A nova tecnologia para retirar carbono da atmosfera

Saiba como a tecnologia vem dando respostas a um dos maiores desafios da humanidade.

Helen Jacintho
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The burtons_Gettyimages
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Como lidar com o carbono na natureza é vital para a sua sustentabilidade

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Muito tem se falado sobre emissões de carbono (CO2). Empresas e países têm metas ambiciosas de alcançar a neutralidade nas suas emissões e nesta busca, diversas soluções que promovem a retirada de carbono da atmosfera e o seu estoque novamente no solo têm surgido, muitas destas soluções, são baseadas na natureza.

Dentro destas soluções disruptivas baseadas na natureza, tive a oportunidade durante uma viagem de férias à Reykjavik na Islândia, de visitar a usina geotérmica On Power e as companhias Climeworks e Carbfix, que retiram carbono da atmosfera, o dissolvem em água e injetam no solo, onde o carbono reage com rochas basálticas, se mineraliza e desta forma, fica retido no subsolo.

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Mas vamos por partes, aprendemos na escola que o carbono é um dos elementos químicos mais importantes e abundantes na natureza, quem se lembra do ciclo do carbono? Mas quando foi que o carbono tornou-se um problema? Na nossa agropecuária, por exemplo, este elemento faz parte de um ciclo natural, onde o carbono emitido pelos processos de produção de alimentos, é retirado da atmosfera através da fotossíntese, pelas árvores, lavouras ou capim que alimenta o boi.

Parte deste carbono é usada para o crescimento das plantas e outra parte é transportada pelas raízes, fornecendo energia aos microrganismos do solo, que vão ajudar as plantas a obter nutrientes. Os microrganismos são responsáveis por criar complexas e estáveis formas de carbono. Este solo preservado, continuará armazenando carbono por centenas de milhares de anos, fechando desta maneira o ciclo.

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É um processo totalmente diferente da queima de combustíveis fósseis, derivados do petróleo e carvão mineral realizada nos países industrializados, onde o carbono, que estava aprisionado faz milhões de anos no subsolo, é jogado na atmosfera através da queima destes combustíveis, não havendo um ciclo natural para reciclagem deste carbono.

É urgente para mitigar as mudanças climáticas que estoquemos o excedente de carbono e o solo faz este processo de maneira natural, podendo ser um verdadeiro sumidouro de CO2.

Árvores, agricultura e capim, não são, entretanto, a única maneira de retirar carbono da atmosfera, uma vasta quantidade de carbono é naturalmente estocada em rochas.

Esta tecnologia é aplicada na usina geotérmica On Power e pode ser realizada de duas maneiras, a primeira é diretamente na usina geotérmica, retirando o carbono produzido no processo de produção de energia, antes de ser liberado na atmosfera, e uma segunda tecnologia, detida pela empresa Climeworks, retira CO2 depois que ele já foi liberado, retirando CO2 diretamente da atmosfera.

Em ambos os processos, as empresas juntam forças com a companhia Carbfix, que imita e acelera o processo natural, onde dióxido de carbono é dissolvido em água e interage com rochas basálticas, que são o tipo mais comum de rocha vulcânica, formando minerais estáveis, provendo uma estocagem permanente e segura de carbono.

A Carbfix combina o carbono retirado diretamente da atmosfera com água, produzindo um líquido ácido de ph 3,2 que é então injetado no solo até as rochas basálticas que dissolvem os íons de cálcio e magnésio nas camadas de basalto poroso, (mais conhecido como basalto vesiculado) gerando carbonatos de cálcio e magnésio. Amostras coletadas no local mostram que 95% do CO2 injetado se mineralizou no período de dois anos ocupando os poros das rochas.

O uso desta tecnologia poderia ser adaptado a outros locais, uma vez que o basalto é abundante na natureza, cobre cerca de 70 % da superfície terrestre, estando presente no Brasil no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o Aquífero Guarani por exemplo (que representa a segunda maior fonte de água doce subterrânea do planeta) ocupa uma área de 1,2 milhões de km2 é constituído de sedimentos arenosos e lavas de basalto vesiculado, além da crosta oceânica, que é toda de rocha basáltica,

A startup Climeworks levantou em abril de 2022 US $650 milhões para ampliar sua tecnologia de 4.000 toneladas/ano aproximadamente (o equivalente às emissões anuais de 600 europeus) para uma planta com capacidade de capturar 40.000 toneladas/ano. A tecnologia está no radar de Bill Gates, a Climeworks foi adicionada ao portfólio de remoção de carbono da Microsoft que busca zerar suas emissões até 2030.

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicado em abril de 2022 as emissões têm que cair drasticamente após 2025 para manter em jogo a meta mais conservadora de aquecimento do tratado de Paris, de dois graus Celsius.

As mudanças climáticas são um dos desafios que atingem diretamente o setor do agronegócio. Para conservar nosso ecossistema precisamos buscar soluções inovadoras como este exemplo da Islândia, de transformar carbono em rocha para mitigar as emissões de CO2, enquanto seguimos aliando sustentabilidade e produtividade para alimentar uma população mundial crescente.

Helen Jacintho é engenheira de alimentos por formação e trabalha há mais de 15 anos na Fazenda Continental, na Fazenda Regalito e no setor de seleção genética na Brahmânia Continental. Fez Business for Entrepreneurs na Universidade do Colorado e é juíza de morfologia pela ABCZ. Também estudou marketing e carreira no agronegócio.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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