Laboratório desenvolve tecnologia capaz de adivinhar o nome das pessoas apenas olhando para seus rostos

“Efeito Dorian Gray” foi adotado por um contratante do governo norte-americano para aplicativos de reconhecimento facial.

Thomas Brewster
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Reprodução/Forbes
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A tecnologia deriva de uma pesquisa que sugeriu que o nome de uma pessoa pode estar refletido em sua aparência facial

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Você já teve dificuldade em colocar um nome em um rosto? Pois saiba que existe um aplicativo para isso.

Ele foi criado e patenteado por um dos laboratórios de vigilância mais confiáveis do governo dos Estados Unidos, o centro de pesquisa sem fins lucrativos Mitre Corp. A organização é como o laboratório de James Bond, mas para todo o governo federal. No passado, o skunkworks – grupo de pessoas que trabalham em um projeto inovador, de forma livre e não convencional na empresa – da companhia, baseada na Virgínia, produziu drones autônomos de vigilância, tecnologia de hacking de smartwatch e ferramentas para tirar impressões digitais de imagens de mídia social. E a Forbes encontrou uma patente não declarada anteriormente que busca impulsionar a tecnologia de reconhecimento facial adivinhando o nome de alguém apenas ao olhar as características do seu rosto.

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Pode soar como feitiçaria, mas a tecnologia deriva de uma pesquisa anterior da Universidade Hebraica de Jerusalém que sugeriu que o nome de uma pessoa pode estar refletido em sua aparência facial, um fenômeno apelidado de “Efeito Dorian Gray”, em homenagem ao anti-herói homônimo de Oscar Wilde. No estudo, eles descobriram que as pessoas, muitas vezes, conseguem adivinhar o nome de alguém quando apresentadas a cinco opções diferentes. Os participantes escolheram com precisão o nome certo em 28,21% dos casos, acima dos 20% esperados. Quando um computador, treinado em um conjunto de dados de 100 mil faces, recebeu dois nomes diferentes e um rosto, acertou 59% das vezes, mais do que os 50% que se esperaria de suposições aleatórias.

Segundo os pesquisadores, essas descobertas indicam que tanto humanos quanto computadores seriam capazes de olhar para um rosto e ter uma maior chance de combinar o nome correto do que o errado. Eles sugeriram que isso poderia ser devido à maneira como um nome afeta a vida de uma pessoa: “Propomos que o nome de alguém possa ter um efeito Dorian Gray em seu rosto. Nosso nome de batismo é nossa primeira marcação social. Cada nome tem características associadas, comportamentos e um olhar e, como tal, tem um significado e um esquema compartilhado dentro de uma sociedade. Esses estereótipos de nomes incluem uma aparência facial prototípica, de modo que temos uma representação compartilhada para a aparência ‘certa’ associada a cada nome. Com o tempo, essas expectativas estereotipadas de como devemos parecer podem eventualmente se manifestar em nossa aparência facial. ”

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Na patente do Mitre, registrada em 2018 e publicada em 2020, ele disse que queria melhorar o reconhecimento facial com base nas descobertas da Universidade Hebraica. “Os sistemas de reconhecimento facial atuais podem ser melhorados combinando rostos com nomes usando o efeito Dorian Gray, que não exige que a pessoa em uma imagem de rosto seja conhecida pelo sistema antes de selecionar um nome provável para ela. A precisão de 59% alcançada pelos pesquisadores, no entanto, é muito baixa para ser útil, e precisa ser melhorada.” Em experimentos, o Mitre usou o banco de dados “Labeled Faces in the Wild” (hospedado pela Universidade de Massachusetts, em Amherst) que contém mais de 13 mil imagens de rostos coletadas da internet, cada uma rotulada com o nome da pessoa retratada. O centro de pesquisa afirma que sua tecnologia foi capaz de obter uma precisão entre 72% e 80,5% quando o sistema foi apresentado a um rosto e dois nomes para escolher, o que “excede amplamente a precisão esperada de 50% se o sistema selecionasse aleatoriamente um de dois nomes. ”

O Mitre sugere que sua tecnologia pode funcionar em dois sentidos: um rosto pode ser usado e analisado para adivinhar um nome, ou um nome pode ser escolhido e, a partir dele, um rosto selecionado pela tecnologia como a melhor correspondência possível.

Não se sabe se o governo dos Estados Unidos tem acesso à ferramenta ou a está utilizando de alguma forma. O único cliente do Mitre, porém, é o governo federal, do qual recebeu entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões em dinheiro do contribuinte nos últimos anos. E já forneceu serviços de reconhecimento facial para o FBI.

Grande parte da pesquisa avançada do Mitre com foco na segurança nacional está envolta em segredo e o laboratório se recusou a comentar sobre esta patente e pedidos de entrevistas no ano passado. A organização tem sido mais aberta sobre seu trabalho de consertar o sistema de rastreamento de contatos da Covid-19. 

Os criadores de tecnologia cara a cara também não contataram os pesquisadores da Universidade Hebraica, que só agora estão descobrindo que seu trabalho foi adotado por um contratante do governo como uma forma potencial de melhorar as ferramentas de vigilância. “Não estamos familiarizados com esta patente e ninguém nos procurou”, disse Jacob Goldenberg, um dos pesquisadores. Questionado se ele achava que seria viável criar uma ferramenta que pudesse combinar nomes com rostos, ele acrescentou: “Tenho certeza de que pode funcionar”.

“Mas isso não deve ser uma grande surpresa – há tantos projetos sobre tópicos como reconhecimento facial e o que pode ser aprendido com rostos, tanto no nível acadêmico quanto no setor.” Ele destaca outras ferramentas que podem detectar se um aluno está prestando atenção na aula, ou o Face2Gene, que afirma ser capaz de ajudar os médicos a detectar síndromes com base na análise facial de um computador.

“Ciência lixo”

Outros são consideravelmente mais incrédulos sobre a tecnologia e as implicações de privacidade que ela traz. “Eu seria profundamente cético em relação a qualquer aplicação desta tecnologia que pretenda ser capaz de adivinhar o nome de uma pessoa apenas com base em seu rosto”, disse Lex Gill, uma advogada de Montreal e pesquisadora do Citizen Lab, organização da Universidade de Toronto que rastreia tecnologias de vigilância. “Embora obviamente haja fortes correlações com base na percepção do sistema sobre a raça e o gênero do rosto – que, a propósito, são construções sociais – bem como a avaliação do sistema da idade da pessoa, nada disso vai ser particularmente determinante. ”

Lex apontou “problemas óbvios” para pessoas cujos nomes mudaram ao longo da vida, incluindo trans e imigrantes. Ela disse que lembrava da “ciência lixo” anterior, que afirmava ser possível identificar “rostos gays”.

“Parece que as aplicações mais prováveis ​​aqui seriam usar a tecnologia para melhorar a precisão aparente dos sistemas de reconhecimento facial existentes”, acrescentou Lex. “Nesse caso, as preocupações que isso levanta são apenas uma extensão das preocupações que a maioria dos acadêmicos e advogados tem sobre a tecnologia de reconhecimento facial em geral – incluindo que seu uso é, muitas vezes, uma violação ilegal e inconstitucional dos direitos de privacidade, que tem o potencial de reproduzir e agravar racismo sistêmico. ”

Pesquisas anteriores indicaram que as ferramentas de reconhecimento facial costumam ser piores em encontrar uma correspondência para um rosto preto único do que em detectar o rosto de uma pessoa branca. Casos recentes também mostraram que a polícia identificou e prendeu negros inocentes por crimes que eles não cometeram com base em uma correspondência de reconhecimento facial, levando a alegações de preconceito racial na tecnologia.

A adição das tecnologias do Mitre exacerba esse preconceito? Na hipótese em que tudo seja desenvolvido a portas fechadas, provavelmente nunca saberemos.

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