Guerra: os impactos brutais na agricultura da Ucrânia

Confira o volume de alimentos que os produtores rurais estão perdendo, levando o país a ofertar menos produtos no mundo e ao mercado interno

Steven Savage
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Reprodução/Forbes
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Guerra na Ucrânia tem afetado o agronegócio local e reverbera em todo o mundo

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Os cidadãos da Ucrânia estão sofrendo as mais trágicas e imediatas consequências  da agressão russa, mas para as nações que normalmente se beneficiam da produtividade agrícola desse país, a guerra coloca em risco uma parte significativa de seu suprimento de alimentos. À medida que a invasão brutal da Ucrânia pela Rússia continua, é improvável que seu setor agrícola seja capaz de produzir as quantidades de alimentos, rações e biocombustíveis que normalmente produziria.

Como a Ucrânia é um grande exportador agrícola, é provável que isso agrave as interrupções na cadeia de suprimentos, que já ocorrem, por causa dos embarques bloqueados. A USAI (Iniciativa de Assistência à Segurança da Ucrânia) estava executando um programa de 5 anos e US$ 35 milhões (R$ 181,7 milhões) para melhorar as condições dos agricultores ucranianos, que desde então foi modificado para tentar melhorar o impacto da guerra. No entanto, as fazendas estão sofrendo uma destruição indiscriminada, que também é vista em outros setores.

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É impossível prever o que será ou não cultivado, colhido ou embarcado na safra de 2022, mas as tabelas e gráficos a seguir destinam-se a traçar o perfil das culturas produzidas e dos importadores em risco na safra de 2022. Eles são baseados em dados de 2020 do FAOStats, um conjunto de dados internacionais de produção e comércio coletados pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

A primeira tabela aponta as 10 principais culturas ucranianas produzidas em termos de toneladas métricas. Essas colheitas representam entre 2% e 6% da oferta mundial de muitas commodities. A exceção fica pelas sementes de girassol; a Ucrânia foi responsável por 26% da produção mundial desta commodity em 2020. A tabela inclui comparações com a produção dos EUA e da Europa Ocidental. A maior parte do trigo, milho, cevada, colza e ervilhas secas que são cultivadas são exportadas, enquanto batatas, aveia e centeio ficam no mercado interno. Quantidades significativas de sementes de girassol e colza são exportadas como óleo processado.

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Se as colheitas de 2022 da Ucrânia se tornarem muito comprometidas ou se não puderem ser exportadas, há muitos países ao redor do mundo que sentirão o impacto. As três tabelas a seguir apresentam esse perfil em uma base per capita. No caso do milho, soja e farelo de milho, a escassez afetaria a produção animal, enquanto o óleo de girassol e o trigo seriam usados ​​principalmente para consumo humano direto. O trigo é uma mercadoria complexa porque diferentes tipos do  grão são usados ​​para fazer diversos produtos finais (pães com fermento, bolachas, macarrão…) e, portanto, esses importadores não podem encontrar facilmente opções de substituição de outras áreas de produção. A cevada é usada para produção animal, cerveja e comida.

A colza é frequentemente usada para produção de biodiesel, mas alguns tipos mais semelhantes à canola são para consumo humano. Alguns dos países que importam grandes quantidades de milho e cevada ucranianos (por exemplo, a Holanda) os usam para alimentar animais para exportação e, portanto, provavelmente haverá impactos secundários de interrupções no fornecimento de alimentos causadas por conflitos em outros países. O milho também é usado em alguns países para a produção de bioetanol. A categoria “Outros” é composta por 22,2 kg/pessoa de farelo de trigo para o Catar, 4kg de farelo de trigo e 2,1 kg de açúcar para o Chipre, e 2,3 kg/pessoa de flor de trigo e 2,2 kg de farinha de ração com glúten para Israel.

O gráfico abaixo apresenta um segundo nível de importadores de commodities para consumo humano e ração animal. A categoria “Outros” é composta por ervilhas secas (17 kg/pessoa) para Djibuti, farelo de trigo (5,6 kg/pessoa) para a Turquia, e farinha de trigo (5 kg/pessoa) para os Emirados Árabes Unidos.

A China está incluída no gráfico de terceiro nível abaixo porque, com 8 kg/pessoa de importações, representa 11,8 milhões de toneladas de exportações ucranianas em 2020 – 20% do total resumido nos três gráficos acima. A categoria “Outros”, neste nível, representa 10,7 kg/pessoa de farinha de trigo para a Moldávia, 15,7 kg/pessoa de sementes de girassol para a Bulgária e 4,3 kg/pessoa de óleo de soja para a Polônia.

As culturas ucranianas na tabela abaixo estão normalmente disponíveis para consumo doméstico e podem não ser abastecidas adequadamente em 2022. Como existem pelo menos 12 milhões de refugiados que saíram da Ucrânia (cerca de 27% da população pré-guerra), também haverá aumento da procura de alimentos nos países de acolhimento.

  • Steven Savage é colaborador da Forbes EUA. Trabalha com tecnologias agrícolas há mais de 40 anos. Formado em biologia em Stanford, fez mestrado e doutorado em Plant Pathology (estudo das doenças das plantas) na Universidade da Califórnia.

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