Avaliada em US$ 11 milhões, primeira emissão de CRA Verde coletivo do mundo é realizada no Brasil

Wenderson Araujo/CNA
Wenderson Araujo/CNA

Compromissos assumidos pelos produtores permitirão a preservação de 24.667 hectares de áreas protegidas

Sete produtores do Centro-Oeste brasileiro receberam esta semana uma notícia que os coloca como pioneiros, em todo o mundo, em uma nova modalidade de crédito agrícola. Uma operação de emissão de CRA (Certificado de Recebíveis Agrícolas), com valor total de R$ 63,3 milhões (o equivalente a US$ 11 milhões na data da emissão), realizada pelo grupo e concluída no início de março, acaba de receber certificação verde de acordo com os Critérios Agrícolas da Climate Bonds Initiative (CBI), organização internacional sem fins lucrativos que é referência global no desenvolvimento dos critérios de rotulagem para esse tipo de transação.

A ação é resultado da parceria entre as empresas Produzindo Certo, empresa especializada na transformação de cadeias de fornecimento; a Traive, fintech voltada à estruturação, modelagem e distribuição de soluções financeiras; Finance e Gaia Impacto, uma das principais securitizadoras do mercado brasileiro, com mais de R$ 20 bilhões em operações realizadas. O CRA Verde.Tech, como foi batizada a operação, tem como lastro a emissão, por parte dos produtores, de 17 CPRs (Cédulas de Produto Rural), em que estão vinculados, além de compromissos produtivos e financeiros, uma série de metas de desempenho socioambiental em suas propriedades.

LEIA TAMBÉM: EXCLUSIVO: Jato avaliado em US$ 9 milhões chega ao Brasil com foco no agronegócio

Trata-se da primeira operação pulverizada do gênero, reunindo produtores rurais e sem ligação a um grupo agrícola. “A certificação da CBI referenda nossos esforços em criar condições para que os produtores responsáveis sejam valorizados através da obtenção de recursos e taxas diferenciadas, por ser um atrativo aos fundos internacionais de investimentos”, afirma Aline Locks, CEO da Produzindo Certo. “Dar a opção ao médio produtor de participar desse mercado, que até então tem atraído apenas grandes empresas do agro nacional, é muito entusiasmante.”

Segundo a Climate Bonds, o CRA Verde.Tech é a terceira operação no mundo a receber a certificação de acordo com os novos critérios agrícolas, estabelecidos pela organização em outubro do ano passado dentro dos padrões estabelecidos no Climate Bonds Standard – ferramenta de triagem internacional para investidores e governos que lhes permite avaliar facilmente os títulos climáticos e verdes com a confiança de que os fundos estão sendo usados para fornecer soluções para mudanças climáticas.

As duas operações anteriores, porém, foram realizadas por empresas de grande porte. Outro ponto inédito do CRA Verde.Tech é a inclusão de seguros agrícolas customizados, que dão garantia extra aos investidores que participaram da emissão. “Recebemos com muito otimismo a emissão do primeiro título verde pulverizado certificado de acordo com os critérios de agricultura da Climate Bonds Initiative. Esta emissão, ao reunir sete diferentes produtores de dois estados brasileiros, é um marco histórico para o Brasil. Operações verdes desta natureza certamente vão inspirar mais emissões coletivas, que ajudarão a destravar investimentos para os produtores agrícolas brasileiros”, afirma Leisa Souza, Head para América Latina da CBI. Os compromissos assumidos pelos produtores permitirão a preservação de 24.667 hectares de áreas protegidas com vegetação nativa intactas – sendo 2.505 hectares de matas ciliares no entorno de 387 quilômetros de rios e 141 nascentes.

Parceria estratégica
A realização da operação só foi possível graças à soma das expertises das três empresas envolvidas. Entre elas está a Produzindo Certo, especializada na elaboração de diagnósticos e planos de gestão socioambientais para propriedades e empresas ligadas ao agronegócio, encarregou-se de reunir e analisar as propriedades, além de estabelecer as metas que elas devem atingir durante a vigência dos contratos.

Já a Traive, fintech voltada à estruturação, modelagem e distribuição de soluções financeiras inovadoras para o agronegócio, utilizou sua plataforma tecnológica para as análises de riscos de crédito dos produtores da operação. A terceira é Gaia Impacto, uma das principais securitizadoras de CRA, especialista em operações de impacto socioambiental, a estruturação da operação, formatação junto aos órgãos oficiais e a intermediação da negociação dos títulos no mercado financeiro. “Estamos muito felizes em emitir o primeiro CRA Verde para um grupo de produtores certificado pela CBI. Isto abre uma porta para que grupos de produtores que plantam de uma forma responsável social e ambientalmente, preservando o meio ambiente, possam acessar Fundos de Investimentos que aplicam em títulos verdes”, avalia Renato Barros Frascino, diretor de Agronegócio do Grupo Gaia.

CONFIRA: A carne não vai baixar

A aplicação de tecnologia inovadora permitiu aos parceiros superar os principais desafios que dificultam que investimentos estrangeiros cheguem diretamente aos produtores rurais brasileiros, como a quantificação do risco de crédito. Isso minimiza incertezas e possibilita ao investidor calcular seu retorno baseado no risco real, reduzindo assim custos e juros. A verificação socioambiental garante que os recursos financeiros sejam destinados aos produtores com as melhores práticas socioambientais e que visam aprimoramento contínuo. Já o seguro agrícola customizado especificamente para essa operação permite a transferência de riscos climáticos do produtor, dando segurança adicional tanto a ele como ao investidor.

Benefícios aos produtores
O modelo do CRA Verde.Tech traz também uma série de benefícios aos produtores que aderiram. O primeiro deles é a liberdade para a utilização dos recursos em suas propriedades. Seus compromissos com ações socioambientais, verificados pela Produzindo Certo, são valorizados pelos investidores, o que contribui para a captação dos recursos com taxas mais vantajosas.

A aplicação, pela Traive, de tecnologia proprietária na seleção da carteira de créditos possibilitou a exclusão de custos normalmente adicionados a operações de securitização que visam a redução do risco para o investidor final nos papéis. “Estamos criando a tecnologia que facilita a conexão entre o campo e o ecossistema financeiro”, afirma Mauricio Quintella, COO da Traive.

Somando-se à desburocratização na formalização de documentos e à participação de investidores com o perfil da operação, obteve-se um custo final para os produtores significativamente inferior aos normalmente praticados no mercado.

Além disso, o CRA Verde.Tech garante previsibilidade ao produtor por ter vencimento apenas em 2025. Nas próximas safras, o trâmite para novas liberações de crédito é simplificado, podendo ser renovado em até três anos. Os produtores podem ainda contar com um seguro agrícola sob medida, com maior flexibilidade para escolher as condições de cobertura, conforme seu histórico produtivo e atendendo suas reais necessidades.

Futuro promissor 
Segundo os parceiros envolvidos na emissão do CRA Verde.Tech, a operação deve ser apenas a primeira de uma série. As três empresas já mapearam oportunidades que permitem replicar a mesma estrutura repetidamente, trazendo dezenas de milhões de dólares de investidores e aproximando credores e produtores. A visão do grupo é de que há potencial semelhante em outros mercados agrícolas e regiões.

“Houve um tempo em que o problema era a falta de interesse por finanças verdes. Não é mais. O problema é como podemos atender a essa enorme demanda que só está aumentando gradativamente, e como podemos corresponder às expectativas e aos desafios que vêm com ela. Como podemos escalar? Cooperação!”, resume Quintella, da Traive.

Como funciona o CRA Verde .Tech
1. Produtores interessados procuram as empresas parceiras e solicitam o crédito. Suas propriedades serão avaliadas através do diagnóstico socioambiental da Produzindo Certo.
2. O segundo passo é a análise de crédito e risco, feita de forma inteligente, rápida e desburocratizada pela Traive.
3. Com o crédito aprovado, a operação é estruturada, com a emissão da CPR-F, que servirá de base para a emissão do CRA Verde.Tech. A Gaia é quem cuida desse processo e intermedia a negociação do CRA no mercado financeiro.
4. Os recursos obtidos pela emissão do CRA são transferidos diretamente para a conta do produtor.

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube
LinkedIn

Siga Forbes Money no Telegram e tenha acesso a notícias do mercado financeiro em primeira mão

Baixe o app da Forbes Brasil na Play Store e na App Store.

Tenha também a Forbes no Google Notícias.

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil ([email protected]).