Por que startups brasileiras têm demitido tanto? Entenda

Os unicórnios QuintoAndar, Loft e Facily dispensaram mais de 400 funcionários este ano

Isabella Velleda
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Hinterhaus Productions/Getty Images
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Grandes volumes de contratação são a norma desse mercado, ao passo que demissões são estratégia defensiva

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Após notícias sobre demissões em massa, as startups QuintoAndar, Loft e Facily ficaram em evidência nas últimas semanas. Entre as três empresas, estima-se que mais de 400 funcionários tenham sido dispensados sob a justificativa de reorganizações internas e repriorização de tarefas.

O cenário ganha destaque ao ser incomum para grandes empresas de um dos setores mais aquecidos da economia brasileira. Já entre os participantes desse mercado, ele levanta preocupações de que um período de correção e desaceleração seja iminente.

Ritmo acelerado

Em setembro do ano passado, o QuintoAndar anunciou a abertura de mais de 200 vagas de emprego, depois de ter aberto outras 100 vagas em fevereiro. Já a Loft anunciou que tinha intenção de contratar cerca de 500 funcionários ao longo do ano, após abrir mais de 200 vagas em 2020.

As demissões em massa em startups acenderam questionamentos sobre o crescimento acelerado dessas empresas e se a tendência para esse mercado é sempre de contratações expressivas e demissões rápidas.

Thomaz Martins, coordenador do centro de empreendedorismo do Insper, porém, explica que a expansão costuma ser a regra para esse mercado, e não o encolhimento.

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“É normal as startups estarem sempre com muitas vagas abertas. Afinal, os investidores querem que elas cresçam o mais rápido possível para oferecerem um grande retorno sobre o investimento inicial”, diz.

Se há muitas demissões, explica Martins, é porque a empresa encontrou algum período de estagnação. Nesses casos, ela deve optar por enxugar a sua operação e retomar, aos poucos, o crescimento orgânico, ou então “morrer”, se ela não tiver um modelo de negócio sustentável.

“Também há os casos em que as empresas entendem que há uma incerteza no cenário macroeconômico e não sabem se será difícil captar futuras rodadas”, acrescenta. “Então, elas enxugam a operação para operar no ‘breakeven’ [ponto de equilíbrio] e não depender de investimentos para fechar o caixa.”

Expansão e contração

Os investimentos em startups vinham crescendo exponencialmente desde o início da pandemia, quando as taxas de juros estavam em mínimas históricas. Em 2021, foram US$ 9,6 bilhões (R$ 47 bilhões) em aportes em startups no Brasil, um avanço de quase 250% em relação a 2019, quando os investimentos totalizaram US$ 2,7 bilhões (R$ 13,2 bilhões), segundo dados da plataforma Distrito.

Foi nesse período, entre 2019 e 2021, que as três empresas mencionadas alcançaram o status de unicórnio – ou seja, atingiram uma avaliação de US$ 1 bilhão.

Entretanto, com os recentes aumentos das taxas de juros no Brasil e nos Estados Unidos, que encarecem o financiamento para empresas, e a aversão ao risco provocada pela guerra na Ucrânia, as expectativas para 2022 se tornaram menos otimistas.

“O valuation das startups caiu e os investidores estão mais cautelosos. Com os juros altos, o investidor pode optar por deixar o seu capital em uma renda mais estável, o que diminui os recursos disponíveis para as startups”, explica Camila Farani, presidente da G2 Capital e investidora do Shark Tank Brasil.

A Distrito estima que os investimentos em startups chegarão a US$ 12,9 bilhões (R$ 63,2 bilhões) no final deste ano – uma alta anual mais tímida, de 34,6%. Como consequência desse cenário, movimentos de reorganização e “enxugamento” de equipes devem se tornar mais comuns.

“Até algumas companhias ícones desse mercado, como Netflix e Google, estão vendo os preços das suas ações caírem”, aponta Farani. “Logo, as startups também sentem esse cenário, o que tem exigido cortes de custos e, com isso, demissões”.

O que esperar daqui para frente

Para os especialistas, a desaceleração atual não deve ser vista como uma crise no setor de startups. Eles destacam que a tendência para o ano é de uma maior diligência na escolha das empresas que levarão os investimentos, o que pode favorecer o surgimento de negócios mais sólidos e sustentáveis.

“Os investidores vão priorizar ativos de melhor qualidade, com índices econômicos mais sólidos, e que possam se manter sustentáveis em um contexto em que o tempo entre rodadas de captação tende a aumentar”, afirma Camilla Junqueira, diretora geral da Endeavor.

Com o crescimento visto nos anos anteriores, o Brasil já conseguiu consolidar sua posição de destaque entre os países com maior potencial no mercado de inovação de tecnologia. Além disso, novas empresas devem continuar surgindo com a intenção de buscar soluções duráveis para problemas estruturais no país.

“Ajustes são comuns no mundo dos negócios e isso define a possibilidade de uma startup se tornar uma grande empresa: a sua capacidade de saber gerir pessoas, processos, custos, mercado e continuar crescendo”, diz Farani.

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