Quando o preço do boi gordo voltará a subir?

Entressafra, inflação e período eleitoral podem impactar preço do animal pronto para o abate

Lygia Pimentel
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Vera Ondei
Vera Ondei

Preço do boi gordo pode ser afetado por entressafra, inflação e outros fatores

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Quando é que o preço do boi gordo vai voltar a subir? Essa é a grande pergunta, afinal de contas agora, em julho e agosto, a gente já começa a entrar naquele clima de entressafra em que falta oferta de animais terminados porque já não tem pasto disponível para que eles continuem ganhando peso. Normalmente, nessa fase do ano, temos o mercado pressionado um pouco mais para cima, mas hoje não é assim que a banda está tocando e todo mundo quer saber quando que vem essa alta do boi.

O produtor está ansioso para poder remunerar um pouco melhor, afinal de contas, daqui para frente em termos produtivos, a gente precisa investir um pouco mais na nutrição para poder entregar animais gordos, terminados e prontos para o abate. É necessário colocar uma suplementação e uma nutrição intensiva para que ele continue ganhando peso e possa ser entregue no segundo semestre. Já para o consumidor, entra a preocupação: a carne, que já está cara, vai ficar mais ainda?

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Vamos ao diagnóstico agropecuário. Em junho, nós tivemos chuvas atípicas, fora da sazonalidade. A gente normalmente não tem chuvas em junho e no Brasil central choveu de maneira bem interessante, adequada e fora da normalidade. Isso fez com que as pastagens se mantivessem em bons níveis. Então, em junho, as pastagens costumam ficar degradadas. Mas neste ano, elas mantiveram um nível de qualidade. Quando chegou julho e secou de fato, o pecuarista falou “agora fiquei sem comida para dar ao gado”. E esse animal que está pronto não pode mais permanecer na pastagem, pois daqui para frente vai faltar pasto e ele vai perder peso. Então, foi preciso colocar esse animal para ser abatido e finalizar o ciclo dele, pois se o produtor segurar esse animal, ele perderá peso e só poderá ser engordado no ano que vem, em 2023. Isso faz aumentar a oferta de animais neste período de julho.

E nós vemos isso refletido nas escalas de abate, que nada mais são do que a programação e estoque do frigorífico. Ou seja, quanto mais dias de escala programados pelo frigorífico, mais oferta por mais tempo ele terá. E hoje estamos com escalas bem longas — as médias do Brasil já passam de dez dias. Isso não é muito comum para essa época do ano, mas reflete essa retenção dos animais ao longo de junho.

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As pessoas me perguntam “Lygia, já ouvi dizer que as exportações continuam indo muito bem”. É real essa informação. Julho deste ano ensaia para ser recorde de exportações para o período. As exportações continuam bem e a China está demandando bastante. O que a gente tem enfraquecido hoje é o mercado doméstico.

Apesar do desemprego ter reduzido aos menores níveis desde 2016, abaixo de 10%, a gente tem a inflação prejudicando os salários no Brasil. Mesmo quem ficou empregado novamente e tem um salário, vê sua renda comprometida pela inflação e isso atinge diretamente o consumo de carne bovina. Inflação e crise econômica acabam limitando sempre o consumo de carne bovina que é elástico. A classe média e a classe baixa consomem conforme aumenta o seu poder de compra até um determinado nível.

Temos alguns pontos que sugerem que a inflação pode desacelerar um pouco, principalmente pela questão dos combustíveis, mas isso ainda vai demorar um pouco para pegar no consumo de carne bovina no varejo.

Então, por enquanto, a gente tem as exportações aceleradas e desempenhando muito bem, mas temos um pouco mais de oferta de animais — as escalas dizem isso. Esse aumento das escalas não é pontual, vem acontecendo há alguns meses, e isso faz com que sobre mais carne no mercado doméstico e impede que o boi consiga subir.

Como será o cenário daqui para frente? A gente imagina que esses animais sendo liberados agora em julho deixem de existir. Nós temos algumas sugestões do que pode acontecer daqui para frente. No primeiro semestre, a gente sabe que a venda de suplementos nutricionais não foi muito boa, houve uma queda. E isso sugere que aquela alta forte dos grãos e, principalmente, dos insumos dolarizados deixou o pecuarista um pouco mais receoso em programar a suplementação dos animais no entressafra. Ou seja, planejar para colocar esses animais no semiconfinamento ou no confinamento.

Um outro ponto que a gente tem analisado de perto é que alguns números de animais rastreados tem uma correlação muito boa com os animais confinados, e esse número também caiu. Então, pode ser que a gente veja um enxugamento de oferta agora no segundo semestre, porque não vai ter muito crescimento de animais confinados — os números devem ficar mais ou menos parecidos com os do ano passado, até sofreram uma leve queda dentro do que a gente tem acompanhado. Isso ocorreu em decorrência dos custos, que atrapalhou demais a margem e desencorajou o pecuarista a suplementar e fazer reforma no pasto em um momento em que ele queria adubar, mas o adubo subiu muito por causa da guerra e das crises de suprimentos que a gente visualizou no primeiro semestre. E essa oferta de animais de pasto que está terminando de ser disponibilizada agora vai ser enxugada porque não tem mais pasto.

Já as exportações devem continuar desempenhando bem. Sazonalmente, elas atingem o seu pico no segundo semestre, desde que não aconteça nenhum problema, o que a gente sabe que às vezes acontece. E a corrida eleitoral e a inflação devem continuar sustentando os preços. Portanto, a gente espera um enxugamento dessas ofertas e que os preços subam um pouco, mas não muito porque o consumidor não está conseguindo absorver esse altar em decorrência da queda do poder de compra do brasileiro.

Então, o consumidor pode se preocupar um pouco, a carne não vai abaixar de preço, não temos nenhum indicador para isso. E daqui algumas semanas o produtor deve ver um movimento de entressafras típico. Mas para essa nossa tese se confirmar, a gente precisa ver as escalas de abate se enxugarem. Hoje elas estão muito longas, então isso não deve acontecer no curtíssimo prazo — a não ser que a China entre comprando muito forte e rápido, porém ainda não vimos isso acontecer dessa forma.

Lygia Pimentel é médica veterinária, economista e consultora para o mercado de commodities. Atualmente é CEO da AgriFatto. Desde 2007 atua no setor do agronegócio ocupando cargos como analista de mercado na Scot Consultoria, gerente de operação de commodities na XP Investimentos e chefe de análise de mercado de gado de corte na INTL FCStone.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores

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