Brasil pode exportar menos arroz em 2021, mas preços seguem firmes

Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

As exportações de arroz do país estão estimadas neste ano em 1,5 milhão de toneladas

Depois de ver um salto acima de 30% nas exportações do ano passado, a indústria de arroz avalia que as vendas externas do Brasil recuarão em 2021, mas os preços devem seguir elevados ao longo do ano, mantendo pressão sobre a inflação do país.

Uma safra nacional estagnada nos últimos anos, uma demanda interna firme e um câmbio favorável às exportações ajudam a explicar o cenário de mercado sustentado.

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As exportações de arroz do país estão estimadas neste ano em 1,5 milhão de toneladas (base em casca), uma queda frente ao volume de 1,82 milhão embarcado em 2020, que foi o segundo maior da história. Ainda assim, os embarques em 2021 ficarão acima do total de 1,36 milhão de 2019, disse à Reuters o diretor de assuntos internacionais da associação do setor Abiarroz, Gustavo Trevisan.

Ele lembrou que no ano passado a chegada da pandemia do coronavírus gerou temores sobre segurança alimentar no mundo, e importantes fornecedores, como Índia e Tailândia, reduziram os embarques. Isto causou uma ruptura global na oferta e abriu espaço para que países como o Brasil, que são também importantes importadores, avançassem nas exportações, o que não deve se repetir na mesma intensidade em 2021.

“Constataram que o arroz brasileiro é de muitíssima qualidade, assim como o da América do Sul, e por isso estamos otimistas para as vendas deste ano”, afirmou o executivo que também faz parte do projeto Brazilian Rice, da Abiarroz em parceria com a Apex-Brasil, focado em impulsionar o produto no mercado externo.

Trevisan ressaltou que, atualmente, o principal comprador do Brasil é o Peru e destacou negócios feitos com os Estados Unidos, Venezuela, México, países da América Central e africanos. “Mas estamos trabalhando em outras frentes para fornecer ao Oriente Médio e Europa”, acrescentou.

Na mesma linha, o analista da consultoria Safras & Mercado Gabriel Viana acredita que, mesmo com a retomada de mais vendas da Índia e Tailândia neste ano, o Brasil ganhou competitividade, apoiado também pelo câmbio. “Alguns países próximos acabaram comprando da gente e podem continuar nessa temporada”, disse.

Apesar das projeções otimistas para as vendas, Viana disse que, por enquanto, não há probabilidade de que o Brasil tenha que aumentar o nível de importações no fim do ano para atender a demanda interna, como aconteceu em 2020. Segundo ele, o principal efeito será sentido nos preços.

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Inflação

Em plena colheita no Brasil, que tem cerca de 70% do arroz colhido no Rio Grande do Sul, segundo o Irga (Instituto Rio Grandense de Arroz), o aumento da oferta não foi suficiente para trazer os preços a níveis próximos dos vistos em anos recentes. As cotações se afastaram dos picos acima de 100 por saca vistos em 2020, mas seguem em patamares elevados.

O indicador do arroz em casca Esalq/Senar-RS encerrou ontem (13) cotado a cerca de R$ 87 por saca, salto de 60% no comparativo anual, conforme dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). “O arroz compromete cerca de 0,5% do orçamento familiar… ele já corresponde a 6,6% da inflação acumulada no país em 12 meses, medida pelo índice IPC Brasil”, afirmou o economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas , André Braz.

Ele disse que a colheita do cereal gerou reduções de 1% a 2% nos preços internos entre fevereiro e março, quedas muito pequenas quando comparadas ao aumento acumulado em 12 meses – ano passado, parte da pressão altista se deu também por um aumento no consumo interno, especialmente por aqueles que contaram com o auxílio emergencial.

“A queda é bem-vinda, mas não levou o arroz para o patamar de preço negociado no início do ano passado… e não há perspectiva de que o preço continue caindo, ele deve continuar com esse novo patamar de preço, pressionando o custo de vida das famílias.” Ele ressaltou ainda que uma diminuição na produção contribui para este cenário de ajuste na oferta e custos elevados.

Dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) indicam que a colheita da safra 2020/21 deve atingir 11,09 milhões de toneladas, ligeiro recuo de 0,8%. No Rio Grande do Sul, a baixa é estimada em 1,7%, para 7,73 milhões. As duas reduções são puxadas por perda de produtividade, após um longo período de seca no segundo semestre de 2020.

Do lado do consumo interno, a Conab estima uma queda anual de 200 mil toneladas, para 10,8 milhões de toneladas, enquanto as importações também terão recuo semelhante, para 1,1 milhão de toneladas.(Com Reuters)

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