Pandemia apaga oito anos de esforços japoneses para superar a economia da China

Em 2013, quando foi definido que Tóquio sediaria os Jogos Olímpicos de 2020, o índice Nikkei disparou 57%.

William Pesek
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Reprodução/Forbes
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Com a aprovação do primeiro-ministro Yoshihide Suga na casa dos 30%, o governo parece temer mais uma esmagadora derrota eleitoral do que a pandemia

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Embora seja impossível prever o legado das Olimpíadas de Tóquio, pelo menos algo está claro: nem o primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga, nem seu partido encontraram o ouro político que haviam imaginado.

Os atletas, sim. O Japão conquistou a maior quantidade de medalhas de ouro de sua história. Mas esse triunfo já sumiu de vista em meio a números recordes de casos de Covid-19. Uma enxurrada de notícias sobre estouros no orçamento dos jogos e atitudes imperialistas de figurões do COI (Comitê Olímpico Internacional) está alimentando a desilusão pública.

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As coisas ficaram tão incertas para o Partido Liberal Democrata (LDP), atualmente no poder, que se fala em adiar uma eleição prevista para outubro. Com os índices de aprovação do primeiro-ministro Yoshihide Suga na casa dos 30% – no melhor dos cenários –, o LDP parece temer mais uma esmagadora derrota eleitoral do que a pandemia.

Planejamento econômico de longo prazo

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Considere os últimos oito anos ou mais. Foi o antecessor de Suga, Shinzo Abe, que conseguiu que Tóquio fosse escolhida para sediar os jogos, em 2013, cerca de 10 meses após ser nomeado primeiro-ministro. Foi um momento emocionante para a segunda maior economia da Ásia. Na época, Abe estava arregaçando as mangas para redirecionar uma economia rígida e envelhecida que estava perdendo competitividade para a China.

Pelo menos era assim que a população em geral via a conjuntura. Abe vendeu tão bem seus planos de afrouxar os mercados de trabalho, reduzir a burocracia, catalisar um boom de startups, empoderar as mulheres e internacionalizar a governança corporativa que o índice Nikkei disparou 57% somente em 2013.

A empolgação diminuiu com o tempo. Só depois da chegada da Covid-19, no início de 2020, que os investidores pareceram perceber que haviam sido enganados. Durante todos aqueles anos, o partido governante do Japão deveria estar fortalecendo a economia do Japão – e simplesmente não o fez.

Afinal de contas, o partido de Abe tinha três coisas que nenhum outro governo japonês jamais teve: maiorias nas duas casas do Parlamento; um primeiro-ministro com anos de alta popularidade; e muito tempo para implementar melhorias. E o que o LDP, Abe, e agora Suga, ofereceram? Uma Olimpíada.

Atualmente, muitos pensam que o Japão está se recuperando da pandemia. E, de fato, o crescimento econômico de 1,3% que o país alcançou no segundo trimestre na comparação com o mesmo período de 2020 não é irrisório. Mas é uma miragem, um reflexo das recuperações das economias dos EUA e da China. À medida que a variante Delta mostra o seu pior lado, o PIB (Produto Interno Bruto) dos EUA, da China, e, também, do Japão, voltará à realidade.

E então o que acontecerá? A sensação de “déjà vu” está por trás dessa pergunta, uma que os economistas fazem desde o fim de 2012, quando o partido de Abe retornou ao poder. Desta vez, o mercado repete o questionamento em um cenário no qual o mundo gravita cada vez mais perto da China, e Tóquio tem muito menos munição para combater a desaceleração da economia e os baixos preços ao consumidor.

Em 2020, o governo de Abe investiu mais de US$ 2 trilhões em uma economia debilitada pela pandemia, ou 40% do PIB. No entanto, o BOJ (Banco Central do Japão, na sigla em inglês), já sufocava há muito tempo os mercados de títulos e ações. Em 2018, o balanço do banco superou o tamanho de toda a economia de US$ 5 trilhões do país.

É verdade que Tóquio poderia injetar mais estímulos fiscais na economia. O BOJ poderia expandir suas compras de ativos para apoiar setores vulneráveis. Mas a lição dos últimos oito anos é clara: o Japão não precisa de mais dinheiro público – precisa dar destinação a esses recursos. Isso significa dar aos consumidores e às empresas a confiança de que os próximos oito anos serão melhores do que os últimos oito. No entanto, o aumento da Covid-19 no pós-Olimpíadas está mudando até mesmo o melhor cenário para as próximas oito semanas, quem dirá para os próximos anos.

“O lado da demanda permanecerá comprimido dadas as perspectivas desafiadoras de curto prazo para a economia”, disse Stefan Angrick, da Moodys Analytics. “Um número recorde de novas infecções por Covid-19 levou o governo a expandir as restrições de circulação na semana passada, de modo que o mercado de trabalho e os gastos permanecerão fracos no curto prazo. Além disso, desenvolvimentos salariais decepcionantes contribuirão para a perspectiva de inflação moderada. Portanto, esperamos que a política monetária permaneça em ritmo de espera. ”

Em outras palavras, enquanto os bancos centrais do mundo todo falam sobre reduzir os estímulos adotados no auge da crise, as autoridades em Tóquio estão presas à ideia de estímulos permanentes – desta vez, sem o impulso econômico das Olimpíadas que os políticos davam como certo. O Japão realmente merece uma medalha de ouro pelas oportunidades perdidas.


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