EXCLUSIVO: De Mato Grosso a São Paulo, Leandro Pinto quer transportar sua gigante produção de ovos por ferrovia

Divulgação
Divulgação

Leandro Pinto, fundador do Grupo Mantiqueira, diz que a ideia é trocar a carreta pelo trem

Entre o município de Rondonópolis, no coração de Mato Grosso, até Sumaré, próximo à capital paulista, são 1.200 quilômetros de estrada. No trecho mato-grossense, a rodovia ainda é de pista simples e nem sempre lisa e sinalizada. Se trafegar nessas condições já é uma aventura de automóvel, de carreta que pesa toneladas torna-se uma epopeia diária. É por ela que até a manhã de hoje (30) a totalidade da produção de ovos da granja do centro-oeste do Grupo Mantiqueira, o maior produtor do país, chegava aos maiores polos consumidores capitaneados pela grande São Paulo.

Mas, a partir de agora, os caminhões começam a dar lugar ao trem: os ovos, que foram embarcados nesta manhã chegam no dia 5 de agosto em São Paulo. No transporte de ovos refrigerados, ou seja, frescos para irem à mesa do consumidor, o fato é inédito no Brasil e mostra que a logística tem espaços para ser modernizada e amplamente sustentável. “Vamos começar com 15 contêineres de ovos na primeira fase, nos próximos 30 dias, ou no máximo 60 dias, para validar o projeto”, disse Leandro Pinto, 53 anos, dono do Grupo Mantiqueira, em uma conversa exclusiva com a Forbes.

LEIA TAMBÉM:

Leandro é um visionário que desde 1987 aposta no mercado dessa proteína animal com uma certa obstinação. Tem história para contar, porque saiu do zero e com dívidas para começar o negócio de criação de galinhas poedeiras, até transformar suas granjas no “império do ovo”. Hoje, ele é dono de cerca de 12 milhões de galinhas. Em Mato Grosso, para onde Leandro foi em 2008, estão 6,4 milhões de aves, das quais 5,2 milhões são galinhas poedeiras que botam 3,7 milhões diariamente. Está entre as maiores granjas do mundo. No final de um ano são 1,350 bilhão de ovos. O executivo quer transportar por trem o que for possível e viável desse volume produzido.

Divulgação
Divulgação

Política de sustentabilidade das granjas da Mantiqueira vai da postura ao transporte

O executivo também acaba de construir o que vem sendo chamado de granja 4.0, na qual as galinhas são criadas com um espaço livre para ciscar e não mais em gaiolas totalmente presas. O transporte ferroviário é mais uma ousadia que começou a ser planejada há dois anos. “As conversas começaram com a Rumo, porque a gente já utiliza a ferrovia para transportar grãos para as granjas do sudeste”, afirma Leandro.

A Rumo Logística, do Grupo Cosan que pertence ao mega empresário do setor de bioenergia, Rubens Ometto, opera 12 terminais de transbordo, seis terminais portuários e administra cerca de 14 mil quilômetros de ferrovias nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo. Mas, para atender ao Grupo Mantiqueira, esse gigantismo não bastava: o projeto esbarrava nos contêineres, que precisam ser refrigerados. Em cada contêiner cabem 335 mil ovos, significando que o teste ferroviário será com 5 milhões de ovos nas 15 cargas previstas. Vale registrar que no mundo todo o trem leva a imagem de modal com grande sustentabilidade por emitir menos CO2 que o rodoviário.

Leandro põe fé na ferrovia porque a engrenagem logística vai encontrando seus encaixes. Para o projeto que ganhou estrada hoje, embora o embarque seja feito em Rondonópolis, a granja do Grupo Mantiqueira fica em Primavera do Leste, a 130 quilômetros, o que significa cerca de três horas de estrada. Um projeto da Rumo pode encurtar esse caminho para zero. Uma malha ferroviária em Mato Grosso, de 600 quilômetros, vai sair de Rondonópolis e chegar a Nova Mutum, sendo Primavera do Leste uma possível parada. Está em negociação a construção de um terminal no município, que é um dos maiores produtores de grãos do estado, finalidade maior do transporte por trilhos – o ovo pega uma carona providencial.

Não por acaso, embora as contas venham sendo feitas, Leandro afirma que já está no lucro se o custo do transporte ferroviário empatar com o custo do terreste. “A ferrovia é um transporte sustentável, limpo”, diz ele. Hoje, o custo para transportar uma caixa com 30 dúzias de ovos sai por R$ 8 nas carretas. A conta do executivo, para o custo na ferrovia, está em R$ 6,50 e ele espera ver confirmada nos testes. De acordo com a Abifer (Associação Brasileira da Indústria Ferroviária) “um comboio de 200 vagões transporta tanto quanto 400 carretas rodoviárias e que numa distância de um quilômetro um caminhão consome 13 vezes mais energia que um trem para transportar uma tonelada de frete”. Outro ponto a favor é a pouca ou quase nenhuma mudança na atual infraestrutura da granja da Mantiqueira para atender ao transporte por trem. “A gente já tem as carretas porta-contêiner e toda a expertise, tanto para colocar o contêiner no trem como para tirar ele do trem”, afirma Leandro. “Do contêiner, vai para o nosso centro de distribuição e depois para os clientes em São Paulo e interior do estado, ou para o nosso centro em Guarulhos, para exportação”. Mas essa, a dos ovos voadores, é outra história.

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil ([email protected]).