Bilionária aos 31 anos, ela quer tornar a internet mais segura para as mulheres

Whitney Wolfe Herd, CEO do Bumble, curou as próprias feridas ao lançar um aplicativo onde o poder de decisão é feminino.

Rebecca Silva
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Kristen Kilpatrick
Kristen Kilpatrick

Whitney Wolfe Herd, CEO e fundadora do Bumble, tornou-se a mais jovem bilionária self-made dos Estados Unidos em fevereiro, quando a empresa abriu o capital

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Entrevistar Whitney Wolfe Herd, CEO e fundadora do aplicativo Bumble, não foi fácil. A data foi remarcada quatro vezes, em um processo que se prolongou por três meses. Mas é compreensível: a agenda da líder mais jovem da história dos Estados Unidos a conduzir uma abertura de capital anda sempre lotada. Com a operação, Whitney acumulou, ainda, um outro feito ao se transformar na bilionária self-made mais jovem do país.

Enquanto conversávamos por chamada de áudio, era possível perceber que a executiva perambulava pelo prédio em que estava em busca do melhor sinal de internet – para que a entrevista não precisasse ser, novamente, remarcada. O soar de um alarme – primeiro alto e aparentemente próximo, depois mais distante e baixo – não foi suficiente para encobrir a respiração levemente ofegante da CEO.

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O Bumble foi criado em 2014, inicialmente focado em relacionamentos amorosos. Para se destacar no mercado, Whitney determinou que apenas as mulheres poderiam iniciar as conversas no aplicativo após os matches. “Como no xadrez, o primeiro a se movimentar no tabuleiro tem a vantagem. Quisemos mudar a perspectiva e colocar esse poder do controle da narrativa na mão das mulheres. Não é para estarmos acima dos homens, mas para recalibrar e balancear a história”, explica. A analogia é apenas uma forma de enxergar o que, na verdade, é uma maneira de ver a vida: mulheres querem, podem e devem dar o primeiro passo seja em um aplicativo, na vida profissional ou em qualquer decisão cotidiana.

Com forte campanha de divulgação nos campi de universidades norte-americanas, Whitney direcionou o marketing na venda de um aplicativo de lifestyle e de uma experiência para atrair o target pretendido. A plataforma hoje conta também com o Bumble BFF, para encontrar novos amigos, e o Bumble Bizz, para networking profissional. O objetivo da CEO é criar um ambiente onde seja possível encontrar todo tipo de pessoa.

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Em fevereiro deste ano, o Bumble abriu o capital na Bolsa de Valores norte-americana. As ações estrearam a US$ 76, bem mais do que os US$ 43 estimados inicialmente. Cerca de US$ 2,15 bilhões foram levantados após o IPO, levando a avaliação da companhia a US$ 9,8 bilhões e Whitney ao rol dos bilionários. A empreendedora detém 21,54 milhões de ações do Bumble, o equivalente a 11,6% da companhia.

Com o filho no colo, ela discursou sobre a tentativa de tornar a internet um espaço mais gentil e responsável e agradeceu às mulheres que abriram caminho nos negócios. Em 2020, cerca de 442 empresas norte-americanas abriram capital e apenas quatro delas eram lideradas por mulheres, segundo pesquisa do “Business Insider” e da Nasdaq: Maria L. MacCecchini (Annovis Bio), Roni Mamluk (Ayala Pharmaceuticals), Leen Kawas (Athira Pharma) e Ann Marie Sastry (Amesite).

Diferentemente de outros CEOs do universo digital, que fecham os olhos para a negatividade, bullying, assédio e fake news destilados nas redes sociais onde atuam, Whitney definiu que tornar a internet menos tóxica é o propósito da sua empresa. “Você não pode incluir as mudanças com um plugin ao longo do caminho, mas deve trazer essas ideias desde a criação para estar na mente do consumidor. A internet permitiu que fizessem o que quisessem e agora, anos depois, vamos dizer que tem regras?”, questiona.

E toxicidade é um assunto do qual ela entende. Whitney foi alvo de comentários maldosos na internet após deixar o Tinder, em 2014. Ela foi uma das fundadoras do aplicativo pioneiro na seara dos matches amorosos e atuava como vice-presidente de marketing. A executiva afirma que era alvo constante de comentários que desdenhavam da sua capacidade e reduziam sua importância nas operações da empresa. Quando deixou a companhia, abriu um processou por discriminação e assédio sexual – ela teria sido abusada pelo então namorado e colega de trabalho. O caso foi encerrado com um acordo de US$ 1 milhão e uma quantidade de ações do Match Group, empresa que controla o Tinder.

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Logo após a polêmica saída, Whitney pretendia criar um aplicativo no qual as mulheres pudessem elogiar umas às outras, mas a ideia foi mudando de cara até chegar ao que hoje conhecemos como o Bumble. Presente em mais de 150 países, a plataforma conta com mais de 42 milhões de usuários ativos no mundo. Mas não é preciso procurar por muito tempo na internet para encontrar comentários negativos sobre a premissa do app: há quem diga que ele é sexista e preconceituoso com os homens por impedi-los de tomar atitude. Tem quem vai ainda mais longe ao pregar que homem que se valoriza não deveria usar o aplicativo. Whitney não se abala. “Tomamos essa decisão desde o começo. Prefiro correr o risco de algumas pessoas não usarem a plataforma para que ela seja melhor para quem quiser usar. Quero oferecer uma experiência de qualidade com segurança e bom comportamento e isso atrai muitas pessoas também”, explica.

Em ano de pandemia e distanciamento social, o Bumble teve receita de mais de US$ 500 milhões. A plataforma também registrou aumento de quase 70% no uso de chamadas de vídeo no período de maior reclusão. “Tivemos alto crescimento na demanda e atividade na plataforma e isso diz muito sobre o estado do mundo. Além do desafio sanitário, a solidão cresceu massivamente. Os humanos não foram feitos para viverem sozinhos, isolados. Vivemos por séculos em comunidade, rodeados de família e amigos”, aponta.

Em seu perfil do Instagram – onde acumula pouco mais de 200 mil seguidores e apenas duas fotos, uma delas do dia do IPO – Whitney se define, primeiramente, como a mãe de Bobby, de dois anos. Ela revela que, às vezes, sente-se culpada por trabalhar tanto e não poder passar o tempo que gostaria ao lado do filho. “Quando era criança, visitava o meu pai no trabalho, nunca soube o que era ter uma mãe que trabalhava. Essa culpa está enraizada em mim, mas espero que ele tenha orgulho e se sinta inspirado pelo trabalho que faço”, revela.

Esperançosa em relação ao futuro, a executiva aponta que estamos passando por um processo de despertar muito forte para os privilégios e a importância da inclusão. Ela colabora com a mudança ao focar na contratação de mulheres: elas ocupam mais de 50% dos cargos de liderança e oito dos 11 assentos do conselho de administração, que conta com nomes como Ann Mather, ex-CFO dos estúdios Pixar, e Pamela Graham, ex-CEO da rede CNBC. A companhia também criou o Bumble Fund, fundo de investimento para negócios em estágios iniciais, principalmente aqueles fundados por mulheres não brancas, com aportes que variam de US$ 25 mil a US$ 50 mil e tem a atleta Serena Williams entre os investidores.

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