Como os resíduos agrícolas estão ajudando uma marca de calçados que deseja mudar o planeta

Restos de lavouras nas solas dos sapatos, borra de café e mais pesquisas estão a caminho para tornar uma indústria calçadista menos poluente.

Esha Chhabra
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Marca norte-americana está lançando sapatos mais sustentáveis, utilizando resíduos agrícolas

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Nesta temporada, os calçados Keen [marca norte-americana] lançaram um de seus designs clássicos com um toque especial: uma sola feita com resíduos agrícolas.

“Fazer sapatos não é bom para o meio ambiente, mas estamos tentando mudar isso, e esses novos sapatos são ‘menos ruins’. O objetivo final é que sejamos pelo menos neutros, senão positivos”, diz Erik Burbank, da Keen.

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A marca de calçados familiar, com sede em Portland, está buscando por práticas de fabricação mais limpas, diz ele. Depois de passar sete anos lidando com a questão dos PFAS/PFCs, os chamados “produtos químicos eternos” frequentemente usados ​​na fabricação, a empresa eliminou os produtos químicos potencialmente tóxicos de sua linha de calçados, mas também encorajou outras marcas a fazer o mesmo. Em um anúncio de página inteira do New York Times, eles encorajaram outras empresas a eliminar os produtos químicos de suas cadeias de suprimentos também, e até mesmo compartilhar seus insights com know-how prático em seu site.

Neste outono, eles lançaram dois projetos – Elsa e Eldon [linhas feminina e masculina inspiradas em celebridades] – usando resíduos agrícolas. Burbank garante que não elas não incluem nenhuma safra agrícola destinada ao consumo alimentar. Embora a sola seja apenas 51% de resíduos, ele diz: “Isso é 51% menos petróleo que estamos colocando em nossos sapatos.”

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Usando um método de fabricação próprio que exigia várias rodadas de testes, eles criaram uma sola que mostrou a mesma performance que uma sola totalmente à base de petróleo. Os sapatos também são acondicionados em uma caixa que elimina a necessidade de uma caixa extra nas vendas por e-commerce, que Burbank salienta, reduz ainda mais o uso de papelão (em cerca de 63%). Além disso, o calçado recém-projetado não requer o uso de solventes químicos, o que o torna uma das inovações mais notáveis ​​da empresa, afirma.

À medida que continuam a reduzir o uso de materiais à base de petróleo, Burbank argumenta que a transparência é fundamental. “Criamos o programa de certificação Harvest para que as pessoas possam ver exatamente quantos resíduos industriais estão sendo reaproveitados ou evitados.  Ajuda a evitar o greenwashing [banho verde, que significa a injustificada apropriação de virtudes ambientalistas} quando alguém está usando menos de 10%, vendendo como um produto totalmente reciclado.”

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O programa de certificação de materiais Harvest [Keen Harvest Certified Program visa reduzir o desperdício industrial] entrará em operação no início de 2022 e será de código aberto para que outras empresas de calçados também possam participar. “Vamos mudar esta indústria se trabalharmos juntos, não uns contra os outros. Portanto, esperamos que mais empresas se juntem a nós nisso. ”

O programa inclui três níveis de certificação com base no conteúdo de materiais reciclados (50% para ouro, 25% para prata e 10% para bronze). A empresa usou um de seus modelos de sapatos mais  populares para a primeira certificação: o Howser Harvest, fabricado com couro reciclado de assento de automóveis em 80% do total de materiais necessários à parte superior do calçado. Outros projetos futuros também incluem borra de café reciclada, diz Burbank.

Embora todos esses sapatos incluam materiais reciclados, seu fim de vida ainda é algo incerto na cadeia de produção, porque alguns deles ainda exigem a desmontagem de vários componentes antes de serem reciclados de maneira adequada. Mas Burbank está ansioso para ver isso até o fim. Na verdade, ele diz que a empresa tinha um programa de reciclagem de quase dez anos, mas foi uma iniciativa precoce em um tempo de pouca recepção de seus benefícios por parte dos consumidores. Agora, porém, a maré mudou, com muitos norte-americanos procurando maneiras de consertar e reciclar seus utensílios e produtos usados no dia a dia.

Quando questionado sobre como ele avalia as críticas aos seus esforços ecológicos, Burbank tende ao otimismo. “Estamos sempre recebendo críticas construtivas sobre como melhorar nossas práticas e não, ainda não estamos no objetivo final em termos de sustentabilidade.”

No entanto, como uma empresa familiar, diz ele, são capazes de tomar iniciativas, experimentar e testar novos materiais com facilidade. “Nunca trabalhei em uma empresa como esta antes, onde suas ideias são tão bem recebidas e o ambiente é tão aberto e empático em tudo o que fazemos.”

Esha Chhabra é jornalista colaboradora da Forbes USA e escreve sobre soluções para problemas sociais e ambientais, moda sustentável, saúde global e tecnologia. Ela também escreve para o San Francisco Chronicle, New York Times, Atlantic, Economist e The Guardian.

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