Traders de soja dizem não ao desmatamento

Saiba o que mostra o estudo do Imaflora sobre as políticas corporativas de não desmatamento de grandes grupos que atuam no país

Erich Mafra
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Imagem mostra soja durante o processo de colheita
CNA/Divulgação

Soja, o principal grão cultivado no país, é o foco do estudo do Imaflora para as políticas ambientais

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O Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) está divulgando nesta semana um estudo inédito sobre as “Políticas Corporativas de Não Desmatamento das Principais Empresas Comercializadoras de Soja no Brasil”. Considerando documentos encontrados nos sites das sete principais traders de soja no primeiro quadrimestre de 2021, o instituto buscou entender como o setor tem se posicionado sobre a eliminação de práticas de desmatamento e de violação de direitos humanos. São elas: as multinacionais norte-americanas ADM (Archer Daniels Midland Company), Bunge, Cargill, a chinesa Cofco, a francesa Louis Dreyfus Company, a canadense Viterra e a brasileira Amaggi.

“As políticas corporativas são o primeiro passo para as empresas se posicionarem e apontarem para onde pretendem avançar”, explica Lisandro Inakake de Souza, coordenador de cadeias agropecuárias responsáveis do Imaflora. “Por isso, o relatório buscou contribuir para aumentar o entendimento sobre o nível de ambição desse setor e como ele a comunica.”

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O levantamento indica que há um conjunto de temas que são abordados por todas as traders, como o monitoramento, o escopo para a aplicação da política, a gestão da cadeia de fornecimento e o cumprimento das leis nacionais e internacionais relevantes. Todas as companhias também fazem parte da Moratória da Soja, acordo criado em 2006 para eliminar o desmatamento motivado pelo cultivo da soja na Amazônia. Contudo, nem todas as traders indicam se comprometer totalmente em relação aos biomas Amazônia, Cerrado e Chaco.

Reprodução/Youtube
Reprodução/Youtube

Lisandro Inakake de Souza acredita que estudo pode ajudar empresas a “dar mais consistência aos compromissos”

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“Foi verificado se havia detalhamento quanto ao escopo das políticas em relação a esses três biomas, onde as cadeias de fornecimento das empresas analisadas estão presentes”, explica Souza. “Porém, a maioria das políticas fazem referência apenas a um ou outro bioma, não a todos.” Segundo o Imaflora, apenas duas empresas apresentaram compromisso total em relação aos três biomas.

Outra característica encontrada nas sete empresas é o tom de condicionalidade adotado nos documentos sobre políticas contra o desmatamento. “Quase todos os textos relacionados ao tema apresentam tom de condicionalidade, indicando que ações podem ou não ocorrer, a depender de fatores como priorização ou quando forem consideradas relevantes”, pontua o estudo que teve revisão de membros das The Nature Conservancy e World Wide Fund for Nature, duas das principais ONGs mundiais que atuam na proteção da biodiversidade.

Para Souza, que coordenou o levantamento, mudar o tom dos documentos pode ser um passo importante para “dar mais consistência aos compromissos”. “Essas e outras recomendações presentes no estudo podem ser úteis para processos de revisão de políticas corporativas de não desmatamento para empresas do setor de soja e de outras commodities”, afirma.

Melhorias propostas pelo estudo

Além de citar pontos fortes como escopo, monitoramento e outros, o documento do instituto também levanta “temas importantes com menor grau de comprometimento público”. A proposta é alertar a maioria das sete empresas sobre melhorias que podem ser adotadas para a atualização de suas políticas divulgadas ao público.

Os temas apontados são:

• Identificação, avaliação e gerenciamento de riscos

Apenas três das políticas avaliadas apresentam compromisso de realizar algum tipo de avaliação voltada para medir, analisar e gerenciar riscos que envolvam suas atividades, direta ou indiretamente, com práticas de desmatamento e violação de direitos humanos.

• Rastreabilidade

Apenas três das políticas avaliadas mencionam o compromisso com a rastreabilidade da produção na sua cadeia de fornecimento. Os compromissos aparecem de maneiras distintas, que vão desde uma afirmação genérica sobre “melhorar continuamente a rastreabilidade”, passando pela previsão da realização de uma avaliação de risco para definir o tipo de rastreabilidade a ser realizada, até o compromisso de manter sistemas que permitam a identificação da originação da safra na menor unidade possível.

Adam Ronan/Embrapa
Adam Ronan/Embrapa

As traders de grãos atuam em biomas como Amazônia, Cerrado e Chaco

• Verificação

Apenas duas políticas mencionam o termo “verificação” e mesmo assim as citações não correspondem às definições estabelecidas por referências como o AFi (Accountability Framework Initiative), entidade criada em 2019 para apoiar a transformação do setor de trading a um sistema mais sustentável e ético.

• Compromisso com o respeito a AAVCs (Áreas de Alto Valor de Conservação)

Quatro das sete políticas analisadas não fazem referência a AAVCs, espaços naturais que contam com diversidade de espécies ou florestas relevantes. Das três políticas que apresentam referência a AAVCs, os compromissos giram em torno de “promover soluções de proteção, conservação e recuperação de Áreas de Alto Valor de Conservação”, “práticas de restauração ecológicas em Áreas de Alto Valor de Conservação” e “respeitar o mapeamento de Áreas de Alto Valor de Conservação”.

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