Crise sanitária e catástrofes mundiais endurecem o mercado de resseguros

Novos contratos apresentam ajustes nas taxas e nas franquias, além de cláusulas que excluem doenças transmissíveis.

Mariana Weber e Solange Guimarães
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Rogério Maroja
Rogério Maroja

R$ 19,1 bilhões foi o volume de resseguro cedido pelas seguradoras brasileiras entre março de 2020 e março de 2021, um crescimento de 34,3%

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Treze anos após a abertura do mercado de resseguros, mais de 140 grupos estão presentes no Brasil, entre resseguradores locais, admitidos e eventuais. Considerado um mercado atraente e com grandes oportunidades de expansão, o país passa por um processo de atualização do marco regulatório em meio ao impacto provocado pela pandemia no mercado internacional. No ecossistema do seguro, as resseguradoras funcionam como um colchão de proteção, pois assumem o compromisso de indenizar as seguradoras, chamadas de cedentes, em caso de excesso de perdas numa apólice. São, portanto, o seguro da seguradora.

No período de 12 meses até março de 2021, o volume de resseguro cedido pelas seguradoras brasileiras foi de R$ 19,1 bilhões, um crescimento de 34,3% em relação ao período anterior, segundo dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep). O aumento de resseguro cedido revela mais flexibilidade no ambiente de negócios, porém, o desempenho varia consideravelmente de um ramo para outro e linhas como Patrimonial e Rural, que permitem cessão de prêmios superior a 50%, influenciam no resultado.

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“O mercado está sendo um pouco mais afetado este ano na parte de Vida com a aceleração dos casos de Covid. Já se começa a ver uma mudança na sinistralidade (volume de ocorrências em relação à receita) mas ainda devagar, gerando a expectativa de recebermos mais avisos de pagamento de indenizações no futuro”, comenta Bruno Freire, CEO da Austral Re. O executivo lembra que, antes da pandemia, o setor já sofria com o pagamento de tragédias ambientais ocorridas no mundo inteiro, devido às mudanças climáticas, como furacões, tufões e grandes incêndios florestais, que reduziram a rentabilidade das resseguradoras. “Depois de alguns anos de dificuldade, e até por isso mesmo, o mercado está ficando mais duro e as taxas do resseguro estão subindo. Isso pode melhorar a rentabilidade das resseguradoras nos próximos anos, de uma forma geral.”

“O desafio dos últimos anos, e o que ainda estamos vivendo hoje em dia, é o da rentabilidade”, resume Nuno Antunes, diretor geral Ibero LatAm da Allianz Global Corporate & Specialty (AGCS). “É o desafio de conseguir encontrar aquele ponto de equilíbrio entre o que a gente cobra e tudo aquilo que tem acontecido em termos de sinistros (ocorrências indenizáveis) em nível mundial. Paulatinamente, ao longo das últimas décadas, acompanhamos o crescimento do nível de sinistros catastróficos, com um aumento da massa segurada e periodicidade cada vez menor entre as ocorrências.”

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Além das catástrofes, o preço do resseguro sobe também por causa da queda das taxas de juros globais, visto que boa parte da rentabilidade das resseguradoras vem da receita financeira das reservas. Com essa rentabilidade reduzida, as empresas optaram por aumentar as taxas de resseguro para equacionar o balanço.

“Estamos em períodos de incertezas e esses ajustes podem ser suficientes ou não, contudo o importante neste momento é a parceria entre as seguradoras e resseguradoras para ajustar os contratos no longo prazo”, afirma Isabel Solano, vice-presidente executiva de Resseguros do IRB Brasil RE. “Com o avanço da vacinação, esperamos uma recuperação importante de alguns setores impactados pela pandemia, como Patrimonial, Aeronáuticos e Riscos de Engenharia, que sofreram com o adiamento de projetos.”

A aposta da gigante Swiss Re é de que os brasileiros, assim como os demais latino-americanos, sairão da pandemia mais conscientes dos riscos e preocupados com proteção. “As seis maiores economias – Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru – respondem por mais de 80%, ou seja, US$ 11 trilhões, da lacuna total de proteção de mortalidade na América Latina, por isso acreditamos que há um potencial de negócios, somente para riscos de mortalidade, de US$ 33 bilhões adicionais ao que já se tem hoje”, comenta Frederico Knapp, head de Resseguros Brasil e Cone Sul da Swiss Re. Em termos globais, a resseguradora calcula que pagou US$ 3,5 bilhões em indenizações decorrentes da Covid-19, no ano passado.

Em relação ao Brasil, a Swiss Re projeta que o mercado de seguros crescerá em torno de 3,5% em 2021 e 3,8% em 2022. As linhas pessoais serão moldadas pela recuperação da atividade econômica e do emprego, e o aumento dos preços de seguros apoiará as linhas comerciais.

Atenta às oportunidades, a Austral Holding anunciou em maio a aquisição da subsidiária da Markel Internacional do Brasil. O negócio, já aprovado pela Susep, contribuirá para estreitar seus laços com as seguradoras cedentes que mantinham operações com a empresa no Brasil e com brokers especializados em resseguro.

Com a modernização que a Susep está implementando em todo o mercado, a expectativa é que as regras que tratam do resseguro também passem por revisão, o que pode modificar a concorrência entre as empresas locais, admitidas e eventuais e os limites de cessão permitidos para as diversas linhas de seguro.

Reportagem publicada na edição 88, lançada em junho de 2021.

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