Juliana Algañaraz, CEO da Endemol Brasil: “Mulheres gestoras entendem que o melhor das pessoas vem quando estão felizes”

Ricardo Carvalheiro/Endemol Shine Brasil
Ricardo Carvalheiro/Endemol Shine Brasil

Juliana Algañaraz assumiu como CEO da Endemol Shine Brasil em 2016

Juliana Algañaraz é argentina, mas se sente brasileira. Veio ao país depois de se apaixonar por um brasileiro e largar tudo no país natal. Há mais de 20 anos aqui, é vista no mercado internacional de duas formas: Juliana do Brasil e Juliana Endemol. Dois “sobrenomes” que ostenta com orgulho.

Ela assumiu como CEO do grupo Endemol Shine Brasil em 2016, seguindo um caminho improvável. Veio do conteúdo, da produção e foge do estereótipo da líder que passa o dia dentro do escritório, revisando relatórios e assinando contratos entre uma reunião e outra. Por causa do background, faz questão de estar presente no máximo de produções criadas pela Endemol. “Eu criei os vínculos. Não tenho família influente no Brasil, eu criei o meu nome. Me pagam para eu aprender e confiam que eu vou entregar. Posso nunca ter feito antes, mas vou entregar”, afirma. Teve passagens por empresas como Discovery Channel, Animal Planet, Fox Channel e Porta dos Fundos, onde também atuou como CEO e sócia, reestruturando a produtora, que perdeu o caráter amador e hoje ganha prêmios no Emmy Internacional.

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Em um ano desafiador para o mundo e com inúmeras restrições impostas pela pandemia para o entretenimento, Juliana e sua equipe conseguiram entregar 17 produções. Para esse ano, a perspectiva é de 32 programas. É da Endemol o formato “Big Brother”, atualmente em sua 21ª edição no Brasil, batendo recordes de engajamento nas redes sociais – na primeira semana do programa, foram 35 milhões de tuítes e a hashtag #BBB21 foi a mais usada no mundo, segundo o próprio Twitter – e com cotas publicitárias ultrapassando o total de R$ 500 milhões. “O Brasil está se transformando em laboratório: a Endemol testa aqui novos modelos de negócios e depois exporta para fora”, explica.

Mãe de três filhos, duas meninas e um menino, Juliana sempre se sentiu empoderada pela própria mãe, que nunca a limitou em suas possibilidades e horizontes. Integrou equipes em que era a única mulher e hoje, à frente da Endemol Shine Brasil, conta com 80% do corpo diretivo e 71% do grupo composto por mulheres. “Só me preocupo se é efetivo, se trata bem os pares, se dá o melhor todos os dias. Nós mulheres viemos mostrar uma gestão humana”, reflete.

Leia a entrevista de Juliana Algañaraz para a Forbes Brasil na íntegra abaixo:

Forbes: Conte um pouquinho sobre a sua trajetória até chegar ao posto que ocupa hoje, como CEO da Endemol Shine Brasil.

Juliana Algañaraz: Eu sou formada em Rádio e TV, na Argentina, então esse já não costuma ser o caminho natural para CEO, é difícil vir do lado do conteúdo. Mas desde pequena eu tinha o lado comercial forte, era daquelas que negociava com o avô. Hoje, aos 47 anos, eu já dirigi, já tive passagens por Discovery Channel e Fox, tenho um background de conteúdo, mas sou conhecida por ser difícil de negociar. Isso me deu muito nome no mercado. Em dado momento, fiz a escolha de sair da produção e ir pro executivo, apostar nisso. Cheguei a começar o meu MBA, mas não terminei porque a televisão me travou. Fui sócia e CEO da Porta dos Fundos, estruturei a companhia para o que conhecemos hoje, transformei algo amador em negócio. Desde 2016 estou na Endemol como CEO, trazendo a companhia a lugares que não imaginava, mas queria muito.

F: A maioria da sua equipe é formada por mulheres. A questão da equidade de gênero é forte na Endemol?

JA: Na verdade, eu nasci de uma mãe que já lutou por sua liberdade, por sua expressão. Em nenhum momento recebi um aviso de que eu não era igual a um homem. Mas tive que quebrar as amarras da sociedade. Eu sentava com 20 engenheiros e era a única no departamento de operações. Se eu errava no que falava, era massacrada. Mas nunca me sentei na frente de um homem pra trabalhar ou negociar sentindo que precisava explicar algo. Éramos iguais. Quando eu comecei a gerir equipes, sempre me baseei em talentos. Não escolho por ser mulher, mas porque entregou. Tinha o currículo que precisava ter, demonstrou que se destacava. Só me preocupo se é efetivo, se trata bem os pares, se dá o melhor todos os dias.

Nós mulheres viemos mostrar uma gestão humana, que não precisa ser estúpido para gerir. Viemos de uma geração em que o assédio moral era normal na TV, era natural gritar e ofender as pessoas. Sinto que as mulheres gestoras entendem que o melhor das pessoas vem quando elas estão felizes e não assediadas. Do total da Endemol, 71% são mulheres. Na liderança, são 80%. Temos de técnicas de áudio a diretoras.

F: Estamos acompanhando mais uma edição de muito sucesso do maior reality show no Brasil, o “BBB”. Como a Endemol enxerga esse forte consumo do país com os seus formatos? Já se chegou a uma explicação do porquê faz tanto sucesso no Brasil?

JA: Os realities eram considerados um subgênero porque nos mostram o melhor e o pior de nós. Graças a Deus começaram a aparecer formatos como “Extreme Makeover”, “Masterchef” e outros que mostram que o resultado é positivo, é do bem. O “Big Brother” é questionado porque mostra o que é inerente ao ser humano. O que vem acontecendo nos últimos anos e aumentou com a pandemia, é que o reality te permite uma sensação de pertencer a algo muito rápido, eu publico algo na internet e automaticamente tenho resposta, não me sinto sozinha. O reality permite que você se sinta parte da tribo. Tem a imediatez. No momento que você está isolado, quer conexão com algo, ser nutrido para não estar deprimido, o reality te traz isso, o pertencer, o torcer, o amar e odiar, muitas sensações. Nada pior para o ser humano que a apatia.

F: O que você está achando dessa edição do “BBB”?

JA: A Globo faz um trabalho excelente. Se não a melhor, uma das melhores versões do mundo. São brilhantes e preocupados com o que acontece. Eles têm o olhar de deixar a sociedade se ver, gerar debates que faltam ser gerados. O que é melhor para alguém que dá 40 pontos de audiência do que pautar discussões?
A edição brasileira é a que mais cria tendência para levar pros outros países. Temos de parabenizar eles pelo que criaram. Vinte anos no ar, renovando o formato, sendo entretenimento e trazendo debates.

F: A edição deste ano teve recorde de patrocinadores, com o total de cotas ultrapassando os R$ 500 milhões. A edição também bateu recorde de menções no Twitter, triplicando o número da edição anterior, que já foi de sucesso. Esses números se repetem também fora do Brasil?

JA: Você não tem um programa de TV exitoso sem digital. A TV se paga com anunciantes e eles querem repercussão, engajamento e você precisa de mídias digitais. Antes só o Ibope bastava. Hoje, o Twitter é o novo sofá. Antes você sentava com a família e comentava a novela, o jornal, o “Domingão do Faustão”. Hoje você não tem isso, tem o Twitter. Desvincular o que acontece na TV com o que acontece nas plataformas não existe mais.

O mercado brasileiro permite muito isso. Brasileiro adora tecnologia, consome digitalmente, consome vídeo. Brasileiro adora ser número 1. Quando nós propomos algo para o cliente, ele topa inovar. Ele quer sempre algo novo. Em outros territórios eles querem tudo digerido, a fórmula segura. O Brasil está se transformando em laboratório: a Endemol testa aqui novos modelos de negócios e depois exporta para fora. São 220 milhões de habitantes, um mercado com números robustos, clientes que podem pagar produções grandes, podem se dar ao luxo de apostar em algo, outros territórios não tem isso. Nunca sou questionada por criar um novo modelo de negócio e cada vez mais os clientes nos pedem inovação.

F: Existe algum formato que faz mais sucesso lá fora, mas que não fez sucesso no Brasil ou então que nem tentaram trazer pra cá?

JA: Pelo contrário. Temos experiências de formatos que lá fora não deram certo e adaptamos no Brasil, deu certo aqui e depois conseguimos exportar de novo e funcionam. O “The Wall” [exibido como quadro dentro do “Caldeirão do Huck”] do Brasil trouxe uma coisa humana, o perfil dos participantes foi tão humano, bombou aqui e começaram a fazer lá fora. “Game dos Clones”, “Canta Comigo”, o próprio “Big Brother” são formatos que vieram de fora e mudaram aqui, ganharam uma nova cara. Dez anos atrás eu nunca teria vendido lá fora uma ideia criada no Brasil.

F: É natural conectar o nome da Endemol a realities como “BBB” e “Masterchef”, grandes sucessos no país, mas a empresa está por trás de muitos outros formatos, como você mesma lembrou. O que mais a Endemol faz, que o grande público não conhece, e a empresa gostaria de comunicar mais?

JA: Nós fazemos muita ficção lá fora. São 20 produtoras na Inglaterra, as duas maiores da Espanha. Produzimos “Súbete A Mi Moto”, sobre o Menudo, para o Amazon Prime Video no México. “Peaky Blinders”, da Netflix, é nosso. Temos animações também. Aqui no Brasil, vamos produzir duas séries documentais, uma com a Xuxa e a outra com o padre Fábio de Melo. Estamos investindo forte na ficção. Vamos investir no Brasil porque queremos vender para o mundo, são conteúdos que podem viajar perfeitamente. Com o dólar a R$ 5, é muito atraente produzir no Brasil.

Já trouxemos quatro países (Argentina, Uruguai, Colômbia e Chile) para gravar o “The Wall”. “Canta Comigo” também gravamos as edições Brasil e Colômbia no Brasil. Estamos reativando galpões e estúdios abandonados [gravações acontecem no Estúdio e Pavilhão Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, SP]. Servimos de hub para as gravações do “De Férias com o Ex” de Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia.

Temos um parque tecnológico de primeiro mundo. Consigo fazer realities com material daqui, com câmeras 8K e 4K, servidores potentes, profissionais qualificados, mesma tecnologia dos EUA e Europa com valores 5 pra 1, é competitivo.

F: Ainda vivemos em um momento de pandemia, com as pessoas passando mais tempo dentro de casa, mas já vislumbramos uma possível volta à normalidade com os programas de vacinação. Como foi 2020 para a Endemol e o que esperam para 2021?

JA: Em 2020, fizemos 17 produções, mesmo com o coronavírus. Neste ano, a perspectiva é virar mais de 32. A Endemol foi a primeira produtora a voltar ano passado. Desenvolvemos protocolos muito rígidos. Em 1º de maio, voltamos com “Masterchef”, entregamos resultados importantíssimos. Atrás de nós, veio todo mundo. Grandes emissoras ligaram para pedir os protocolos.

Entre 2016, quando entrei como CEO e em 2020, mesmo com a pandemia, o Ebit (Earnings Before Interest and Taxes, Lucro Antes de Juros e Impostos em português) cresceu 22.000% e o faturamento 268%. São números de startup, de quem chegou ontem ao mercado. Isso te dá a temperatura do mercado de conteúdo. Conseguimos achar nosso lugar ao Sol e minha prospecção para os próximos cinco anos é de crescimento igual, há muito espaço para crescer.

F: Qual o seu formato favorito? Qual você gostaria que emplacasse no Brasil?

JA: Acabamos de criar um formato com a HBO Max, que será um show de talentos para formar uma drag band. Temos acordo com a gravadora, vamos lançar a banda. E realmente a HBO acredita que é um formato para produzir em todo o mundo. Tenho muito orgulho desse. Fala de diversidade, de música, tem todos os elementos. No momento, é o favorito. Adoro, acho que vai funcionar muito nas plataformas digitais. Gravaremos ainda este ano.

Outro grande com Ivete Sangalo que vou emplacar esse ano, será também um show de talentos, mas um novo modelo de negócios que vai explodir a cabeça de negócios, é algo que nenhuma produtora independente fez ainda.

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