Força financeira das famílias dos EUA pode prolongar luta do Fed contra inflação

Recente queda nos preços do mercado de ações pode ajudar a suavizar o consumo.

Reuters
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Jonathan Ernst
Jonathan Ernst/Reuters

Fachada do Federal Reserve, em Washington

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A força financeira acumulada pelas famílias dos Estados Unidos limitou os danos da pandemia de coronavírus, mas agora pode agravar –e prolongar– a luta contra a inflação do Federal Reserve, conforme o banco central dos EUA espera as pessoas perderem seu poder de compra.

A recente queda nos preços do mercado de ações –uma fonte de riqueza das famílias que ampliou sua influência sobre os níveis de renda nos últimos anos– pode ajudar a suavizar o consumo, mas relatórios desta semana sobre a dívida familiar, condições financeiras e inflação deram poucos sinais de que consumidores estão próximos de um ponto de ruptura.

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Dados de inflação de abril publicados hoje (11) pelo Departamento do Trabalho dos EUA trouxeram grande alívio ao enigma do Fed. Conforme previsto, o crescimento geral dos preços ao consumidor arrefeceu significativamente em relação ao maior ritmo desde 2005 registrado em março, mas não tanto quanto o esperado. E, mais a fundo, houve novos indícios de pressões inflacionárias ainda altas em áreas-chave como aluguel e viagens.

“Esta é outra surpresa para cima na inflação e sugere que a desaceleração será dolorosamente lenta”, disse Seema Shah, estrategista-chefe da Principal Global Investors.

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O Fed elevou os juros em 0,5 ponto percentual na semana passada e o chair Jerome Powell sinalizou ajustes da mesma magnitude nas próximas reuniões do banco centra, em junho e julho, conforme autoridades prometem agir “rapidamente” para combater a inflação. A surpresa para cima no índice de preços ao consumidor de hoje (11)foi o suficiente para reacender precificações no mercado de uma ação ainda mais agressiva.

As autoridades terão ainda mais um mês de dados de inflação e emprego antes de sua reunião de meados de junho, quando também divulgarão projeções coletivas dos formuladores de política monetária para juros e inflação.

A pressão –de consumidores, empresas e autoridades– claramente se intensifica para que o banco central mostre progresso numa luta que será desagradável, conforme alertou Powell na semana passada .

O presidente norte-americano Joe Biden chamou a inflação de “inaceitavelmente alta” em um comunicado hoje (11), disse que o Fed desempenha “um papel primordial” na desaceleração dos aumentos de preços e criticou os republicanos por não terem planos de impedir a inflação.

“Embora seja animador ver que a inflação anual moderou em abril, o fato é que a inflação está inaceitavelmente alta”, disse Biden. “Embora eu nunca vá interferir na independência do Fed, acredito que construímos uma economia forte e um mercado de trabalho forte, e concordo com o que o chair Powell disse na semana passada, que a ameaça número um a essa força é a inflação. Estou confiante de que o Fed fará seu trabalho com isso em mente. Além do Fed, meu plano de inflação está focado em diminuir os custos que as famílias enfrentam e reduzir o déficit federal”.

Força doméstica

Dados do Fed de Nova York de ontem (10) mostraram que, embora os níveis de endividamento familiar nos EUA tenham atingido outro recorde no primeiro trimestre, havia poucas evidências de que as famílias estavam sobrecarregadas.

Houve um pequeno aumento de grupos familiares nos estágios iniciais da inadimplência, mas o patamar permanece “muito baixo pelos padrões históricos”, disse o Fed de Nova York. Além disso, os níveis de estresse de dívida mais significativos –como novas falências ou processos de cobrança de dívidas– são os mais baixos desde que começou a coleta dos dados, em 1999.

Vários formuladores de política monetária do banco central destacaram que observam atentamente os balanços patrimoniais familiares conforme avaliam por mais quanto tempo os norte-americanos podem permanecer nessas condições de liquidez.

O presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, disse na segunda-feira (9) que espera mais evidências de que os balanços das famílias estão sendo gastos. “Existe a possibilidade de que a economia agora tenha sido empurrada para um equilíbrio de pressão mais alto do que antes. E, se for esse o caso, teremos ainda mais trabalho a fazer”, para conter a inflação, disse ele.

Embora a produção geral dos EUA tenha contraído no primeiro trimestre –em grande parte devido a fatores técnicos associados à gestão de estoques das empresas– há poucos sinais em outros lugares de uma desaceleração da atividade, em particular ao nível do consumidor.

O mais recente relatório do Bank of America sobre os gastos dos consumidores e o bem-estar financeiro, obtido de seu banco de dados de 67 milhões de clientes, entre consumidores e pequenas empresas, mostrou que o valor gasto com cartões de crédito e débito está superando a inflação. Os gastos com cartões de crédito e débito aumentaram 13% em abril em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto os gastos gerais com cartões por família foram 23,7% superiores aos níveis anteriores à pandemia.

O Fed vem aumentando a taxa de juros na esperança de conter o “excesso” de demanda e desacelerar a inflação sem necessariamente forçar a economia a realmente encolher, como muitas vezes aconteceu após o banco central apertar o crédito.

O Fed está observando para ver “como nossa política monetária começa a fluir. Vemos um recuo da demanda em espaços importantes?”, disse o presidente do Fed de Atlanta, Raphael Bostic, na noite de ontem (10). Até agora, “não vemos isso. A demanda é super forte”.

No entanto, Bostic afirmou que a demanda também pode diminuir rapidamente conforme famílias se ajustam aos preços mais altos e também veem sua riqueza sendo abalada pelo que ele chamou de mudanças “incrivelmente rápidas e incrivelmente robustas” nos mercados financeiros nas últimas semanas, à medida que os índices de ações e títulos caem.

Assim como a força dos balanços familiares e das empresas pode tornar mais difícil para o Fed impactar o comportamento de gastos, a crescente exposição das famílias aos mercados de investimento pode aumentar o “efeito riqueza” da política monetária, uma vez que valores mais baixos de ativos levam a menor consumo e a tomadas de decisão mais cautelosas.

“Há cada vez mais uma ideia de que os preços dos ativos alimentam diretamente o comportamento do consumidor”, disse Roger Aliaga-Diaz, economista-chefe para as Américas da gigante de investimentos Vanguard, responsável pela estimativa de que os trilhões de dólares de riqueza exterminados dos mercados nas últimas semanas poderiam já responder por recuo de 1 ponto percentual no crescimento econômico dos EUA.

“Tenho certeza de que eles estão contando com esse impacto”, afirmou ele.

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