Em meio à corrida espacial, startup Spire anuncia fusão bilionária com Spac nos EUA

O acordo com a NavSight levou a avaliação da Spire para US$ 1,6 bilhão.

Kevin Dowd
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Bloomberg Finance LP
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Peter Platzer, CEO da Spire, acredita que a indústria espacial está nos primeiros dias de uma nova era tecnológica

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Peter Platzer sabia que queria abrir o capital de sua empresa. O CEO da Spire Global passou a maior parte da última década colocando sua startup de observação por satélite em funcionamento. Em 2019, a rede de monitores em órbita da Spire digitalizava imagens da Terra dezenas de vezes por dia, selecionando terabytes de dados para conectar em suas ferramentas próprias de análise. Clientes dos setores público e privado usaram essas ferramentas para buscar novos insights sobre a forma como o mundo funciona, rastreando de tudo: desde a mudança nos incêndios florestais até a pesca sustentável.

No início, Platzer presumiu que abrir capital significava realizar um IPO (Oferta Pública Inicial). Até que uma reunião mudou tudo.

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“Estávamos trilhando o que considero um caminho mais tradicional”, disse o CEO nesta semana. “Realizamos encontros com os bancos e conversamos com as bolsas. Razoavelmente tarde nesse processo, conhecemos Jack e Bob.”

Jack Pearlstein e Bob Coleman são, respectivamente o CFO e o CEO da NavSight Holdings, uma Spac (Empresa de Aquisição com Propósito Específico, na sigla em inglês) que abriu o capital em setembro do ano passado. Ambos são executivos de longa data com décadas de experiência em empresas com clientes nos setores de defesa e inteligência – o mesmo tipo de cliente que a Spire busca conquistar.

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As Spacs são empresas de sociedade anônima, que abrem capital na Bolsa com o objetivo de levantar capital para realizar aquisições. Elas também são conhecidas como um “cheque em branco do mercado”, já que quem investe nessas ações tem a perspectiva de que o cenário econômico traga oportunidades para empresas menores entrarem para o mercado de capitais sem passar pelo tradicional processo de uma oferta de ações.

Ao invés de entrar com um pedido de IPO, a Spire se juntou a outras empresas do setor espacial que fecharam negócios com Spacs neste ano, realizando em março sua fusão com a NavSight e levando uma avaliação de US$ 1,6 bilhão. Na última sexta-feira (13), os acionistas votaram pela aprovação do negócio e as ações que até agora eram negociadas como NavSight, se tornarão Spire.

A moda das Spacs

Centenas de empresas realizaram fusões com ‘companhias de cheque em branco’ nos últimos dois anos, cada uma com suas motivações. No caso da Spire, o motivo para se juntar à corrida de ouro das Spacs foi relativamente simples: a perspectiva de adicionar os nomes à frente da NavSight à sua própria equipe executiva era atraente demais para ser rejeitada.

“Conseguimos trazer uma enorme quantidade de novos talentos para a empresa por meio da parceria com Bob e Jack”, disse Platzer. “Para nós, foi uma decisão bastante óbvia: seguir nesse caminho com eles, em vez de continuar no caminho em que estávamos.”

Um dia antes da aprovação da fusão da Spire, outra startup espacial, a Momentus, obteve a aprovação para fusão com uma Spac. Em março, a Rocket Lab, também startup espacial, anunciou uma fusão nos mesmos moldes. Parte desse timing é coincidência, mas as coincidências também ilustram como os Spacs se tornaram populares dentre as startups do setor no último ano.

Quando a Spire quis abrir seu capital, já tinha satélites em órbita e uma relação considerável de clientes pagando por seus serviços. Muitas outras startups espaciais estão em estágios diferentes. A Momentus, por exemplo, quer desenvolver motores à base de plasma de água para impulsionar o transporte no espaço. Para essas empresas, um IPO tradicional muitas vezes não é opção viável, já que a oferta de ações tradicional demanda modelos de negócios estabelecidos e balanços financeiros públicos para os investidores.

As startups espaciais podem consumir grandes somas de dinheiro em um ritmo rápido – afinal, enviar coisas para o espaço é caro. As fusões Spac, por sua vez, podem ajudar a aliviar esse problema, já que normalmente vêm com uma injeção de capital dos acionistas na forma de um investimento PIPE (Investimento Privado em Empresas Abertas, em tradução livre). Dependendo do status da empresa, ela pode ser capaz de levantar mais capital por meio de uma fusão Spac do que negociando com investidores na indústria de venture capital.

A capacidade de abrir o capital sem uma base de clientes estabelecida (ou mesmo sem um produto funcional) e a perspectiva de levantar uma grande quantia de dinheiro para financiar um modelo de negócios caro também são razões pelas quais as startups de veículos elétricos e táxis aeroespaciais surgiram como alvos populares para as Spacs.

Exceção à regra

Neste aspecto, a Spire é uma exceção. “Para nós, essa não era uma questão de implantar a nossa infraestrutura”, disse Platzer. “Não precisamos lançar uma tonelada de novos satélites, não precisamos construir foguetes maiores, não precisamos construir carros voadores ou qualquer uma dessas outras coisas que normalmente consomem muito capital. Sim, certamente o capital é algo muito bem-vindo. [Mas] honestamente não era o nosso principal estímulo”, explica o executivo.

Para o CEO, a indústria aeroespacial está nos primeiros dias de uma nova era, na qual satélites vagando por nosso planeta trarão grandes mudanças baseadas em dados, da mesma forma que outras inovações criadas por gerações anteriores.

“Se você pensar há 20 anos, empresas como a Netscape praticamente não tinham receita, certamente não eram lucrativas, mas faziam parte de uma tendência de mercado massiva”, disse Platzer. “No início dos anos 2000, a tendência era o e-commerce e a internet. Eu acho que agora, na década de 2020, pelo menos uma das tendências é alavancar o espaço para melhorar, mudar e impactar a vida na Terra.”

Por hora, os investidores seguem cautelosos. A Momentus já trouxe uma lição de advertência: o CEO da empresa deixou o cargo e reduziu a avaliação da companhia em 50% depois que reguladores levantaram uma série de preocupações sobre a fusão Spac, incluindo alegações de que a companhia fez falsas alegações aos investidores. As ações da NavSight, por sua vez, caíram 16% desde que sua fusão com a Spire foi anunciada pela primeira vez em março.

Platzer costumava trabalhar em pesquisa quantitativa no The Rohatyn Group e no Deutsche Bank, e por isso entende como o sistema funciona. Ele e seus colegas do setor espacial estão pensando em longo prazo. E se o otimismo deles se provar correto, então a enxurrada de fusões com Spacs deste ano pode se tornar bastante lucrativa para os investidores.

“Acho que há uma força transformadora em jogo”, disse Platzer. “Se eu me lembrar um pouco dos meus colegas de Wall Street, de alguma forma os investidores encontrarão maneiras de ganhar dinheiro com isso. Eles sempre fizeram isso, e não vão parar de encontrar maneiras de ganhar dinheiro com as tendências que estão surgindo.”

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