Elas que inspiram: por que você precisa conhecer Louise Barsi

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Louise Barsi, filha do bilionário Luiz Barsi, é idealizadora do Ações Garantem Futuro, para democratizar e desmistificar a Bolsa de Valores

“Não posso descrever apenas a Louise, sem meu sobrenome, Barsi”. É assim que se identifica a investidora, analista CNPI e uma das idealizadoras do Ações Garantem o Futuro (AGF), iniciativa criada para democratizar e desmistificar a Bolsa de Valores como instrumento de independência financeira. A diferença? O método inclui grandes lições e técnicas utilizadas pelo pai de Louise, o bilionário Luiz Barsi, também conhecido como ‘Warren Buffett brasileiro’ pelo êxito na Bolsa.

A sucessora e filha caçula do ‘Rei da Bolsa’ encara a missão de continuar o legado do pai com responsabilidade, mas também com muita paixão pelo mercado de capitais, levando a estratégia da sua família, para muitos outros lares através do empreendedorismo em ações.

Aos 26 anos, Louise atua como analista na corretora Elite Investimentos, mas também tem cadeira reservada nos conselhos fiscais de companhias como a Klabin, Santander e AES Tietê. Abaixo confira um pouco do nosso bate-papo e entenda mais sobre o famoso método de investimento em ações dos Barsi.

FRANCINE MENDES: Fale sobre a Lou: quem é a Louise?
LOUISE BARSI:
Não posso descrever apenas a Louise, sem meu sobrenome, Barsi. Não acredito que uma pessoa consiga distinguir sua personalidade no trabalho e na vida privada, e sem dúvida o peso das responsabilidades como sucessora me fizeram quem eu sou. Uma garota apaixonada pela Bolsa de Valores, que sonha em multiplicar o legado da família e garantir o futuro de muitas outras com as ações.

Antes, eu tinha muito receio de aparecer em público, do que as pessoas iriam pensar de mim por ser herdeira, filha do Barsi. Eu tive que, dentro de mim, ressignificar que eu não precisava ter vergonha de ser herdeira. A minha família tem uma origem super humilde e, se hoje eu sou herdeira, é porque alguém atrás de mim batalhou e, com muita ética, chegou lá, e eu não tenho que me envergonhar disso. Sobrenome, sozinho, não quer dizer absolutamente nada. Eu sabia desde o início que, por ser herdeira, o peso que as pessoas atribuem a você é muito maior logo de início. E como eu mudei isso? Estudando, me esforçando e também praticando a humildade. Basicamente é isso, sou uma incansável por tentar democratizar o mercado, principalmente para as mulheres.

FM: Além do seu pai, Luiz Barsi, quais suas referências no mercado financeiro?
LB:
Luis Alves e Lirio Parisotto, pelo brilhantismo e história. Minha mãe, Magaly, por ter me ensinado que mesmo alguém de fora do circuito financeiro pode ter uma carreira no meio. Ela trabalhou mais de 15 anos no mercado de capitais, na parte de custódia em corretoras, foi assim que conheceu meu pai.

FM: Como é nascer em um mundo com tantas facilidades e ainda assim tomar as rédeas da carreira profissional desde cedo para fazer a diferença?
LB:
Acho que tudo depende da criação. Fui criada com muito conforto, mas sem regalias. Minha educação sempre foi voltada para conquistar, não para simplesmente herdar.

FM: Quais valores seu pai passou a você desde pequena?
LB:
Sem dúvida, os valores que nunca faltaram em casa foram ética, determinação e disciplina. É preciso ser grato e dar valor à história daqueles que nos fizeram chegar até aqui e, principalmente, desenhar um limite entre ganância e ambição. Cultuar o ego é uma das piores armadilhas financeiras.

A meritocracia também sempre foi um valor que meus pais tentaram me passar desde cedo, mostrando que dinheiro não cai do céu. Liberdade financeira não é o fato de você poder comprar tudo. Liberdade financeira é você pode escolher, não ser refém do dinheiro, deixar ele trabalhar por você. Hoje quando eu vou comprar alguma coisa eu faço a comparação com o número de ações, então tudo é custo de oportunidade. Eu sempre faço a seguinte conta: se eu comprar um celular, por exemplo, o que eu estou deixando de ganhar. Porque esse é um dinheiro que eu coloquei no celular e não comprei em ações. A partir do momento que você entende que pode usar o dinheiro para trabalhar por você, passa a dar mais valor a sua liberdade financeira. E não existe nenhum tipo de liberdade, sem a liberdade financeira. A gente precisa falar sobre isso desde cedo para que a nossa relação com o dinheiro não seja conflituosa. A nossa missão no Ações Garantem o Futuro é mostrar que a Bolsa de Valores pode, e deve, ser usada como um caminho para complemento de renda no futuro. Nós falamos muito pouco no Brasil sobre investir para o futuro. A nossa geração não está conseguindo gerar valor para o futuro.

FM: Quando você começou no mundo dos investimentos?
LB:
Na prática, com 14 anos, quando ganhei uma carteira de ações que me pagavam dividendos, em vez de simplesmente receber uma mesada. Na teoria, bem antes! Gosto de brincar que frequento a Bolsa desde a barriga da minha mãe. Participei de eventos na Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais) desde que me conheço por gente.

FM: O que é o Ações Garantem o Futuro. Você idealizou sozinha?
LB:
Eu sempre tive a ideia de levar esse legado adiante bem cedo, mas o Ações Garantem é uma ideia que veio do Fábio (sócio). Ele queria mostrar a diferença que meu pai fez na vida dele e apresentar a estratégia para outras pessoas. Chamamos o Felipe para fazer parte do projeto e nasceu o treinamento que se chama Jeito Barsi de Investir. O nosso propósito maior é desmistificar a Bolsa de valores através de uma estratégia chamada carteira previdenciária, que nada mais é comprar ações de boas empresas, que paguem bons dividendos, a bons preços.

FM: O que é uma boa empresa?
LB:
Antes de você analisar números em uma empresa, você precisa analisar características qualitativas. É como se tornar sócio de uma empresa na ‘vida real’, em que você quer saber quem são os sócios, se o produto é bom, quem são os clientes, fornecedores, a história dessa empresa.

Uma boa empresa na nossa estratégia são as empresas perenes, resilientes. 

A estratégia central é muito centrada nos proventos, nos dividendos, que é aquela parcela do lucro da empresa que ela distribui aos acionistas. E é assim que acaba acontecendo no futuro com a sua carteira previdenciária: isso se torna uma renda passiva e um complemento de renda lá na frente.

FM: Para quem está descontente com a rentabilidade atual da renda fixa, o método recomenda alocar 100% em ações?
LB:
É muito importante, inclusive antes de entrar na Bolsa, ter uma reserva de emergência em renda fixa. Um erro muito comum do investidor é fazer aplicações com base na rentabilidade passada, e não é assim que funciona. Antes de tudo, precisamos separar o dinheiro em caixinhas: curto, médio e longo prazo. O dinheiro da Bolsa de valores é, exclusivamente, o dinheiro do longo prazo. Outro erro muito comum é colocar o dinheiro do curto e médio prazo na Bolsa, as pessoas enxergam a Bolsa como a última porta da esperança para enriquecer e cometem erros, perdendo dinheiro. Quanto maior é o seu horizonte na Bolsa de valores, maiores são as suas chances de sucesso. A espinha dorsal é a pessoa entender que no AGF, por exemplo, todos seguimos a mesma estratégia, mas a carteira de ninguém é idêntica, porque não existe uma fórmula mágica. 



FM: Para quem nunca investiu em empresas, qual o primeiro passo?
LB:
O primeiro passo é definir qual o seu objetivo e jamais colocar os recursos de curto prazo no mercado de capitais. O segundo é jamais esquecer do primeiro. Foque no longo prazo, entenda o que as empresas fazem antes de olhar os números e trabalhe na sua paciência e disciplina.

FM: Ações são um porto seguro para independência financeira? Por quê?
LB:
Sim, principalmente, quando os investidores assumem a postura de pequenos donos. Somos empreendedores como qualquer outro. A diferença é que sabemos o preço dos nossos investimentos em questão de segundos, o que para muitos pode ser uma desvantagem… Como diria John Bogle, “o mercado de ações é uma grande distração para o negócio de investimentos”. Foi a partir da construção de empresas que as maiores fortunas do mundo foram criadas, e a carteira previdenciária replica exatamente isso, mas, claro, nos limites do bolso de cada um.

FM: Você acredita que diversificação é o único almoço grátis do mercado financeiro? Se sim, como fazer uma diversificação inteligente?
LB:
Se existe uma lição unânime para os economistas é que não existe almoço grátis. Tivemos a prova disso na pandemia: não importa o quão diversificado os investidores estivessem, praticamente todos os tipos de ativos caíram. Estávamos vivendo um momento de fortes riscos sistêmicos e nesse momento diversos analistas recomendaram o que sempre fizemos. Focar em setores perenes, historicamente bons pagadores de dividendos. Mais importante que a diversificação é a inteligência emocional. Diversificar é sem dúvida importante, mas, para nós, acontece naturalmente, é uma consequência, não um objetivo direto.

FM: Quantas empresas ter em carteira?
LB:
A frequência do aporte é muito mais importante do que o montante inicial que você coloca. Essa frequência de aportar todos os meses é muito importante para os efeitos dos juros compostos no longo prazo.

A diversificação é muito importante, mas as pessoas acabam confundindo diversificação com pulverização de carteira. Não é só comprar ações de várias empresas. Será que você tem condições de acompanhar de perto todas essas empresas. Na vida real, você teria condições de ser sócio de muitas empresas? Quem investe precisa acompanhar notícias, ler balanços. Mesmo que a pessoa não entenda de contabilidade, vai conseguir tirar algum conteúdo. É preciso criar o hábito de acompanhar as empresas.

Não existe uma regra para diversificação, mas como você monitora a diferença entre diversificar e pulverizar. Eu tenho uma regra, que aplico na minha carteira: não ter mais do que três empresas entrando na carteira por ano. Eu estou há doze anos na Bolsa e tenho doze empresas, o que na média mostra que investi em 1 empresa por ano.

Isso é importante porque os dividendos são pagos em função da quantidade de ações que você possui, não do valor financeiro aportado. Então se você puder colocar o máximo de ações possível, de poucas e boas empresas, esse seria o ideal para a estratégia.

Você precisa acompanhar de perto porque será sócio dessas empresas por muitos anos. A bolsa de valores tem que ser comparada com o investimento em uma empresa na vida real. Se você se torna sócio de alguém na vida real, vai querer acompanhar de perto e, na bolsa, não tem que ser diferente.

FM: O que é o método Barsi de investir e como colocá-lo em prática?
LB:
Muito simples: comprar ações de boas empresas, que paguem bons dividendos a bons preços. O objetivo final é que o investidor possa formatar uma carteira de previdência que lhe dê rendimentos mensais, um complemento para o futuro.

FM: Investir em renda fixa passa longe do radar da família Barsi. Vocês não recomendam sob nenhuma hipótese? Por quê?
LB:
Renda Fixa, ou “perda fixa”, serve na nossa opinião para simplesmente manter o poder de compra. Não consideramos isso investimento, mas nossas reservas de emergência e de oportunidades ficam geralmente em CDBs com liquidez diária. Os investimentos de verdade, aqueles que multiplicam patrimônio e geram a renda para pagar os boletos da vida real, estão em empresas.

FM: Qual é o seu conselho para as mulheres que ainda têm muito medo do mercado. Por onde começar e em quais setores?
LB:
O risco em qualquer investimento é proporcional ao conhecimento, então a dica número 1 é estudem, não se contentem, sempre procurem por mais informação. Sobre os setores, se a estratégia é em longo prazo, precisamos escolher empresas que pertençam a setores que sobreviverão no futuro. O pilar principal para escolher um setor é ver se a empresa tem perenidade, olhar o histórico, os balanços, os dividendos, a capacidade de geração de caixa. Nós procuramos por empresas em setores perenes. O que é isso? Basicamente são empresas que produzem bens que, são tão essenciais para a sociedade, que nós não viveríamos sem eles. São empresas que ganham dinheiro, mesmo que você não as use. São os cinco setores que chamamos à prova de bala, é o BEST: Bancos, Energia, Saneamento, Seguros e Telecom.

Esses setores oferecem serviços essenciais, ou seja, têm previsibilidade de caixa maior e, consequentemente, em tese, a volatilidade desses preços na bolsa também é menor. Afinal, bolsa é expectativa e se o mercado já consegue saber mais ou menos o que pode ser o lucro da empresa, consequentemente a cotação vai ser muito mais defensiva do que em outros setores mais cíclicos.


Esses setores também acabam tornando a bolsa de valores muito mais próxima do nosso dia a dia. Todo mundo paga conta de luz, então é muito mais fácil associarmos as empresas da vida real aos investimentos que estamos fazendo e monitorá-las. Existem outras empresas fora desses cinco setores, mas esse é um filtro inicial. 

Respeitar o seu perfil e investir em empresas que se encaixem nos valores que você quer passar adiante.

Falando sobre as empresas e setores, vou indicar três que eu gosto muito. O setor de transmissão (energia), por exemplo, é um dos que mais se encaixam na metodologia previdenciária. Eu poderia citar a TRPL (ISA CTEEP, na bolsa opera com o ticker TRPL4) e a Taesa (TAEE11). Outra empresa do setor de energia que olhamos com muito bons olhos é a AES Tietê (TIET11).

FM: Estamos em temporada de divulgação de balanços das empresas listadas em Bolsa. Alguma surpresa?
LB:
Sim, a grande maioria delas positivas. Mesmo assim, isso não tem sido suficiente para o mercado reagir. É por isso que olhamos setores e empresas individualmente, cada caso é um caso.

FM: O que vocês estão esperando do mercado?
LB:
Nós estamos parados, fazendo caixa. Nós não temos a pretensão de saber para onde o mercado vai, porque nós não compramos ações do mercado, nós compramos ações de empresas. Quanto mais você acompanhar como está indo a sua empresa, e não o mercado, melhor. Segundo, nós não importamos muito com a variação do patrimônio. O que paga boleto é renda, não o patrimônio. Se você tem que vender suas coisas para pagar as suas contas, você está empobrecendo toda vez que faz isso. Então, a oscilação de mercado é algo que pouco importa, mas tentando fazer um exercício de futurologia, eu acho que a bolsa ainda tem um pouco para andar (se valorizar). A bolsa sempre vai seguir o resultado e, por enquanto, as empresas têm surpreendido muito positivamente em relação aos resultados, mas é importante a gente acompanhar também a inflação, os problemas fiscais, a geração de emprego, como vai ficar a situação de renda das pessoas sem o auxílio emergencial.

FM:Para quem está acima de 60 anos e deseja fazer uma carteira diversificada e que gere renda. Quando você fala de longo prazo, essa regra vale também para quem está em uma idade mais avançada?
LB:
A minha avó começou na Bolsa de valores com 80 anos. Ela tinha um dinheiro parado na poupança e eu a convenci a colocar um pouquinho na Bolsa. Mas conforme a idade, os objetivos de vida vão mudando. O ideal é que a pessoa comece jovem para que o tempo esteja a seu favor, mas quem está com mais de 60 pode, sim, começar. Não existe fórmula mágica e nunca é tarde para começar, independente da idade. Se você acha que está muito tarde para você, faça isso para dar o exemplo para sua família, e pode ser com qualquer quantia, a Bolsa não é só coisa de rico. Existem excelentes empresas na Bolsa que custam menos de R$ 5,00. Então com R$ 5,00, você já consegue comprar uma ação no fracionário. Você não vai ficar rico assim, mas ter esse hábito é muito importante. Independente de quanto dinheiro você tem, é possível começar na Bolsa.

FM:Na crise atual, os jovens que perderam empregos, estão em home school improvisado, sem perspectivas. Qual o conselho você dá a esses jovens?
LB:
O jovem pensa muito no agora. Então, a primeira coisa é pensar no futuro. Eu preciso viver a minha vida agora, mas também preciso fazer algo para garantir o meu futuro, seja estudando mais, trabalhando mais ou seja investindo melhor. Segundo, a palavra de ordem é estudar incansavelmente, nunca estar satisfeito com o nível de conhecimento. Ler muito e a internet, nesse sentido, é muito valiosa. Eu leio muito e sobre tudo, sobre coisas que gosto e não gosto, coisas que eu concordo e não concordo. A gente precisa se desafiar e buscar novos conhecimentos. Uma boa fonte de informação é o jornal, principalmente o caderno de empresas. Ler um jornal já vai te dar uma boa noção do que está acontecendo.

FM: Que legado você sonha construir?
LB:
No Ações Garantem o Futuro (AGF), nossa missão é democratizar e desmistificar a Bolsa de Valores como um instrumento de independência financeira, principalmente, em relação ao INSS. Meu sonho é contribuir para a educação financeira dos nossos futuros adultos e demonstrar que podemos construir um país menos desigual por meio do mercado de capitais. Nós temos a parte de treinamentos, que é o Jeito Barsi de Investir. Para quem não tiver condição de fazer esse investimento, tem o canal no youtube, são mais de 300 vídeos, tem muita informação valiosíssima para quem está começando na Bolsa.

 

Francine Mendes é educadora financeira para mulheres, economista pela Universidade Federal de Santa Catarina, com mestrado em psicanálise do consumo pela Universidade Kennedy. Apresentadora do canal Mary Poupe, no YouTube, e comunicadora na RiCTV Record. Instagram: @francinesmendes

 

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