Tesla (TSLA): vale investir após receita crescer 42% no 2º trimestre?

Especialista cita quatro motivos para evitar os papéis da montadora de veículos elétricos

Peter Cohan
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Patrick Pleu/Pool/Reuters
Patrick Pleu/Pool/Reuters

As receitas ficaram aquém das expectativas, enquanto os lucros ajustados superaram as previsões

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A Tesla (TSLA) trouxe grande contribuição ao mundo ao mostrar que os veículos elétricos são um substituto viável para os movidos a gasolina. Além disso, a companhia se tornou uma empresa lucrativa de rápido crescimento, desafiando aqueles que venderam suas ações a descoberto.

No entanto, apesar do rápido crescimento da receita no segundo trimestre, eu vejo quatro razões para evitar investir em ações da Tesla:

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Problemas de na cadeia de suprimentos que não podem ser solucionados;
Custos crescentes e margens em declínio;
Grande queima de caixa;
Riscos envolvendo a proposta de aquisição do Twitter por US$ 44 bilhões (R$ 242 bilhões).

Resultados do balanço do 2º trimestre da Tesla

Se você deseja que sua ação suba, os resultados da empresa devem superar as expectativas e a companhia deve melhorar as previsões. O desempenho da Tesla foi misto neste ponto.

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As receitas ficaram aquém das expectativas, enquanto os lucros ajustados superaram as previsões. A Tesla registrou um aumento de 42% na receita, que chegou a US$ 16,93 bilhões – US$ 170 milhões abaixo do consenso, segundo a Refinitiv. Os lucros ajustados por ação da Tesla foram de US$ 2,27, 25% a mais do que as estimativas de Wall Street.

O guidance baixo da Tesla permaneceu inalterado. A empresa ainda espera alcançar “crescimento médio anual de 50% nas entregas de veículos [em um] horizonte de vários anos”, segundo a CNBC.

Penso que os investidores esperavam que a Tesla reduzisse esse guidance. “A empresa está mantendo a taxa de crescimento em 50%, o que é uma surpresa. Achei que eles desistiriam disso”, observou a Bloomberg.

As ações da Tesla – que são negociadas 40% abaixo de sua alta histórica de novembro passado – eram negociadas em alta de 9,63%, às 14h30 de Brasília hoje (21).

Problemas de abastecimento

A Tesla parece ter uma demanda maior por seus produtos do que a companhia consegue atender.

Em uma carta aos acionistas, a fabricante de veículos elétricos observou que suas mais novas fábricas – na Alemanha e no Texas – têm como objetivo aumentar a produção. No entanto, isso dependerá da capacidade da Tesla de lançar novos veículos. A empresa planeja começar a entregar o novo modelo Cybertruck em meados de 2023 – e melhorar sua cadeia de suprimentos.

Problemas na cadeia de suprimentos

Infelizmente, a escassez de semicondutores e peças piorou no 2º trimestre. A falta de suprimentos e problemas de mão de obra e logística impediu que as fábricas da Tesla funcionassem em plena capacidade no período.

Os problemas na sua cadeia de suprimentos incluem a incerteza acerca da inflação, o conflito entre Rússia e Urânia e os surtos de Covid na China, que resultaram em paralisações temporárias em sua fábrica de Xangai, observou a CNBC.

Embora a Tesla tenha expressado expectativa de que os preços das commodities caiam no próximo ano, o preço do lítio parece estar subindo. Como o CEO Elon Musk disse: “O processamento de lítio é insano. [Os empresários que administram instalações de processamento de lítio] não podem perder. É uma licença para imprimir dinheiro”, informou a CNBC.

Meu palpite é que a Tesla continuará à mercê de forças além de seu controle quando se trata de resolver seus problemas de cadeia de suprimentos.

Custos crescentes e margens em declínio

Apesar dos aumentos significativos de preços promovidos pela Tesla, suas margens caíram durante o trimestre.

As entregas da montadora aumentaram 27%, para 254.695 veículos no segundo trimestre em comparação com o ano anterior – embora isso represente um declínio de 18% em relação ao 1º trimestre.

Esse crescimento de volume de 27% sugere que, para atingir o aumento de 42% na receita relatado, a Tesla deve ter aumentado seus preços. Musk confirma que aumentou os valores diversas vezes.

Quanto os preços subiram? A Bernstein Research observou que o preço de um veículo utilitário esportivo compacto modelo Y da Tesla encomendado em junho de 2022 era de cerca de US$ 68 mil (R$ 374 mil), 26% mais alto do que um ano antes, segundo o Wall Street Journal.

Infelizmente, para os investidores, esses aumentos de preços não foram suficientes para impedir que suas margens de lucro caíssem. A margem de 27,9% no 2º trimestre foi cinco pontos percentuais menor do que no 1º trimestre, e meio ponto percentual abaixo da margem do 2º trimestre de 2021.

Minha preocupação é que, se a Tesla continuar aumentando seus preços, o número de pessoas que podem bancar os veículos diminuirá. Isso – e a concorrência de rivais que fabricam modelos mais baratos – pode prejudicar a demanda.

Queima de caixa

A Tesla tem muito dinheiro – eram US$ 17,5 bilhões em caixa no final de junho, de acordo com o balanço -, mas suas operações exigem muito dinheiro. Para levantar recursos, a companhia decidiu vender grande parte de seu estoque de bitcoins.

Musk se referiu às novas fábricas da Tesla no Texas e na Alemanha como “gigantescas fornalhas de dinheiro”. No entanto, a empresa adicionou US$ 847 milhões ao seu caixa no 2º trimestre.

No início de 2021, a Tesla anunciou que havia comprado US$ 1,5 bilhão em bitcoin – a um preço “acima de US$ 30 mil”, segundo o Washington Post. Durante o 2º trimestre de 2022, Musk disse que a Tesla havia vendido 75% de seu estoque de Bitcoin – o que contribuiu com US$ 936 milhões para o caixa da companhia.

Musk citou a incerteza acerca da duração das medidas de lockdown na China e seu impacto no bitcoin, “por isso era importante para nós maximizar nossa posição de caixa”, informou a CNBC.

Proposta de compra do Twitter

Além de investir em bitcoin, outra atividade extracurricular de Musk é tentar adquiriro Twitter e depois tentar desistir do acordo.

Uma combinação de decisões judiciais e negociações entre Musk e a rede social determinará quanto custará a Musk a desistência da proposta de US$ 44 bilhões.

Em 6 de junho, Musk pretendia levantar US$ 33,5 bilhões em financiamento de capital. Cerca de US$ 7 bilhões desse financiamento viriam de “empresas de capital de risco, magnatas da tecnologia, empresas de criptomoedas, fundos soberanos, empresas imobiliárias e fundos mútuos”, segundo a Forbes Advisor.

Ninguém sabe o que vai acontecer com as negociações. Isso deixa os acionistas da Tesla inseguros em relação ao compromisso de Musk de bancar US$ 33,5 bilhões para adquirir a rede social – caso ele concluísse a compra pelo preço contratado –, já que esse capital viria de ações da Tesla que ele precisaria vender no mercado aberto.

Atualmente, 3,2% das ações da Tesla estão em posições vendidas a descoberto. Embora eu não pense em me juntar a esses investidores, os quatro desafios dificultam o caminho para a Tesla alcançar o tipo de crescimento de vendas e lucro que supera as expectativas necessárias para impulsionar os papéis para cima.

Peter Cohn é colaborador da Forbes USA, fundador da firma de consultoria estratégia e capital de risco Peter S. Cohan & Associates e professor de estratégia de negócios e empreendedorismo na Babson College, em Wellesley (Massachusetts).

As informações são de caráter exclusivamente informativo, não constituindo recomendação de investimento. Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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