Produtor recebe valor histórico pelo leite, mas consumo, inflação e custo anulam ganhos, avalia Itaú BBA

Preços de junho foram puxados pela disputa dos laticínios frente à baixa oferta de matéria-prima destinada aos lácteos e leite processado .

Redação
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Tony Oliveira/CNA
Tony Oliveira/CNA

Leite produzido no campo é disputado pela indústria, mas pecuarista não sai ganhando mais

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O Itaú BBA publicou hoje (7) as avaliações para o setor leiteiro, realizadas por sua equipe técnica de agronegócio, a partir de informações de mercado. De acordo com a instituição, a última medição pelo Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – Esalq/USP), do preço do leite recebido pelo produtor no final de junho, apontou elevação de 8% frente ao mês anterior, para R$ 2,20 por litro, sendo o maior valor histórico para o mês, em termos reais.

Embora em um primeiro olhar o patamar sugira um momento espetacular para o produtor, quando observada a atividade leiteira sob a ótica da relação de troca leite/milho, fica claro que a alta recente do leite apenas aliviou um pouco relação, que segue em alto patamar histórico. Esta melhora do indicador para o produtor de leite também teve a influência da queda do preço do milho em junho, da ordem de 9,5% no Triângulo Mineiro, associada ao início da entrada em comercialização do milho safrinha e da apreciação cambial.

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Apesar disso, novos estragos em áreas de milho safrinha mais tardias em função das geadas nos últimos dias voltaram a adicionar preocupação ao reduzir ainda mais a expectativa de produção da segunda safra, o que significa que a continuidade do movimento de queda do milho é incerta.

A seca, desde o último verão, afetou o produtor de leite de duas maneiras: a primeira foi o comprometimento precoce da qualidade das pastagens nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, principalmente, antecipando a necessidade de suplementar o rebanho.

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Além disso, a estiagem afetou o potencial de produção de milho, primeiramente na região Sul, no caso do milho verão, e mais recentemente o milho safrinha na maior parte das principais bacias leiteiras, mantendo o mercado do cereal escasso e consequentemente caro.

A qualidade das silagens produzidas também foi prejudicada pelo clima adverso. Com isso, vem ficando difícil manter o crescimento da captação de leite, que pelo indicador do Cepea desacelerou de 5,6% em março para 3,6% em maio, em relação ao mesmo mês do ano passado. Já em comparação com o mês anterior, a última alta observada foi em dezembro de 2020.

Essa situação no campo vem elevando a disputa dos laticínios pela matéria-prima, o que se reflete nas cotações do produto no mercado spot, acima das referências. Além disso, o estímulo ao investimento na atividade leiteira também segue baixo, sob a ótica do valor da arroba da vaca (descarte), sendo necessários 136 litros por arroba frente à média histórica próxima a 110 litros por arroba.

Impasse nos Laticínios
Sob a ótica dos derivados lácteos, a situação dos laticínios também é desafiadora. Afinal, ao seguirem com preços historicamente elevados, acabam desestimulando a demanda, que tem se mostrado frágil sem a presença de um auxílio emergencial mais robusto, como o do ano passado.

Wenderson Araujo/Trilux/CNA
Wenderson Araujo/Trilux/CNA

Preços dos produtos estão bem acima de um ano atrás, caso do leite em pó, UHT e C, além de queijos e lácteos

Mesmo com os preços de alguns dos derivados bem acima de um ano atrás – caso do leite em pó (20,5%), leite C (28,8%) e outros queijos com elevações superiores a 20%, mais UHT e muçarela que subiram 5,5% –, os spreads da indústria nestes produtos se mantêm entre os mais baixos da história. Há um ano, o preço do leite ao produtor ainda não havia escalado, mas os derivados sim, o que ampliou bastante os spreads e fortaleceu o interesse dos laticínios, o que acabou ajudando na subida do preço ao produtor. Ou seja, neste momento o cenário é bem diferente, com necessidade da indústria em repassar custos aos consumidores finais e possibilidade de altas adicionais na matéria prima, em meio à oferta restrita pelo menos até a melhora da condição das pastagens por volta do último trimestre do ano.

Olhando para frente
Um gradual aumento da captação geralmente ocorre a partir de julho/agosto, em função da melhora das condições na região Sul com as pastagens de inverno. Entretanto, no Sudeste e Centro-Oeste, a baixa qualidade das pastagens e a ração cara devem seguir limitando a recuperação, o que sugere um ritmo de produção, no agregado, mais contido relativamente ao ano passado.

Do lado da demanda, o viés de melhora nas projeções de recuperação do PIB (Produto Interno Bruto) para este ano, na esteira do avanço da vacinação, traz um alento para as expectativas de consumo, embora pouca melhora deva ocorrer em termos de emprego e consequentemente na massa de salários.

Uma melhora do consumo também deve ser desafiada pelo aumento da inflação em geral, o que impacta o consumo de alimentos das famílias de menor renda. Já a possibilidade de um real mais apreciado, caso ocorra, pode trazer algum alívio aos produtores do lado dos custos dos grãos, porém eleva a atratividade das importações por parte da indústria, sobretudo diante do cenário de preços firmes ao produtor. Finalmente, vale destacar que com a provável firmeza do preço do boi e da vaca de descarte, o produtor de leite deve continuar sensível à possibilidade de reduzir seu rebanho, o que teria um consequente e rápido efeito negativo na oferta de leite.

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