Dia Nacional das Abelhas: saiba por que as polinizadoras sem ferrão ganham cada vez mais espaço entre nós

Acessível, a meliponicultura se populariza nos centros urbanos por meio de cursos, kits e até projetos de lei, enquanto no campo ela gera renda.

Erich Mafra
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ao_031AlexandreMachado/AgenciaBrasil
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Brasil possui cerca de 244 espécies nativas de abelhas que não possuem ferrão

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Hoje (3), é o Dia Nacional das Abelhas, uma das 43 datas comemorativas na agenda oficial do Ministério do Meio Ambiente. Curiosamente, é a única data que homenageia um inseto. A escolha delas não é à toa, dentre outras 30 milhões de  espécies de insetos, segundo estimativa do Smithsonian Institution. Um estudo da Ensfea (Escola Nacional de Formação Superior para Educação Agropecuária), na França, aponta que as abelhas são responsáveis por 1/10 do valor da agricultura, o que no Brasil significa uma fatia próxima de R$ 100 bilhões por ano.

Outro detalhe que não pode ficar para trás é o fato de que, embora a abelha tenha sua imagem quase sempre associada ao ferrão, o Brasil possui cerca de 244 espécies nativas polinizadoras que não possuem ferrão. São justamente essas abelhas que têm conquistado maior espaço nas cidades desde o início da pandemia em 2020.

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A meliponicultura, o cultivo das abelhas sem ferrão, é um conceito que existe há mais de 50 anos, mas começou a ganhar maior visibilidade por meio de ações voltadas a espaços urbanos que pregam a sustentabilidade e  a conscientização sobre o valor destes insetos. Para o geneticista, agrônomo e professor na Universidade de São Paulo, Warwick Kerr, falecido em 2018, os insetos nativos sem ferrão são responsáveis pela polinização de até 90% das espécies da Mata Atlântica.

Uma das iniciativas que retrata o crescimento do interesse pela criação de abelhas sem ferrão é o curso “Meliponicultura urbana”, ministrado pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e pela A.B.E.L.H.A (Associação Brasileira de Estudos das Abelhas). Sua primeira edição, sem foco no ambiente das cidades, ocorreu em junho do ano passado e contou com a participação de 35 mil  pessoas inscritas. A experiência mostrou para os organizadores a necessidade de reavaliar o enfoque do conteúdo.

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“Essa ideia surgiu da grande predominância de pessoas residentes em áreas urbanas, entre os inscritos nos módulos anteriores. Percebemos que mais de 80% moravam em cidade”, explica Cristiano Menezes, biólogo e pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, em nota da A.B.E.L.H.A. Agora, o curso de 12 horas está disponível de forma gratuita no site da Embrapa, e mais robusto visando o público urbano.

No Brasil, alguns estados também têm percebido o valor econômico deste setor e busca fortalecer a meliponicultura. Em São Paulo, por exemplo, a deputada estadual Maria Lúcia Amary (PSDB) apresentou em setembro o projeto de lei nº 486/21, propondo a regulamentação da meliponicultura como profissão, algo que já ocorre no Espírito Santo, Goiás, Maranhão e Mato Grosso do Sul. “Esse projeto é uma grande reivindicação dos criadores de abelhas nativas do estado de São Paulo e foi elaborado com eles. Estima-se que, no estado, sejam mais de 10 mil criadores de abelhas. É uma atividade que gera trabalho, renda e tem grande importância social, econômica e ambiental”, explica a deputada.

pFernando Frazão/Agência Brasil
pFernando Frazão/Agência Brasil

No campo, a criação de abelhas pode trazer renda extra, principalmente nas pequenas propriedades

Também em setembro, a Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná) firmou uma parceria com a Embrapa Florestas para realizar um projeto piloto de monitoramento das abelhas nativas sem ferrão em uma de suas barragens. A ideia é realizar um inventário das abelhas na região de estudo, analisar sua saúde como um indicador de qualidade ambiental na APA (Área de Proteção Ambiental) e incentivar que produtores adotem a meliponicultura como alternativa de renda em áreas protegidas.

“O Brasil vive um momento especial em relação às abelhas, com muito interesse, seja do público leigo, seja da academia. Agora, com o curso de meliponicultura [ministrado pela Embrapa], a ideia é que mais pessoas tenham contato com nossas abelhas. Assim, ajudamos a conservá-las”, afirmou Ana Assad, diretora-executiva da A.B.E.L.H.A., em um balanço sobre a popularização do tema.

Para o público das cidades, o pesquisador que idealizou o curso sobre meliponicultura urbana também avaliou a atividade como um bom hobby na apresentação da primeira versão de seu curso. “Neste momento de crise em que precisamos ficar em casa, nada mais conveniente do que começar uma atividade nova. Além de ser divertido, as pessoas poderão produzir o próprio mel e ainda contribuir com o meio ambiente”, diz Menezes. “Até crianças podem começar uma criação, já que essas abelhas são absolutamente inofensivas.” Em plataformas como Mercado Livre, kits com caixa, atrativos e cera artesanal — itens imprescindíveis para a meliponicultura — podem ser encontrados a partir de R$ 49,90.

Vale ressaltar como a meliponicultura é um patrimônio precioso do Brasil e de outras regiões de clima subtropical. Segundo a A.B.E.L.H.A., “desde o século 19 houve diversas tentativas de aclimatação de abelhas indígenas sem ferrão em outras regiões do mundo”, mas as condições climáticas dificilmente contribuem para a sobrevivência desses seres.

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