois disso, ele pode organizar sua própria carteira da forma como preferir, conforme suas necessidades pessoais e seu apetite por risco.

“Não necessariamente um empreendedor precisa ser conservador em seus investimentos, o que vai determinar a sua carteira é o seu próprio apetite por risco, não é porque a pessoa é empregado com carteira de trabalho ou um empreendedor que isso deveria mudar.”

Administrando as dívidas

Os cálculos ficam mais preocupantes quando o profissional investidor precisa lidar com dívidas financeiras. Mas o primeiro passo é exatamente a organização: separar as dívidas do negócio das dívidas pessoais. Qual a origem da dívida? Foi um equipamento novo para melhorar o atendimento da empresa, ou uma emergência pessoal?

Duarte explica que o próximo passo é identificar as características de cada dívida: juros cobrados, valor das parcelas e prazo para pagamentos. Em seguida, orienta fazer uma avaliação da renda disponível para quitar as dívidas.

Ele sugere que as dívidas mais caras precisam ser pagas primeiro, “uma forma de fazer isso é negociando a dívida, definir o quanto ele consegue quitar mensalmente e geralmente dar algum bem como garantia”. O influenciador conta que é importante ser claro e saber negociar, informar o quanto de fato se consegue arcar por mês, para então se reorganizar financeiramente.

Período de transição

Mas os desafios de quem deixa de trabalhar como CLT para atuar de forma autônoma não são apenas financeiros.

Ana Leoni resume três pontos para prestar atenção nesse período: o primeiro é as finanças que, como dito anteriormente, envolve organizar os ganhos e perdas pessoais e dos negócios para ter uma transição tranquila. Murilo Duarte ressalta que a primeira coisa é construir a reserva de emergência, e já avisa: “Isso demora mesmo, no meu caso levou dois anos, mas é algo que precisa ser aplicado”.

O segundo aspecto é o profissional, entender os pontos fortes e fracos do negócio que está começando, quais habilidades é preciso desenvolver mais para se fortalecer no mercado. Para isso, Duarte compartilha uma dica: “é interessante começar o negócio enquanto ainda está trabalhando no emprego formal, porque quando chegar a hora de largar, ele já vai ter os dois pés no negócio já vai entender um pouco mais da demanda diária. Apesar de toda a correria, depois ele consegue ter uma produtividade maior.”

Por fim, Ana ressalta também a importância da questão psicológica. “Saber que haverá responsabilidade pelo cafezinho do cliente até o produto final, que será um trabalho sozinho, com novos desafios, como uma hora ter vários clientes e outra, nenhum.”

Murilo complementa, e explica ser preciso ter muita paciência, “os resultados geralmente vêm no longo prazo”.

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