Geada extrema: saiba quais serão os impactos na produção de alimentos que vão para a sua mesa

Edson Hardt/Gettyimages
Edson Hardt/Gettyimages

O município de Campo Alegre (SC) é um dos vários em que as temperaturas devem ficar abaixo de zero nas próximas 48 horas

A imagem acima é de Campo Alegre, município catarinense a 240 quilômetros da capital Florianópolis, quase na divisa com o estado do Paraná. Tem 12 mil habitantes e é chamada de Paraíso da Serra, por estar na região do planalto, e também de Capital Catarinense da Ovelha, por causa das muitas cabanhas especializadas na criação de raças como suffolk, humpshire, texel, dorper e ille de france. Na madrugada de hoje (28), os termômetros marcavam um grau negativo trazendo uma geada cortante, mas na madrugada de amanhã a temperatura pode chegar a três negativos. Em outros pontos do país, em áreas do centro-sul, a expectativa é que possa haver temperaturas até abaixo de 10 graus negativos com certa facilidade.

A onda de frio polar que avança pelo Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e até o Rio de Janeiro, deve provocar temperaturas ainda mais baixas, afetar cadeias de produção de alimentos que chegam à mesa do consumidor e que têm um peso gigante na balança comercial brasileira. A principal é o café, além da cana-de-açúcar, milho e trigo. Apenas as exportações das três primeiras commodities responderam por US$ 21,3 bilhões em 2020, do total embarcado de US$ 100,81 bilhões, segundo maior valor da série histórica, atrás somente de 2018, de acordo com o Ministério da Agricultura.

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No caso do trigo, cultura na qual o Brasil não é autossuficiente, os gastos com importações foram de US$ 1,3 bilhão no ano passado. “Perdas mais expressivas tendem a levar a impactos mais acentuados nas cotações do cereal, tendo em vista que somos um país importador, uma maior necessidade de importação deixa o lado comprador mais exposto às volatilidades cambiais”, diz Jonathan Staudt Pinheiro, analista da consultoria Safras & Mercado para o cereal. As geadas podem atingir também as pastagens e as hortaliças, principalmente nos cinturões verdes das grandes cidades. “A cabeça do produtor já estava na próxima safra e desde a semana passada existe um temor do frio”, diz João Rodrigo de Castro, especialista em agribusiness, análise de risco e mercado climático da Climatempo. Ele conta que ontem já havia registro de chuvas geladas e discussão entre os meteorologistas da empresa se o evento foi de neve ou uma precipitação invernal, que tecnicamente são distintos. Mas, para amanhã parece não haver dúvida: o ar polar vai castigar boa parte do país e as consequências serão contabilizadas mais adiante e até na safra do ano que vem.

É comum invernos mais rigorosos, outros menos. A frente fria polar desses dias, com temperaturas extremas, é muito muito parecida com o que aconteceu em 2013. Mas, de acordo com Castro, o atípico neste ano é que está se confirmando duas massas de ar polar muito intensas e próximas. Vale registrar que no dia 20 de julho já foram registradas temperaturas abaixo de 10 graus negativos no país. “Tivemos um frio bastante rigoroso que prejudicou várias áreas”, diz Castro. “Nesta quinta-feira, o frio intenso ocorrerá novamente, cobrindo boa parte do centro-sul do país. Em lugares mais altos de Minas Gerais e São Paulo, as temperaturas podem ficar próximas de zero ou negativas. Campo Grande (MS), por exemplo, está fora das negativas, mas a temperatura vai despencar. Não descartamos cinco ou seis graus de previsão, mas pode cair ainda mais e com geadas.” No Sul, a sensação térmica pode atingir -25ºC e até nevar em alguns municípios.

Os produtores enfrentaram uma geada história em 1975, chamada de geada negra, quando as temperaturas caem e os ventos ficam acima de 20 a 30 quilômetros por hora. Essa geada derrubou a cafeicultura da época, concentrada no Paraná. “Não estamos esperando ventos extremos, que é um dos ingredientes dessa receita de bolo da geada negra. Mas o frio vai ser intenso e estamos estimando ventos da ordem de 5 a 10 quilômetros por hora”, diz Castro. Douglas Duek, CEO da Quist Investimentos, que atua no setor de agronegócios, afirma que o impacto econômico, no caso do café, pode ser sentido no mercado internacional, já que o Brasil é o maior exportador do grão. “O que acontece é que, caso ocorra queda na produção, o mercado pode ameaçar um aumento nos preços.” Desde o início da semana, a Bolsa de Nova York tem mostrado uma volatilidade alta que deve perdurar, ainda sem data para alguma calmaria.

Confira abaixo o que pode ocorrer com as principais culturas:

  • Café

    A geada deve atingir os cafezais do sul de Minas Gerais e divisa com São Paulo e também o norte do Paraná. Como aconteceu com a geada da semana passada. A geada queimou as folhas superiores das plantas, o que levou os produtores à poda da parte de cima das plantas. “O que vai acontecer agora, como vem uma outra onda de frio na sequência, é que a parte mais abaixo vai ficar exposta. Isso vai impactar no café da próxima safra em qualidade e volume de produção”, diz Gil Barabach, analista da Safras & Mercado.

    O mercado todo de commodities está oscilando bastante por conta desses impactos. A Bolsa de Nova York vem oscilando mais de mil pontos desde o início da semana. Barabach diz que o mercado olha para a frente e precifica. O comprometimento da próxima safra de café está praticamente dado, principalmente porque a geada atinge mais fortemente as plantas jovens. Com um único evento de geada já seria difícil recuperar as plantas jovens, agora com uma geada de frio mais intenso os produtores provavelmente terão de renovar o cafezal porque muita planta vai morrer. O Brasil atinge 61,62 milhões de sacas de 60 quilos em 2020, das quais 44,5 milhões foram exportadas.

    Tony Oliveira/CNA
  • Milho

    Milho

    Com a geada em curso, não se descarta danos em áreas de milho no Paraná, que ainda estão com os trabalhos muito atrasados, porque o plantio da safra ocorreu mais tardiamente em função da seca na região. Para a região de Guarapuava, por exemplo, estão previstas temperaturas na faixa de 5 a 4 graus negativos, o que pode levar à queima das lavouras e também prejudicar o enchimento do grão para os cultivos do fim de safra.

    A quebra de safra é dada como certa porque, além da seca, a cultura já enfrentou geadas no final de junho. A segunda safra do cereal, que estava prevista para a faixa de 62 e 65 milhões de toneladas, já havia sido rebaixada para 60 milhões e deve cair novamente. Menos milho impacta diretamente a criação de animais.

    No ano passado, o Brasil exportou US$ 5,78 bilhões em milho. Neste ano, as exportações continuam em alta e estão pressionando as cotações para os criadores de aves, suínos e bovinos, principalmente os confinadores. Grãos mais caros elevam o custo de produção, que são repassados ao consumidor, principalmente para as criações do Sul do país.

    Wenderson Araujo/CNA
  • Cana-de-açúcar

    As áreas de cana-de-açúcar no interior de São Paulo, no norte do Paraná, em municípios como Paranavaí, Luanda, Colorado, e até mesmo Londrina, mais o sul de Mato Grosso do Sul já vêm sentindo os efeitos das intempéries há alguns meses. Maurício Maruci, analista sênior de Safras & Mercado para cana-de-açúcar afirma que “antes das geadas nós já se previa uma quebra de safra vindo de 660 milhões de toneladas para 570 milhões, em função da seca”.

    A previsão é do fim de maio, sendo que desde esse mês pode-se contar três eventos de geadas, mais o acumulado da seca que vem de fevereiro. Com isso, a previsão já desceu para 570 milhões de toneladas de cana. “O problema é que nós não temos os efeitos dessa terceira geada que acontece agora, que vai ser a maior de todas. E é uma grande incógnita”, afirma Maruci. Para ele, é preciso aguardar entre 30 e 60 dias para verificar os reais impactos das geadas que ocorrem agora.

    Nas áreas que já foram colhidas, as geadas devem provocar atraso na rebrota. Já nas áreas em que a cana não foi colhida pode demorar mais o grau brix chegar ao ponto ideal. O brix é a quantidade de açúcar presente na cultura e que impacta na produtividade do canavial. Outra consequência é o atraso nas áreas de renovação de canaviais, uma prática que garante no futuro variedades mais produtivas. O Brasil é o maior produtor global de açúcar. No ano passado, as exportações renderam US$ 9,95 bilhões.

    Wenderson Araújo/CNA
  • Trigo

    O foco da atenção se concentra principalmente nos estados do Paraná, maior produtor nacional e Rio Grande do Sul, segundo maior produtor nacional. No Paraná, o plantio já foi encerrado há algumas semanas, e o desenvolvimento geral das lavouras segue dentro do esperado, com boas condições até o momento. Em relação ao desenvolvimento das lavouras, 72% delas encontram-se em estágio de desenvolvimento vegetativo, 27% em fase de floração e 1% em estado de floração. “O trigo fica suscetível a perdas relacionadas às geadas em estágios mais avançados de desenvolvimento, a partir da fase de floração. Ou seja, no Paraná temos 28% de área suscetível a perdas por estas temperaturas mais baixas”, Jonathan Staudt Pinheiro, da consultoria Safras&Mercados. “No Rio Grande do Sul, os estágios de evolução da cultura ainda concentram-se nas fases de germinação e desenvolvimento vegetativo. Até o encerramento desta semana, é possível que algumas lavouras cheguem à fase de floração, porém, com percentuais ainda pouco representativos.”

    As temperaturas negativas em algumas regiões produtoras poderão afetar as lavouras em estágios iniciais da cultura. “Apesar disso, é importante ressaltar que dentro destas fases evolutivas, o trigo pode conseguir se recuperar no decorrer de seu desenvolvimento, havendo maior preocupação com as lavouras em fases de evolução mais avançadas, as quais se concentram principalmente no Paraná.”

    Wenderson Araújo/CNA
  • Hortaliças

    O mercado de hortaliças – verduras e legumes -, pode sentir os efeitos da geada mais rapidamente que outras culturas. Cinturões verdes das grandes cidades, como em São Paulo, Paraná e mesmo áreas não tão extensas, mas importantes como em Santa Catarina, podem registrar muitas perdas.

    Em São Paulo, municípios do Alto Tietê, como Mogi das Cruzes e Salesópolis, devem registrar temperaturas próximas de zero, comprometendo a produção de folhosos. No cinturão verde os municípios catarinenses de de Antônio Carlos, Biguaçu, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, Águas Mornas, São Bonifácio e Rancho Queimado, de pequenos produtores, a geada da semana passada já comprometeu praticamente o que havia no solo.

    No caso das hortaliças, o impacto é menor para os produtores que possuem sistema de irrigação, por exemplo para tomate, batata, aipim, cenoura, beterraba, repolho, couve-flor e brócolis. A água da irrigação protege os cultivos. Nas áreas sem irrigação as perdas podem ser totais.

    Italo Ludke/Embrapa

Café

A geada deve atingir os cafezais do sul de Minas Gerais e divisa com São Paulo e também o norte do Paraná. Como aconteceu com a geada da semana passada. A geada queimou as folhas superiores das plantas, o que levou os produtores à poda da parte de cima das plantas. “O que vai acontecer agora, como vem uma outra onda de frio na sequência, é que a parte mais abaixo vai ficar exposta. Isso vai impactar no café da próxima safra em qualidade e volume de produção”, diz Gil Barabach, analista da Safras & Mercado.

O mercado todo de commodities está oscilando bastante por conta desses impactos. A Bolsa de Nova York vem oscilando mais de mil pontos desde o início da semana. Barabach diz que o mercado olha para a frente e precifica. O comprometimento da próxima safra de café está praticamente dado, principalmente porque a geada atinge mais fortemente as plantas jovens. Com um único evento de geada já seria difícil recuperar as plantas jovens, agora com uma geada de frio mais intenso os produtores provavelmente terão de renovar o cafezal porque muita planta vai morrer. O Brasil atinge 61,62 milhões de sacas de 60 quilos em 2020, das quais 44,5 milhões foram exportadas.

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