Com a alta da Selic, quais investimentos valem mais a pena?

Tempo de aplicação dos títulos de renda fixa é a principal variável a ser observada pelos investidores, dizem analistas.

Isabella Velleda
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Rmcarvalho/Getty Images
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Títulos pós-fixados, que acompanham a variação de taxas como a Selic, ficaram mais atrativos

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Na noite de quarta-feira (8), o Copom (Comitê de Política Monetária) anunciou a nova taxa Selic, de 9,25% ao ano, um aumento de 1,5 ponto-percentual sobre o patamar anterior, de 7,75%. Assim, os juros atingem o maior nível dos últimos quatro anos e, segundo analistas consultados pela Forbes, está na hora de olhar com atenção para a renda fixa como uma forma de diversificar os investimentos.

Com o aumento da Selic, os títulos de renda fixa atrelados à própria taxa básica de juros ou ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário), um indicador cujo valor é muito próximo à Selic, passam a ter rendimentos maiores.

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Esses investimentos incluem o Tesouro Selic, que é indexado à taxa básica de juros, somado a um pequeno percentual adicional definido no momento do investimento. Atualmente, a rentabilidade anual do Tesouro Selic com vencimento em 2024, por exemplo, é de 9,35% (Selic + 0,1086%).

Também há os CDBs (Certificados de Depósito Bancário), LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) e LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio), que são atrelados ao CDI quando são do tipo pós-fixado. Enquanto os CDBs têm uma liquidez elevada, ou seja, geralmente permitem que o investidor retire o dinheiro aplicado quando quiser, as LCs têm liquidez baixa – frequentemente só é possível resgatar o dinheiro na data de vencimento.

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Em geral, os investimentos mais fáceis de resgatar são os que costumam oferecer rentabilidade menor. Porém, como comenta Luigi Wis, analista de investimentos da Genial Investimentos, com a alta da Selic eles continuam sendo vantajosos.

“Mesmo modalidades de liquidez diária, sem volatilidade, e com rendimento de 100% do CDI ou Selic, como CDBs, fundos de renda fixa e Tesouro Selic, passarão a render mais de 0,73% ao mês”, diz o especialista. “Bem superior ao rendimento da poupança, que agora ficará congelada em 0,5% ao mês mais TR [taxa referencial].”

Vale notar que, no momento em que a taxa Selic supera 8,5% ao ano, a poupança passa a ser calculada pela regra antiga, que apresenta uma rentabilidade anual de 6,17% (ou 0,5% ao mês), somada à taxa referencial, que costuma ficar próxima de zero. Até então, ela era calculada por 70% da Selic somada à taxa referencial.

“Além disso, em 2022, o rendimento das opções de renda fixa pós-fixadas já deve voltar a superar a inflação, que [deve] ficar perto de 6% nos próximos 12 meses”, complementa Wis.

Por que pós-fixado?

A taxa Selic se encontra em um ciclo de alta que foi iniciado em março de 2021, e que provavelmente persistirá até o final do ano que vem. A Genial Investimentos, por exemplo, projeta uma taxa de 12% ao ano até o final do período, enquanto o Credit Suisse vai além e estabelece sua previsão para 12,25% ao ano. É por isso que, atualmente, muito se fala em taxa de juros pós-fixadas e não prefixadas.

Um investimento prefixado é aquele em que o investidor sabe, no momento do aporte, quanto o seu dinheiro irá render. Nesse caso, não há variação no rendimento, o que significa que não há chance para que ele aumente ou diminua.

Por outro lado, um investimento pós-fixado é aquele em que não é possível conhecer o rendimento da aplicação no momento do aporte. Isso ocorre porque esses investimentos são atrelados a um indexador, como a Selic, que variam ao longo do tempo. Assim, só é possível saber quanto o aporte inicial rendeu no dia do resgate.

“Em ciclos de alta de juros, é comum os títulos prefixados ficarem em segundo plano, pois o investidor não consegue saber em qual patamar a Selic irá parar”, explica Wis. “Portanto, o investidor pode julgar arriscado fazer um investimento prefixado a 11%, por exemplo, sendo que existe a possibilidade da Selic superar esse patamar nos próximos meses.”

Os investimentos prefixados costumam ser mais atrativos nos momentos de “inflexão”, ou seja, quando o mercado começa a enxergar o fim do ciclo de alta de juros e, possivelmente, o início de um ciclo de queda. Foi isso o que ocorreu em julho de 2019, quando a taxa Selic começou a jornada que a tirou do patamar de 6,25% ao ano, e a levou a 2,25% em 2020.

“Nesse caso, quem tiver comprado prefixado no pico das taxas terá feito um negócio melhor”, exemplifica Valter Police, planejador fiduciário da Fiduc, fintech especializada em gestão de investimentos.

Ainda assim, vale notar que, embora os investimentos prefixados não tenham rendimentos diretamente atrelados à variação da taxa Selic, os preços desses títulos, no curto prazo, podem ser influenciados pelas expectativas de evolução da taxa.

Os analistas explicam que o valor desses títulos cai com alta nos juros futuros, e sobe quando os juros futuros baixam. Assim, se o mercado passa a acreditar que, no final de 2022, haverá cortes na Selic, isso impulsiona os preços dos títulos prefixados hoje. “Isso independente da alta da Selic agora, já que esta e as próximas altas já estão refletidas na curva de juros futuros atual”, complementa Wis.

Por qual caminho seguir?

Com tantas opções em renda fixa para investir com a alta da Selic, escolher a melhor delas pode ser uma tarefa difícil. Segundo os analistas, porém, o principal fator que o investidor deve ter em mente é o prazo durante o qual ele deixa os seus recursos aplicados. Na renda fixa, a variável tempo é a mais importante para definir o rendimento da aplicação.

Assim, se o investidor puder aceitar uma carência – ou seja, um “tempo de espera” – maior, ele terá ganhos mais elevados. Wis explica, por exemplo, que CDBs, LCIs, LCAs mais longas, com carência de um ou dois anos, são mais rentáveis do que as opções em que o investidor recupera o seu dinheiro em 90 dias.

Ele também cita os fundos de renda fixa, ou seja, fundos de investimentos cujas carteiras são compostas por títulos de renda fixa. Segundo o especialista, aqueles que têm carência de 30 dias remuneram melhor do que os fundos de liquidez diária. Porém, é preciso atenção nas taxas de administração, tendo em vista os fundos com maior período de carência cobram cerca de 0,75% ao ano, enquanto fundos de liquidez diária cobram cerca de 0,25% ao ano.

Considerando que o Banco Central está aumentando a taxa Selic na tentativa de conter a inflação, que atualmente está estimada em 10,18% para 2021, podem surgir dúvidas se vale a pena investir no Tesouro IPCA. Essa opção tem a sua rentabilidade atrelada ao principal índice de inflação no Brasil, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).

“O Tesouro IPCA é mais adequado para investidores de longo prazo, dado que possui volatilidade considerável no curto prazo”, diz Wis. Um título do Tesouro IPCA com vencimento em 2026 tem rendimento igual ao IPCA + 4,89%, por exemplo. “Já o Tesouro Selic é sempre mais adequado para investimento de curto prazo pois ele apresenta volatilidade muito reduzida.”

Police, por sua vez, reforça a importância de explorar as múltiplas opções de investimento existentes a fim de obter uma carteira diversificada. Nesse sentido, ele não exclui os investimentos em renda variável, como as ações na Bolsa de Valores, apesar do risco de queda que essa modalidade apresenta quando a renda fixa se torna mais atrativa.

Com a alta da Selic, existe uma tendência para que investidores saiam da renda variável, considerada mais instável, e migrem para a renda fixa, considerada mais segura – essa migração costuma derrubar os preços das ações. De forma semelhante, uma alta nos juros costuma ser ruim para as empresas listadas, pois aumenta o custo dos financiamentos e pode reduzir os lucros futuros, que passam a ser descontados a uma taxa maior.

“Existe uma ideia de que há uma ‘hora certa’ de se investir em renda fixa, outra para ações e assim por diante. Isso não é verdade”, diz o planejador.

“Independentemente do cenário econômico, bons investimentos são feitos com visão de carteira e ela deve ser diversificada. Não é porque os juros estão aumentando que eu devo ficar na renda fixa, nem as seguidas quedas na Bolsa deveriam fazer com que eu saísse da renda variável”, resume Police.

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