Entenda como a Danone incentiva agricultura regenerativa nos EUA

Saiba de que maneira a Happy Family Organics, empresa do grupo, vem ajudando os produtores na transformação de suas propriedades.

Esha Chhabra
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BREATHE DEEP FARM/divulgação
BREATHE DEEP FARM/divulgação

Fazendas nos Estados Unidos e outros países, como o Chile, vêm sendo apoiadas pela Danone

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As fazendas regenerativas vêm ganhando espaço em todo o mundo, e os produtos que saem destas propriedades estão no foco do varejo. Katie Clark, diretora de sustentabilidade da Happy Family Organics, argumenta que a agricultura regenerativa não é apenas uma moda passageira, mas realmente funciona.

As histórias de seus fornecedores, também conhecidos como fazendas regenerativas, estão aí para provar isso. A Happy Family Organics, com sede em Nova York, pertence à multinacional francesa Danone [no Brasil ela é dona de marcas como Activia, Danoninho, Bonafont, Sustain, Souvenaid, Milnutri, FortiFit e Nutridrink].

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Em 2020, a Happy Family começou a trabalhar com um produtor de maçãs e peras, a Montes de Molina, com sede no Chile, que acabava de tomar posse de uma área de cultivo de 50 hectares e que foi toda transferida para a agricultura regenerativa.

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Katie Clark, diretora de sustentabilidade da Happy Family Organics, diz que a agricultura regenerativa não é apenas uma moda passageira

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“Antes, era usada para pastejo intensivo de animais e tinha em média 51% de cobertura vegetal devido ao sobrepastoreio”, explica Katie. Mas, com o apoio do Fundo Regenerativo da Happy Family, Montes de Molina colocou em andamento projeto de cultivo de cobertura, em julho de 2020, para resolver a falta de cobertura nessa área de plantio e para ver se tremoço branco poderia ser usado nas entrelinhas como a cultura de cobertura. Eles semearam aveia em todo o campo de 50 hectares e tremoço branco 4 hectares onde antes havia framboesa, para testar a eficácia do sistema.

POR QUE APOSTAR NESSE PROJETO?
“Essas plantas de cobertura criam carbono orgânico no solo, reduzem a pegada de carbono, alimentam os micróbios do solo e aumentam a atividade biológica em Montes de Molina. Além disso, esses projetos aumentam a quantidade de matéria orgânica que é adicionada ao solo da fazenda. Como resultado da implementação dessas novas práticas regenerativas, somente nesta pequena área a Montes de Molina reduziu as emissões de carbono de sua fazenda em 25 toneladas de CO2e (CO2 equivalente)”, argumenta ela, “demonstrando o impacto potencial que esses projetos podem ter, em escala.”

A Happy Family, utilizou os recursos oferecidos por sua empresa mãe, a Danone, explica Katie, para apoiar a transição para a agricultura regenerativa em toda a sua cadeia de abastecimento. Em outubro passado, eles lançaram um projeto de três anos de US$ 1,5 milhão para ajudar 180 produtores de banana no Equador a adaptar práticas climáticas inteligentes e regenerativas.

Em 2024, a Happy Family espera aplicar essas práticas a cerca de um terço de sua demanda por bananas. “Só conseguiremos atingir esse impacto por meio do acesso ao Danone Ecosystem Fund”, observa ela, que lhes dá não apenas financiamento, mas também ajuda com know-how técnico para expansão.

Uma fazenda que já recebeu a certificação orgânica regenerativa da ROA (Regenerative Organic Alliance), organização sem fins lucrativos com sede na Califórnia, é a Breathe Deep, localizada em Nova York, que fornece aveia para a Happy Family para sua linha de produtos Farmed for Our Future.

Além de investir pesadamente na rotação de culturas e no cultivo de uma variedade de plantas, marcas da agricultura regenerativa, Breathe Deep também abriga 434 espécies de plantas nativas, 83 espécies de pássaros (incluindo duas águias), 17 espécies de borboletas e 23 variedades das libélulas, diz o gerente da fazenda, Chris Cashen.

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“Dada a abundância natural da biodiversidade em nossa fazenda, às vezes a coisa mais útil que podemos fazer é dar um passo para trás e deixar a natureza seguir seu curso — deixar o campo e as margens dos riachos, preservar áreas de flores para as borboletas e, é claro, manter os pesticidas, herbicidas e fertilizantes químicos fora desses ricos habitats. Uma fazenda não é um conjunto de lavouras; é um ecossistema e tentamos administrar nossas terras de uma forma que reflita essa verdade ”, diz Rosie Kissel, gerente de negócios da fazenda.

Todos os grãos cultivados na fazenda (aveia, cevada, trigo, milho, centeio, soja, etc.) são certificados pela Regenerative Organic Alliance. A Happy Family foi o primeiro cliente que os abordou especificamente em busca de grãos ROC (Regenerative Organic Certified), Cashen explica, “e, reconhecidamente, queria nos pagar um preço que refletisse o trabalho que estamos fazendo na terra”.

Eles estão entre um grupo crescente de alimentos locais e empresários agrícolas que desejam ver essa mudança para um ecossistema regenerativo e local que permite seu crescimento, e acrescenta: “Stone House Grains, em Livingston, NY, comprou nossas safras com um preço alto enquanto passávamos por nossa transição orgânica de três anos. Valley Malt em Hadley, MA, nos deu um escoamento consistente para grãos pequenos, para que possamos incorporar mais diversidade em nossa rotação. E agora a Happy Family está nos ajudando a solidificar os benefícios da certificação regenerativa.”

Iniciado em 2015, o Breathe Deep foi criado com a “regeneração em mente”, argumenta Kissel. “Na verdade, era um laticínio convencional, planejado para desenvolvimento local.”

Mas, com a ajuda de grupos locais, incluindo Columbia Land Conservancy, Scenic Hudson, Equity Trust e Farm at Miller’s Crossing, Cashen e sua família foram capazes de aplicar os conceitos da conservação em sua fazenda de 150 hectares. “Isso significa que será conservado como terra produtiva para sempre. Depois que compramos a fazenda, começamos a converter nossa área cultivada e mais de 200 hectares vizinhos em orgânicos e, em seguida, orgânicos regenerativos ”, acrescenta Kissel.

Cashen diz que não é novo nesses conceitos. Embora os termos da agricultura regenerativa sejam mais recentes, ele explica que pratica a agricultura orgânica e regenerativa há quase 25 anos com sua esposa Katie Smith.

“Estamos constantemente nos esforçando para experimentar novas práticas que correspondam aos nossos marcos regenerativos”, diz ele. “Devemos tentar a agricultura biodinâmica? Devemos pastorear o gado para melhorar a fertilidade do solo? Devemos semear o trevo para fixar o nitrogênio e cobrir o solo? Nosso compromisso coletivo para equilibrar os elementos ecológicos, econômicos e sociais da regeneração nos mantém experimentando e é o que nos levou ao ROC.”

Não tem sido fácil, ele admite, tendo que pesar custos e valores como uma luta constante. “Em um mundo ideal, faríamos a cobertura de cada área de plantio logo após a colheita. No entanto, o preparo e a semeadura das safras de cobertura pós-colheita são demorados e caros. Estamos trabalhando em sistemas para fazer o trabalho com rapidez e eficiência. Alguns desses sistemas envolvem novos equipamentos e alguns deles envolvem ajustes em nossa rotação de culturas. Claro que a nossa rotação também é orientada pelos nossos mercados, e que alinhar todas estas variáveis ​​é um desafio constante. Ainda estamos trabalhando na questão de fazer cobertura em 100% da área de cultivo, testando novas safras de cobertura e semeando trevo.”

Eles estão incentivando os agricultores vizinhos a ter essas ideias e discussões também. “Há muita procura por uma boa comida local no Nordeste, e sempre haverá”, diz Kissel. “A verdade é que precisamos que as fazendas locais tenham comida local. E achamos que a agricultura orgânica regenerativa dá aos agricultores a melhor chance de permanecer por longo prazo — de serem ecológica, financeira e socialmente resilientes.”

Para a Happy Family, apoiar agricultores como Cashen faz parte da visão mais ampla da empresa de se tornar neutra em carbono até 2030. Embora a ciência da agricultura regenerativa ainda esteja emergindo — para dizer de forma conclusiva que esse estilo de agricultura sequestra carbono — certamente incentiva a implantação de um tipo holístico de agricultura que tem seus benefícios: produção mais localizada, menos insumos externos que precisam ser transportados e comprados e solos mais ricos que são resilientes por mais temporadas que virão.

*Esha Chhabra é colaboradora da Forbes EUA, com foco em temas que abordam marcas e indivíduos que estão desenvolvendo soluções para problemas sociais e ambientais, escrevendo também para publicações como San Francisco Chronicle, New York Times, Atlantic, Economist e The Guardian.

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