IPOs em Wall Street: por que as empresas brasileiras preferem os EUA?

Cresce o número de companhias que planejam negociar suas ações nas bolsas norte-americanas.

Isabella Velleda
Compartilhe esta publicação:
Noam Galai/Reuters
Noam Galai/Reuters

Minerva anunciou neste mês que estuda transferir sua base acionária para Nova York

Acessibilidade


A Minerva Foods, líder na exportação de carne bovina na América Latina, poderá ser a mais nova empresa brasileira a ter ações negociadas na bolsa norte-americana Nasdaq. O seu conselho administrativo autorizou, na semana passada, o início dos estudos para transferir a sede da empresa, o que resultaria em uma listagem de ações no exterior.

A empresa do ramo frigorífico poderá se juntar a outros nomes brasileiros, como Nubank, XP Inc, PagSeguro e Stone, que optaram por trocar a B3 pelas bolsas de Nova York, em busca de melhores condições de mercado, mais investidores e maior liquidez.

Mas a Minerva não é a única do seu setor que está de olho no mercado norte-americano. Há anos, a JBS planeja um IPO (oferta pública inicial) nos Estados Unidos, em um processo que tem passado por reveses jurídicos, mas que agora está programado para ocorrer no segundo semestre de 2022.

Sérgio Berruezo, analista de pesquisa da Ativa Investimentos, explica que o setor frigorífico dos EUA apresenta diversos atrativos a essas empresas, como o próprio preço da arroba bovina, que apesar de não ser barato, é menor do que o praticado no Brasil.

“Outra diferença é que o mercado interno norte-americano é muito mais forte”, complementa. “Sobretudo agora, em um momento em que os restaurantes abriram com muita força e estão atendendo à demanda reprimida. As empresas estão conseguindo facilmente repassar o aumento dos preços para o consumidor final sem que isso impacte o consumo.”

Inscreva-se para receber a nossa newsletter
Ao fornecer seu e-mail, você concorda com a Política de Privacidade da Forbes Brasil.

Nesse sentido, o analista afirma que o Brasil se encontra em uma situação inversa, tendo em vista que, por conta da recessão econômica, a carne bovina acabou perdendo o seu espaço entre os consumidores domésticos para outras opções mais baratas, como a de frango.

A Minerva, porém, tem um perfil diferente da JBS, apesar de atuar no mesmo setor, diz o analista. A JBS é basicamente uma “empresa americana com operações no Brasil”, já que cerca de 70% da sua receita vem dos Estados Unidos. Assim, uma oferta pública em Nova York parece ser um movimento natural para a companhia.

Por outro lado, a Minerva é uma empresa majoritariamente de exportação, e suas operações estão concentradas na América do Sul. Ainda assim, o frigorífico é atraído pela ideia de alcançar múltiplos melhores com a listagem no exterior, e ser percebida como uma empresa que cresceu além do Brasil, segundo documento submetido à CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

Vantagens e desvantagens

A última grande empresa brasileira a anunciar uma listagem nos Estados Unidos foi o Nubank, cujas ações começaram a ser negociadas na NYSE (New York Stock Exchange) em dezembro do ano passado.

Em comunicado na época, a empresa afirmou que a decisão “conectará [a empresa] com os principais investidores do mundo”, além de “dar espaço para novas emissões de ações, sem colocar em risco o controle da empresa e a sua total independência” – algo que, afirmam, seria inviável no Brasil.

De maneira geral, listagens no exterior são comuns no setor de tecnologia, que têm mais empresas de alto crescimento que buscam grandes investimentos. Segundo Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV (Fundação Getúlio Vargas), essas são companhias que compõem a “nova economia” brasileira, e ainda são incipientes na B3.

Porém, além da Minerva, nomes como Natura, Locaweb, Banco Inter e Americanas também estão estudando seguir a mesma direção, apesar de atuarem em setores diferentes.

“Essas empresas buscam atingir um público maior e ganhar visibilidade. O mercado lá fora conta com muito mais recursos, especialmente em setores como o de tecnologia”, explica Yoshinaga. “Por outro lado, elas precisam seguir uma regulação mais complexa e mais exigente em termos de transparência.”

Outra desvantagem, segundo a coordenadora, é a possibilidade de a empresa ser “perseguida” por conta de sua origem brasileira. Ela afirma que não é incomum que a opinião do investidor estrangeiro seja contaminada pelas notícias que chegam do Brasil, mesmo que essas notícias não impactem diretamente as operações.

Afinal, trocar a B3 por Wall Street não é garantia de sucesso: “Pode existir uma falsa impressão. É claro que as empresas que fizeram a listagem passaram por um crivo de inúmeras etapas, o que aumenta as chances de sucesso. Mas, se fosse algo garantido, toda empresa que abrisse capital nos Estados Unidos daria certo, o que não é verdade.”

Impactos reduzidos

A coordenadora afirma que a tendência de migração para as bolsas dos Estados Unidos não é restrita ao Brasil, também sendo verificada na Europa e na Ásia. Aqui, contudo, ela fica mais evidente por conta da incipiência do setor de tecnologia, por exemplo, e do número reduzido de IPOs que ocorrem em território nacional.

Ainda assim, não há motivos para preocupação. “Estamos falando de um mercado que tem uma quantidade de investidores muito pequena, considerando a população brasileira como um todo. Por isso, eu acho que ainda tem muito espaço para crescer”, afirma.

Berruezo, por sua vez, argumenta que a saída da Minerva Foods e da JBS também não deve prejudicar o setor frigorífico nacional, já que esse é um segmento robusto no país.

“Se você reduz muito o número de empresas que são listadas no Brasil através da B3, talvez seja ruim para o investidor brasileiro que não quer investir lá fora e fica com menos opções domésticas. Mas, fora isso, não vejo muitos impactos negativos”, diz ele.

Compartilhe esta publicação: