Ana Cabral-Gardner, da Sigma Lithium, em busca da mineração verde

Co-CEO da Sigma Lithium, mineradora canadense que opera no Brasil, quer estabelecer exemplo no mundo ESG.

Isabella Velleda
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Cláudio Belli
Cláudio Belli

Além de ser sócia-diretora da Sigma, Ana também é cofundadora do fundo de private equity que gere a empresa

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Ana Cabral-Gardner chegou ao cargo de Co-CEO da mineradora canadense Sigma Lithium no início de setembro. Logo em seguida, veio o anúncio do início das negociações da empresa na Nasdaq, o segundo maior mercado de ações em capitalização de mercado do mundo e que, para uma empresa dedicada a cumprir critérios ESG (ambientais, sociais e de governança), indicava um compromisso sério. O que Ana deixa claro, porém, é que por trás de grandes empreendimentos sempre existe grande preparação.

“Eu tenho qualidades médias”, avalia. “Mas a minha resiliência é muito acima da média. É aquela propriedade física de um material que é distorcido, e que consegue sacudir a poeira e voltar ao estado original.”

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Tendo começado a sua vida profissional aos 18 anos, no Banco Garantia, Ana fez uso exemplar do seu diploma de economia e seguiu para algumas das maiores instituições financeiras do mundo, como Goldman Sachs, Credit Suisse e Merrill Lynch. Dos seus 30 anos de mercado, mais de 22 foram executados fora do Brasil, e mesmo estando sujeita a desafios inerentes a uma mulher brasileira no exterior, ela diz que demorou para sentir os efeitos do famoso “teto de vidro”, que impede o avanço profissional de mulheres bem-sucedidas.

“Esse teto estava muito longe de uma pessoa que tinha apenas cinco anos de experiência e estava no início da carreira, que era o meu caso quando eu saí.” O apoio que recebeu de seus ex-chefes nos bancos brasileiros também foi um dos fatores que impulsionaram a sua autoconfiança. “Eles queriam que eu me aperfeiçoasse no exterior para justamente voltar e compartilhar o que eu aprendi. Então isso foi uma coisa muito bacana.”

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Retornando ao Brasil, ela cofundou a A10 Investimentos, uma boutique com foco em investimentos de impacto – ou seja, que têm como finalidade gerar impactos ambientais ou sociais positivos. A empresa começou assessorando grandes famílias brasileiras em decisões estratégicas quanto aos seus negócios. Hoje, porém, gere o fundo de private equity que controla a Sigma.

Em um âmbito mais pessoal, Ana também atribui a sua resiliência ao convívio com diferentes pessoas que a inspiraram. Em primeiro lugar, está seu filho de 22 anos, que tem deficiência desde o nascimento, e que ela diz que a ensinou a relativizar muitos problemas. Em seguida, vêm os seus pais, que vieram de famílias de militares e, ela diz, sempre foram muito rígidos e exigentes.

A executiva também cita as mulheres do Vale do Jequitinhonha, região de Minas Gerais conhecida por seus baixos indicadores sociais, e onde a Sigma Lithium abriga grande parte das suas operações de extração de lítio. A região faz parte do semiárido brasileiro, apresentando segmentos de caatinga e cerrado, o que faz com que a determinação, a força e a resiliência sejam características exigidas de boa parte da população. Informalmente, o Vale do Jequitinhonha também é conhecido como Vale da Pobreza.

Apoio ao sertão

As mineradoras costumam levar parte da culpa pela agressão aos ecossistemas da região, e mesmo com todos os cuidados que a Sigma Lithium adota – o propósito da empresa, afinal, é produzir insumos para baterias de carros elétricos, que são menos prejudiciais ao meio ambiente -, a atividade é impactante por si só.

Assim, a Sigma tenta minimizar os seus impactos negativos por meio de adaptações no seu modo de operação, bem como pelo apoio à comunidade local. A proposta ESG da empresa chega a ser um fator decisivo na vida pessoal de Ana, tendo em vista que ela atrela a sua remuneração ao cumprimento dessas métricas: “Nós temos um salário, que é relativamente abaixo do mercado, e todo tipo de bônus é atrelado 100% a metas de atingimento de capitalização de mercado, sendo que um aspecto disso é atingir carbono zero até 2024.”

A empresa, fundada em 2012, ainda está na fase-piloto, e pretende inaugurar suas operações em 2022. Durante os últimos nove anos, a equipe se dedicou a demonstrar suas teses de viabilidade do projeto, da existência de lítio no Brasil, da funcionalidade de suas tecnologias sustentáveis e, desde 2018, opera uma planta de demonstração que produz amostras do produto final.

“Mas qual é o grande vilão de carbono da Sigma? O diesel do caminhão da mina. Não é a planta”, explica. “A gente tem um plano de substituir esse combustível por biodiesel, e compensar as emissões na região. Nós compramos áreas de mata verde que estão sob risco serem queimadas, preservamos e compensamos dentro do próprio ecossistema. Então é um trabalho muito meticuloso.”

Com a chegada da pandemia, a mineradora também conseguiu ser um meio de mudanças para a comunidade local. Houve distribuição de álcool gel e desinfetantes hospitalares, além da criação de um programa de cesta básica. Segundo a diretora, existem aproximadamente cinco mil famílias que vivem com menos de R$ 3 por dia na região, e essas foram as principais beneficiadas. No total, foram dez meses de programa, com mais de 400 mil refeições servidas.

Através da sua agência privada de investimentos, criada em parceria com o Indi (Instituto de Desenvolvimento Industrial de Minas Gerais), a empresa também investiu em iniciativas de coleta de lixo e empreendedorismo social, e tem planos de criar creches na região.

O ESG da Sigma abrange a representatividade dentro da empresa. Ana diz que 40% do conselho de administração é composto por mulheres e pessoas LGBTQI+, e que a sua predileção por essa colaboração vem desde o seu tempo como cofundadora do grupo Mulheres do Brasil, uma organização sem fins lucrativos presidida por Luiza Trajano, com mais de 96 mil participantes e focada na elaboração de políticas orientadas para o avanço das mulheres na sociedade.

“Era aquele sonho de mudar o Brasil para as mulheres, trazendo pessoas dos mais diferentes caminhos da vida que se ajudam, se ensinam e se complementam”, afirma. “Geralmente a gente fica em grupos, né? Jornalistas com jornalistas, farmacêuticas com farmacêuticas. Mas você pega a Luiza Trajano e coloca todo mundo junto, e nota o poder incrível que se forma. Mulher competente traz mulher competente.”

Dentro do segmento de mineração, Ana diz que já sofreu discriminação por ser mulher: “Nós falamos sobre a sustentabilidade do lítio desde sempre, mas em 2017, 2018, isso não era pauta ainda. Então eu estava numa conferência global, nós tínhamos acabado de abrir capital, e uma pessoa falou: ‘A Sigma é o que acontece quando você põe uma mulher encarregada do grupo de controle.’ Eu achava graça, porque era uma coisa tão esdrúxula.”

Ana considera que a sua participação no grupo foi um dos principais canais que ela utilizou para compartilhar as suas experiências profissionais e fazer mentoria, atividade que não pratica mais por falta de tempo. Ainda assim, ela diz que um de seus planos é levar uma filial do Mulheres do Brasil ao Vale do Jequitinhonha, e já tem em mente quem irá gerenciá-la: “Eu identifiquei a empresária local mais incrível, que vem de uma família de filhos de garimpeiros e é dona do sorvete Amigo. Ela fabrica o produto e já tem mais de 50 lojas. Então você encontra alguém para carregar o bastão.”

Futuro mais verde

A Sigma promete trazer vários benefícios à região em que atua, mas o seu produto final não é destinado para uso no Brasil. Segundo a NeoCharge, existem aproximadamente 60 mil veículos elétricos no país, mas Ana argumenta que essa opção de mobilidade é mais vantajosa para continentes como Europa e América do Norte, que não possuem a capacidade de produzir biocombustíveis que o Brasil possui.

“O biocombustível precisa de território e de agricultura, e não é factível em todos os países. Por isso, o insumo que nós produzimos na Sigma é justamente para viabilizar a transição energética de mobilidade nos países que não tem essa riqueza”, afirma.

Na mesma semana em que concedeu entrevista à Forbes, Ana participou de duas conferências das Nações Unidas sobre energia e neutralidade de carbono ao lado da Vale, uma das maiores mineradoras do mundo. Isso deixa evidente, ela diz, que a Sigma é uma empresa relevante e que, por ser negociada na Nasdaq, e não mais apenas na Bolsa de Valores de Toronto, é tão competitiva quanto qualquer outra grande mineradora.

A Nasdaq, segundo a diretora, é uma das bolsas que tem os parâmetros mais altos no que se refere a exigências de governança corporativa, de performance, e de transparência, o que é imprescindível para uma empresa que valoriza e promete atuar de acordo com os princípios ESG.

No começo desta semana, a empresa também anunciou um acordo de seis anos com a sul-coreana LG Energy Solution, que é uma das maiores fabricantes de baterias de íons de lítio para carros elétricos no mundo. O acordo prevê o fornecimento de 60 mil a 100 mil toneladas de lítio por ano, de 2022 a 2027.

Porém, a sua história mal começou, e é ainda muito cedo para comemorar: “É como se fosse um filho: você não cria uma empresa para você, você cria para o mundo. E o meu objetivo é que a Sigma brilhe no mundo e se torne cada vez melhor. Também queremos que o Vale do Jequitinhonha se torne um lugar melhor, porque ali pode ser um ótimo modelo de desenvolvimento sustentável capitalista. Mas é agora que começa, foram nove anos de preparativos, e é como se um filho estivesse se formando.”

 

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