Cris Naumovs: "Quem disse que temos que ser humildes e sentar no cantinho?"

DJ, carnavalesca, designer e consultora de inovação na Ambev, Havaianas, Facebook e Burger King, ela conta aqui como está mudando o pensamento dentro das gigantes do marketing.

Fabiana Corrêa
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A consultora Cristina Naumovs em um dos desfiles do Bloco do Apego, fundado por ela e pela companheira, Patrícia Ditolvo

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Cristina Naumovs é uma daquelas pessoas que consegue ganhar a vida com o que já fazia quando não era paga (exatamente) para isso. “Eu sou uma contestadora. Não aceito um ‘não pode’ sem explicação. Tudo pra mim tem que ter um porquê”, diz a ex-designer de revistas, DJ, fundadora do Bloco do Apego e hoje consultora de inovação e diversidade em gigantes como Ambev, Havaianas, Burger King e Meta (o antigo Facebook). Na semana passada, grudou mais uma estrelinha no currículo. Ela fez parte do time que levou ouro na categoria Solução Inovadora do prêmio Effie, dedicado às melhores ideias de campanhas de marketing. Cris foi uma das idealizadoras, em conjunto com a agência Soko, do projeto Marca na Lata, que estampa na embalagem do Guaraná Antarctica o logo de apoiadores do futebol feminino no Brasil. “A marca está fazendo 100 anos e eu trouxe um questionamento sobre o legado que está deixando”, conta ela, que participou também da curadoria das marcas a serem estampadas nas latinhas. A ideia é divulgar essas empresas para que a modalidade esportiva tenha cada vez mais patrocinadores no país, além de apoiar a Meninas em Campo, Ong que forma atletas de alta performance. 

A campanha premiada é uma iniciativa pouco comum na história do marketing, em que uma empresa se esforça para promover outras. E, por isso mesmo, um bom exemplo do tipo de pensamento contestador que Cris leva para dentro das salas de reunião. “As pessoas que estão envolvidas com o dia a dia da empresa nem sempre conseguem fazer as perguntas necessárias para a mudança. É importante ter um olhar de fora”, avalia. Foi assim que, em uma conversa com Maria Fernanda Albuquerque, hoje CMO da Havaianas, contou que sempre via meninas trans  (Cris é conselheira em uma casa para mulheres trans em situação de rua) calçando chinelos com glitter, mas sempre com um pedaço do calcanhar sobrando, por não encontrar o número certo. “Na época, acho que os modelos com brilho só iam até o 40 ou 41. Eu acho muito duro que o mercado decida que tamanho tem um pé de mulher. E se um cara quiser usar, vocês não vendem?”, questionou, mais uma vez. A ideia parece simples, mas são essas perguntas, aparentemente óbvias, que a colocaram onde está hoje. A partir daquela conversa, Cris participou da mudança que a empresa promoveu em sua grade de modelos. “Eliminamos essa história de feminino e masculino. Você até pode escolher por gênero, se quiser, mas se entrar no site para comprar uma sandália pode procurar por cor, por ocasião, por coleção, sem se limitar.”

 

Biquínis com Tais Araújo

Entre uma reunião com o vice-presidente da Ambev e outra com os top executivos do Facebook, Cris recebeu uma mensagem de Taís Araújo. A atriz é um dos muitos contatos que fez durante os anos em que trabalhou como diretora de arte em projetos editoriais. E isso é algo que Cris cultiva com carinho: sua preciosa agenda. Mas Taís é uma das poucas super famosas, tipo capa de revista, que estão na lista. “Eu nunca tinha trocado telefone com celebridades, mas com a Taís rolou muita afinidade durante uma sessão de fotos e nos falamos com frequência, até que ela me chamou para pensarmos juntas em sua marca”, diz. Em conjunto, estão gestando a Hotmamma, uma plataforma de lifestyle para falar com mulheres de todos os tipos, o que inclui desde educação financeira a uma linha de roupa de praia sexy e confortável para quem é mãe. Ou não.

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Todo esse espaço que Cris ganhou nos últimos três anos, desde que saiu da direção de criação da revista Cosmopolitan, decidiu que não queria mais circular pelo jornalismo e fundou a Apego Inc, sua consultoria, na verdade foi conquistado ao longo de outros 40 anos. Foram 10 escolas e 8 faculdades diferentes (a maioria ficou só na matrícula), além de muita cara de pau para ocupar cadeiras que, em princípio, eram negadas. “Fui me inscrever em uma vaga de estágio do festival Mix Brasil e, quando cheguei lá, ouvi que não poderia porque não estava estudando. Saí, fiz uma matrícula na Escola Panamericana de Artes, e voltei para fazer a inscrição. Me contrataram”, diz. Essa postura ela também leva para as corporações. “Eu chego e, se estiver vazia, me sento na cadeira da ponta da mesa. Quem disse que a gente tem que ser humilde e sentar no cantinho?”

Se um de seus trabalhos dentro das empresas é gerar consistência entre a mensagem que divulgam e a cartilha rezada em casa, sentar na cabeceira da mesa faz todo o sentido. “Quando os executivos me chamam para falar de políticas de diversidade, pergunto como elas acontecem dentro da empresa. Não dá mais pra falar pra fora sem falar pra dentro, a mensagem tem que ser verdadeira”, diz, referindo-se a alguns trabalhos que ajudou a criar, como a campanha do Burger King com crianças explicando o que é LGBTQIA+. Cris fez questão de que os funcionários, que ela enxerga como embaixadores de qualquer marca, também se envolvessem no tema. “O BK é um grande empregador de jovens que não conseguem emprego em outros lugares por conta de sua sexualidade, temos que chamá-los pra essa conversa”, diz. Assim, funcionários LGBT foram retratados e tiveram sua imagem espalhada por São Paulo na campanha BK Parade. “Meu trabalho começa no marketing mas chega no RH porque a postura de uma companhia tem que ser verdadeira, tem que ser de dentro pra fora.”

E assim Cris Naumovs tem, cada vez mais, ocupado a cadeira da cabeceira nas empresas e sendo paga para fazer suas perguntas óbvias em novas organizações que a contratam. Como o quê, mesmo? “Posso ser uma diretora de criação, posso ser uma consultora de inovação, posso ser o que a empresa precisar”, diz. Como alguém a apresentou dia desses, poderia ser só uma consultora de bom senso mesmo. Define bem.

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