Gerando Falcões busca startups e capital internacional para transformação digital da favela

Protótipo está sendo desenvolvido em São José do Rio Preto, numa comunidade onde 80% dos 600 moradores vivem abaixo da linha da pobreza.

Angelica Mari
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O fundador e CEO da organização social sem fins lucrativos, Edu Lyra: a elite precisa investir em inovação social

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A plataforma de desenvolvimento social Gerando Falcões (GF) está acelerando seus planos de transformação social em 2021, que incluem a definição de um modelo de parceria público-privada para a transformação digital de favelas com a participação de startups de base tecnológica, bem como a busca por capital estrangeiro para a expansão do projeto em território nacional.

O ponto de partida é um protótipo de “favela inteligente”, que será executado em São José do Rio Preto (SP), e tem como parceiros o Instituto Tellus e a multinacional de consultoria Accenture. Na favela em questão, em que 80% dos 600 moradores vivem abaixo da linha da pobreza, uma abordagem multidisciplinar será aplicada para aumentar a renda média em oito vezes e transformar realidades, com moradias conectadas e sustentáveis, capacitação para a economia digital, espaços multiuso de entretenimento com foco em economia hiperlocal e empoderamento feminino com nanoempreendedorismo e microcrédito.

Um termo de cooperação foi assinado com a prefeitura da cidade paulista, e a modelagem econômica do projeto deve ser concluída até março de 2021. Além disso, a Gerando Falcões conta com um comitê composto por seus 13 investidores, que inclui nomes como Ana Maria Diniz, do Instituto Península, Guilherme Benchimol, da XP, e Elie Horn, da Cyrella. Este grupo também atuará no projeto, em aspectos que vão desde a captação de recursos até a obtenção de parceiros de infraestrutura de internet para a favela.

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“Nessa favela inteligente, vamos construir o primeiro museu da pobreza no Brasil. Uma vez que fizermos isso, e tivermos evidências, além de avaliações externas de universidades e instituições globais comprovando [a validade do modelo], a gente ganha autoridade para influenciar o governo e dizer: olha aqui, vamos escalonar essa solução? Nós temos que influenciar”, diz o empreendedor social Edu Lyra, responsável pela iniciativa, em entrevista à Forbes.

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Para além da iniciativa que pode vir a ser a vitrine de um projeto nacional, a organização revisou seu plano para 2021, aprovado pelo board nesta semana. Com metas dobradas, 240 líderes sociais de favelas serão capacitados e a GF deve chegar em 678 novas favelas, com 95 organizações locais aceleradas com recursos financeiros. A Gerando Falcões deve fechar o ano que vem com presença em quase 1 mil favelas em território nacional, impactando cerca de 200 mil pessoas.

Com o modelo econômico da favela inteligente definido, o CEO da Gerando Falcões vai buscar investimentos fora do país, e investigará as referências no uso de inovação para diminuir a miséria. Lyra acabou de voltar da Colômbia, de onde saiu com um acordo de cooperação. A visita foi impactante para o ativista, que está definindo uma agenda de visitas a outros países nos próximos meses para capturar as boas práticas.

“A Colômbia conseguiu criar o maior case de combate à pobreza e diminuição da violência da América Latina com a integração de políticas públicas, tecnologias sociais envolvendo governo, academia, ONGs, iniciativa privada e, sobretudo, a comunidade local”, conta o empreendedor social. “Muitas destas experiências podem ser replicadas nas favelas brasileiras.”

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Além disso, Lyra também quer capturar o imaginário de mais bilionários brasileiros, em especial os novos ricos da economia digital, com um senso de urgência em relação à necessidade de envolvimento por parte da elite brasileira na correção da desigualdade: “Você pode ser um ‘rico galpão’ ou um ‘rico centro de distribuição’. O rico CD distribui recursos, tempo, tecnologias e, fundamentalmente, lidera processos”, ressalta.

“Uma parte muito grande da elite brasileira tem sido omissa. O que a gente quer é trazer mais pessoas pro lado de cá, do protagonismo e de liderar processos que sejam revolucionários no Brasil”, pontua Lyra, acrescentando que o topo da pirâmide socioeconômica precisa investir em inovação social. “Todo mundo quer investir em certezas, mas não existem certezas quando você tá fazendo uma favela inteligente, uma comunidade autossustentável. Tem que ter abertura para o risco.”

Para sofisticar a proposta de favela digitalmente, Lyra conta com a ajuda de Lara Lemann e Mônica Saggioro, fundadoras da gestora de venture capital Maya Ventures para fazer a curadoria de tecnologias e parceiros de impacto. As investidoras – cujo portfolio inclui a The Not Company, de comida à base de plantas, a Kovi, de aluguel de carros, e a Trybe, de educação online – estão entre os “construtores de pontes”, que apoiarão a Gerando Falcões com um ecossistema de startups para ajudar a desenvolver e evoluir o protótipo.

No entanto, Lyra ressalta os desafios estruturais para entregar esta visão de favela digitalizada. Entre eles, está a exclusão digital da população que habita nestes espaços – segundo a pesquisa TIC Covid-19, do Comitê Gestor da Internet, 74% dos usuários das classes D e E só acessam a rede por meio do celular. O empreendedor observa que problemas como este ficaram invisíveis por muito tempo, e que apesar da crise da Covid-19 ter colocado uma lente de aumento nestas questões, ainda há muito a fazer para que produtos e serviços digitais cheguem na favela.

“[Startups] precisam acelerar a chegada de suas tecnologias nas favelas, mas isso ainda é muito distante. [Fundadores] precisam se envolver na discussão, na solução: tem que ser menos Faria Lima e mais Brasil, mais favela, mais periferia. Onde seus pés estão, a sua cabeça pensa. Se alguém transitar nas favelas, vai ter mais troca de aprendizagem e muito mais oportunidades de cocriação de suas soluções”, aponta Lyra.

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O empreendedor social faz uma crítica sobre avaliações superficiais acerca do tempo necessário para entregar a visão de favela inteligente, que no momento está estimado em três a quatro anos. “O nosso problema é a pressa, mas não existe fast food social. O trabalho leva muitas iterações: o favelado tem muitos passivos sociais por conta da realidade em que vive e nós estamos tentando produzir ativos humanos pra reverter o quadro”, ressalta.

ACUPUNTURA SOCIAL

Com base nas práticas que viu na Colômbia, Lyra comenta que para endereçar a desigualdade e a violência, é preciso usar a abordagem de “acupuntura social”. “Se você tem uma dor de cabeça persistente, na acupuntura a agulha não vai direto no ponto da dor, e sim em torno do corpo pra reduzir aquela dor. Quando você quer diminuir um índice de violência ou o tráfico de drogas na favela, você não entra na biqueira [ponto de venda de drogas] com armas”, pontua.

“[Para resolver estes problemas], você implementa uma pista de skate, um campo de futebol, um laboratório com computadores ultramodernos para capacitar programadores, tecnologias educacionais, cria uma biblioteca, parques, você põe escada rolante na favela. E aí o morador vai se sentindo empoderado, valorizado, vê novas alternativas de empreendedorismo e, automaticamente, vai vendo que o crime não funciona”, acrescenta.

Apesar de tomar a frente de um trabalho que, segundo Lyra, “desarma bombas-relógio” em favelas, ele defende a visão de que o governo não precisa construir todas as abordagens inovadoras para erradicar a miséria, mas precisa empoderar a academia e o terceiro setor. “Temos laboratórios de tecnologia e desenvolvimento social em 300 favelas e atuando em territórios onde o Estado não está presente. Os governantes podem olhar para essas tecnologias e programas bem-sucedidos e fazer isso se tornar uma política pública, criando um programa transformacional com o canhão econômico que só o governo tem”, ressalta.

“Quanto mais tivermos um terceiro setor forte, mais será possível construir a prototipagem de soluções que podem efetivamente mudar o ponteiro social no Brasil. Mas um olhar governamental é necessário para que isso ganhe uma escala nacional.”

Angelica Mari é jornalista especializada em inovação há 18 anos, com uma década de experiência em redações no Reino Unido e Estados Unidos. Colabora em inglês e português para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC e outros.

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