Aprenda a identificar ações caras e baratas na Bolsa

Há indicadores que facilitam esse tipo de análise, mas que não devem ser considerados de forma isolada, afirmam especialistas

Isabella Velleda
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Virojt Changyencha/Reuters
Virojt Changyencha/Reuters

Quando possível, o investidor deve contar com o apoio de profissionais para decidir quais ações comprar

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Comprar barato e vender caro é o princípio que guia o mercado acionário, mas identificar o momento certo para investir em uma companhia pode não ser tão fácil assim. Existem indicadores quantitativos que podem ser avaliados para este fim, mas especialistas consultados pela Forbes reforçam que eles não devem ser considerados isoladamente.

Relação entre preço e lucro (P/L)

Um dos indicadores mais utilizados para saber se uma ação está cara ou barata é o P/L, que é obtido dividindo o preço atual da ação pelo valor do lucro por ação nos últimos 12 meses. Essa métrica indica quanto o mercado está disposto a pagar pelos lucros de uma empresa.

Exemplo: a ação preferencial da Petrobras (PETR4) fechou o pregão da última quarta-feira (8) a R$ 30,51. Para calcular o seu lucro por ação (LPA), dividimos o lucro líquido da empresa nos últimos 12 meses (R$ 150,062 bilhões) pelo número de ações em circulação (13,044 bilhões), o que resulta em um LPA de 11,5. Dividindo o preço da ação pelo LPA, temos um P/L de 2,7.

Quanto mais elevado for o P/L de uma empresa – em alguns casos, eles chegam a exceder 100 -, mais “cara” é a ação. Porém, esse dado também pode indicar que o mercado tem altas expectativas para o papel, o que é algo positivo.

Por outro lado, quanto mais baixo for o P/L de uma empresa, mais “barata” é a ação. Isso pode significar duas coisas: ou essa ação é uma boa oportunidade que ainda não foi identificada pelo mercado, ou o mercado tem boas razões para não apostar nessa ação.

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Por isso, diz Ricardo Peretti, estrategista de ações da Santander Corretora, “deve-se comparar os múltiplos atuais com os históricos, fazer um paralelo entre as empresas de um mesmo setor ou até mesmo uma análise intersetorial.”

O P/L da PetroRio (PRIO3), por exemplo, é 9, enquanto o da 3R Petroleum (RRRP3) é -38.

Relação entre preço da ação e valor patrimonial por ação (P/VPA)

O indicador P/VPA estabelece o quanto os investidores estão pagando pelo patrimônio líquido de uma empresa. Um P/VPA próximo de 1, em geral, indica que a ação está sendo negociada em linha com o seu valor patrimonial.

Por outro lado, se esse resultado for muito menor do que 1, ele pode indicar que a ação está subvalorizada – da mesma forma que, se for muito maior do que 1, pode haver uma sobrevalorização.

Exemplo: vamos considerar novamente a ação PETR4 a R$ 30,51. Para calcular o valor patrimonial por ação (VPA), dividimos o patrimônio líquido da empresa acumulado nos últimos 12 meses (R$ 434,194 bilhões) pelo número de ações (13,044 bilhões), resultando em um VPA de 33,2. Dividindo o preço atual pelo VPA, temos um P/VPA de 0,9.

Aqui, novamente, a análise deve ser feita levando em conta um contexto mais amplo, tendo em vista que alguns valores de P/VPA podem ser considerados bons para um setor, e ruins para outros. A título de comparação, temos que o P/VPA da PetroRio é 3,2, enquanto o da 3R Petroleum é 1,91.

Relação entre o valor da firma e o Ebitda (EV/Ebitda)

Por fim, outro indicador que pode ser utilizado para saber se uma ação está cara ou barata é o EV/Ebitda, que ajuda a entender a capacidade de geração de lucro de uma empresa.

O valor da firma (em inglês, “enterprise value”) é equivalente ao valor de mercado da empresa somado à sua dívida líquida, menos o caixa. Esse é o valor que deve ser pago para adquirir a empresa. Já o Ebitda é o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização de uma companhia.

De maneira simples, o indicador mostra quantos anos seriam necessários para que o lucro operacional da empresa fosse suficiente para cobrir os gastos gerados para comprá-la. Assim, teoricamente, quanto menor o tempo, melhor.

Exemplo: no caso da Petrobras, temos um valor de firma de R$ 614,659 bilhões e um Ebitda de R$ 306,347 bilhões, considerando o acumulado dos últimos 12 meses. Dividindo os dois, obtemos um EV/Ebitda de 2. Isso significa que seriam necessários dois anos para recuperar o dinheiro investido na compra da empresa.

A vantagem desse índice é que ele pode ser utilizado para comparar empresas nacionais e internacionais, já que ele desconsidera a incidência de tributações específicas de cada país.

Porém, novamente, o que é considerado um EV/Ebitda “bom” depende de muitas variáveis, entre elas o setor em que a companhia atua. Em geral, é possível esperar múltiplos maiores de empresas de alto crescimento, como fintechs, e múltiplos menores de empresas de baixo crescimento, como construtoras. O EV/Ebitda da PetroRio, por exemplo, é 6,8.

Outros indicadores

Existem outros indicadores, como o ROE (retorno sobre patrimônio líquido) e o dividend yield, que podem ser utilizados para essa avaliação. Até mesmo os indicadores citados anteriormente podem ser analisados de maneiras diferentes: o P/L, por exemplo, pode ser calculado com base na expectativa de lucro dos próximos 12 meses.

Embora conhecer esses indicadores seja importante para construir uma visão crítica e entender melhor o mercado, nem sempre deve caber ao investidor calculá-los e analisá-los. Isso, em geral, deve ficar a cargo dos profissionais de bancos e corretoras.

“Olhar balanços mostra uma fotografia do passado da empresa. O futuro é onde fica o diferencial. E para isso, um investidor teria que conversar diretamente com a empresa, seus concorrentes, fornecedores, analisar dados de curto prazo de receita (que demoram para sair nos balanços), entre outros”, comenta João Beck, economista e sócio da BRA. “É algo que, mesmo que você tenha preparo para fazer, demanda muito tempo.”

Nesse sentido, Peretti destaca algumas ações que, segundo suas análises, estão com os seus preços descontados no momento. É importante lembrar, contudo, que qualquer decisão de investimento deve ser feita de acordo com o perfil do investidor, sua tolerância a risco e sua estratégia.

Vale (VALE3): “A companhia ainda possui uma das melhores assimetrias do setor de commodities, com a ação negociando a 3,3x EV/EBITDA esperado para os próximos 12 meses, contra uma média histórica de 4,8x.”

Banco do Brasil (BBAS3): “Os papéis são negociados a um múltiplo P/VPA de 0,7x, abaixo do difícil período de 2015-16. Ou seja, comparando com o histórico, o Banco do Brasil negocia hoje a múltiplos mais descontados, mesmo estando em um melhor patamar de rentabilidade e com uma projeção de lucros crescentes para 2022.”

Multiplan (MULT3): “Após um longo período de restrições sociais, o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes fechados foi um catalisador importante para a retomada do tráfego e das vendas nos shoppings.”

Os levantamentos utilizados nesta reportagem foram realizados por Einar Rivero com dados da plataforma TC/Economatica referentes ao dia 8 de junho.

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