A maturidade e o sabor dos pequenos planos

Eu acredito que, se o destino é o vento, ainda podemos tentar controlar as velas que direcionam o barco da nossa vida

Jurandir Sell Macedo Jr
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Getty Images/Halfpoint Images
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Pessoas de 50, 60 anos continuam cheias de planos e vontade de viver, por isso os 50+ vêm sendo chamados de juventude prateada ou segunda adolescência

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Life is what happens to you / While you’re busy making other plans

Na música “Beautiful Boy (Darling Boy)”, John Lennon adaptou a frase originalmente publicada pelo escritor e cartunista americano Allen Saunders na revista Reader’s Digest, em 1957 – “A vida é o que acontece conosco enquanto fazemos outros planos”.

A frase sofreu várias modificações ao longo do tempo. Talvez a versão mais popular seja aquela que diz que “enquanto fazemos planos, Deus dá risadas”.

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Mas será que fazer planos é realmente inútil? Uma perda de tempo? Será que nossa vida é regulada por uma força maior? Será que nosso destino já está traçado desde o momento em que nascemos? Será que somos condutores da nossa vida ou somos conduzidos por ela?

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Eu teria muitos argumentos para defender a importância de fazer planos como também teria muitos argumentos para dizer exatamente o oposto, que os planos não fazem nenhum sentido. A conclusão óbvia é que ainda tenho dúvidas sobre esse assunto, embora continue a ser do time dos que se planejam.

Existe um texto muito difundido, erroneamente atribuído ao grande escritor brasileiro Mário de Andrade, chamado “O valioso tempo dos maduros”, mas que parece ter sido publicado originalmente como “O tempo que foge” no livro “Eu Creio, mas Tenho Dúvidas”, do teólogo Ricardo Gondim.

Nesse texto, o narrador diz que se sente como um menino que, diante de uma bacia cheia de cerejas – ou seriam jabuticabas? –, consome displicentemente as primeiras, mas, à medida que elas vão sendo consumidas, tenta roer até o caroço de cada uma.

Pois bem, nosso Mário Raul de Morais Andrade, brasileiro, morreu em 1945, aos 51 anos. Já o Ricardo Gondim, quando publicou o texto em 2007, tinha apenas 53. Hoje é muito estranho ver alguém com 50 anos dizer que já tem muito mais passado que futuro, em que pese ainda ser verdade.

Pessoas de 50, 60 anos continuam cheias de planos e vontade de viver, por isso os 50+ vêm sendo chamados de juventude prateada ou segunda adolescência. Adolescência é época de questionamentos, de mudanças.

Minha afilhada, por exemplo, está deixando de ser criança e sua festa de 15 anos, acredita ela, é um marco para a entrada em sua vida adulta. Recentemente, em uma conversa, vi que está empolgada programando cada momento da sonhada festa em que pretende comemorar seus 15 anos, porém ela ainda nem completou 14. Em seus lindos planos, não cabe nenhuma possibilidade de que qualquer coisa saia um milímetro fora do seu planejamento.

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Meus 60 marcaram a minha entrada na velhice. No ano passado, eu também estava empolgado com uma viagem que faria para Mendoza para comemorar meus 60 anos. Cada estadia, cada jantar estava precisamente programado. No aeroporto, descobri que faltava um mero formulário que me fez perder o avião, perder o prazo de validade do meu teste de Covid-19, atrasar em dois dias minha partida e, claro, ter que lidar com uma enorme bagunça nos meus planos.

Aí vem um paradoxo: se disse que as pessoas aos 60 continuam cheias de planos, como posso falar em ficar velho? Acho que não devemos recusar a velhice, porém precisamos ressignificá-la. Quando nosso poeta Mário de Andrade chegou aos 20 anos, em 1913, sua expectativa de vida passava pouco dos 50, portanto, seus planos deveriam ser feitos para as próximas três décadas.

Hoje, ao consultar uma tábua de mortalidade, descubro que ainda tenho mais 30 anos de expectativa de vida. Sendo assim não posso desistir de fazer planos para estes anos dos quais pretendo desfrutar, mesmo sabendo que a vida pode simplesmente rir do meu planejamento.

Então retorno ao princípio: será que adianta fazer planos? Mesmo já tendo visto inúmeros dos meus planos irem por água abaixo, ainda não me entreguei à ideia de deixar a vida me levar, como defende a música imortalizada por Zeca Pagodinho. Eu acredito que, se o destino é o vento, ainda podemos tentar controlar as velas que direcionam o barco da nossa vida. Mas sei que em alguns momentos de calmaria nenhuma vela resolve.

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Assim, tenho feito um esforço imenso para ser mais cuca fresca e aceitar com mais mansidão aquilo que não posso controlar. Na mesma intensidade, me empenho em escolher muito bem no que colocar meus esforços para tentar ter algum controle.

Aprendi que o imponderável frequentemente embaralha as cartas da vida, então meus planos estão mais cheios de alternativas. Estão mais voltados para prazos curtos e para o meu bem-estar, do que para a busca do sucesso.

Tenho procurado dedicar tempo para olhar o pôr do sol, para descansar ao luar, para rir da vida e de meus tropeços e para estar ao lado de quem realmente me faz bem. Porém, não esqueço do meu propósito: acordar a cada dia com vontade de mudar o mundo. Faço isso caprichando nas pequenas coisas: as aulas que ministro, os textos que escrevo e a busca diária de ser um pouquinho melhor do que fui no dia anterior.

Tenho mesmo é tentado saborear até o caroço das jabuticabas que me restam. Ou seriam cerejas?

Jurandir Sell Macedo Jr é doutor em finanças comportamentais, professor universitário e, desde 2003, ministra na Universidade Federal de Santa Catarina a primeira disciplina de finanças pessoais do Brasil. É autor de inúmeros livros sobre educação financeira e tem pós-doutorado em psicologia cognitiva pela Université Libre de Bruxelles. Escreve sobre Finanças 50+ quinzenalmente, às quintas-feiras. Instagram: @jurandirsell. E-mail: [email protected]

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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