Entrevista: Legado de IPOs será mudança no perfil do investidor brasileiro

Alexandre Pierantoni, diretor executivo no Brasil da Duff & Phelps, fala sobre o amadurecimento e perspectivas para o mercado de capitais brasileiro.

Ana Paula Pereira
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Divulgação Duff & Phelps

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As operações de renda variável no Brasil somaram R$ 69,2 bilhões até setembro, um avanço de 20,5% na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados divulgados ontem (7) pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Os números são impulsionados pelo aquecido mercado de ofertas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) e pelos follow-ons: são 11 IPOs finalizados e sete em andamento, além de 18 follow-ons no mercado de ações brasileiro apenas neste ano.

Volume similar de ofertas foi observado apenas em 2007, quando 64 companhias abriram o seu capital e 12 fizeram follow-ons na Bolsa paulista. Em 2020, num contexto macroeconômico completamente distinto, empresas e investidores demonstram apetite por emissões em um cenário em que a única certeza é a incerteza.

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Resultado dos baixos patamares da taxa de juros da economia, a onda de oferta de ações acompanha o apetite do investidor nacional por ativos de maior risco. O movimento também impulsiona as operações de M&A no país, com o volume de fusões e aquisições crescendo 46% no terceiro trimestre na comparação com o mesmo período de 2019, para US$ 12,5 bilhões, segundo dados da Refinitiv.

Em entrevista ao Forbes Money, Alexandre Pierantoni, diretor executivo no Brasil da consultoria financeira norte-americana Duff & Phelps, fala sobre o amadurecimento do mercado de capitais brasileiro, perspectivas para o atual trimestre e 2021, além do papel cada vez mais relevante das práticas ESG para os investidores.

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Forbes Money: O número de IPOS e follow-ons na Bolsa brasileira segue em alta em 2020, apesar da crise econômica aberta pelo coronavírus. O movimento é reflexo apenas da taxa de juros ou outros fatores colaboram para o apetite das empresas?

Alexandre Pierantoni: Considerando o difícil período da economia brasileira, o cenário do mercado de capitais não poderia ser melhor. As operações de IPOs e follow-ons estão em nível recorde e isso cria um círculo virtuoso em diversos setores, inclusive para operações de fusões e aquisições (M&A).

Embora 2020 seja um ano atípico e absolutamente fora da curva, os investidores buscaram alternativas e diversificação de investimentos, assumindo posturas de maior risco. O principal fator desta mudança é, sem dúvidas, a sequência de cortes da taxa de juros, que atingiu seu menor nível na história, em 2% ao ano.

Além disso, os investidores brasileiros estão buscando uma realocação de recursos e diversificação de portfólio de investimentos, aumentando sua exposição ao risco e realizando aportes na economia real. Se no cenário anterior havia um número reduzido de opções de investimentos reais e líquidos, hoje tem-se a opção de investimentos em diversos setores, em mais de uma empresa e perfil de atividade.

Isso demonstra a educação e amadurecimento do mercado de capitais no Brasil, mas ainda há muito espaço para crescimento.

FM: Quais são as perspectivas para o mercado de capitais brasileiro em 2021?

AP: Depois de ter sido afetado pela insegurança que a pandemia causou nos investidores – principalmente no primeiro semestre -, o mercado teve uma recuperação forte, com um alto apetite do investidor nacional pelo risco. Esse aumento de risco se deve pela busca de maior rentabilidade, visto os baixos patamares de juros não somente no Brasil, mas no mundo. Assim, a realocação de recursos dos investidores nacionais explica tal performance. Ao mesmo tempo já começamos a ver, por parte dos investidores, uma análise mais crítica e seletividade de investimentos. Seja por tamanho de operações, avaliações, questões de ESG e outros fatores.

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Já para 2021, tanto fatores internos quanto externos podem afetar o mercado de capitais. Em âmbito global, a recuperação à pandemia e a confirmação de uma vacina serão de suma importância. Além disso, os resultados das eleições presidenciais norte-americanas e a relação comercial EUA-China possuem um peso grande no mercado. Esses fatores afetarão a estabilidade e previsibilidade de investimentos e, portanto, a perspectiva de risco dos investidores internacionais, que poderão buscar lugares mais seguros para investir.

Internamente, a maior preocupação será como o governo pretende endereçar a questão do déficit fiscal. Além disso, a continuidade de reformas estruturais – administrativa e tributária – influenciam o apetite dos investidores.

A maneira como o governo pretende financiar o programa Renda Brasil também estará na pauta dos investidores tanto em 2020, como no próximo ano. Endereçando esses pontos, sem dúvidas o Brasil deve trazer de volta o investidor internacional que atualmente participa marginalmente do ambiente brasileiro, seja em títulos de dívida ou no mercado de capitais.

No mercado de fusões e aquisições, por exemplo, já estamos vendo essa recuperação. O número de transações anunciadas neste ano até setembro está no patamar do mesmo período de 2019, quando estávamos numa trajetória ascendente bastante positiva. Assim, 2020 e 2021 serão bons anos para atividades de M&A. Há oportunidades de consolidação, reestruturação e crescimento.

FM: A possibilidade de uma bolha financeira fruto da enxurrada de ofertas e do crescimento no número de pessoas físicas na Bolsa é real?

AP: Não tenho esta visão de bolha, mas com certeza continuaremos a ver instabilidade nos mercados globais. No Brasil, o movimento pode ser mais afetado pelo fator experiência e educação do investidor. Praticamente dobramos o número de CPFs na Bolsa nos últimos anos. Isto é muito positivo, mas estamos ainda aprendendo a investir no mercado de capitais. As pessoas físicas terão de entender que estas variações diárias de valor, para cima e para baixo, fazem parte do jogo.

No médio prazo, teremos um perfil de investidores do varejo similar ao que vemos em outros mercados, onde parte da poupança também é feita com investimentos de maior risco.

FM: E quanto à saída dos investidores estrangeiros, esse movimento pode impactar a oferta de IPOs?

AP: A saída dos investidores estrangeiros do Brasil é real e hoje a participação deles na Bolsa brasileira é baixa se comparada aos anos anteriores. Também observamos a dominante participação dos investidores nacionais nos IPOs.

O investidor internacional está cauteloso. Entretanto, caso o Brasil consiga tratar das questões estruturais, aliando uma recuperação econômica já prevista, acredito que o retorno do investidor internacional à Bolsa brasileira seja uma realidade.

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Em relação aos IPOs, ainda temos muito espaço para realocação dos recursos dos investidores nacionais. Esta atividade deve continuar, pois apenas começamos a ter mais opções de investimentos em setores e empresas. Finalmente, veremos maior seletividade e educação, com questionamentos vindo do investidor. Haverá maior percepção e capacidade de análise de risco, principalmente com o instrumento de comparabilidade entre as opções de investimentos. Haverá uma seleção natural das melhores opções de investimento, não somente por expectativa de valuation, mas por questões de ESG.

FM: Como as práticas ESG têm saído das cartilhas de governança corporativa para impactar os IPOs e M&As?

AP: As questões ESG têm sido mundialmente discutidas e são hoje objeto de análise dos investidores. É perceptível que o tema “saiu do papel” e está se tornando realidade ao ponto de ser atualmente condição essencial em rodadas de investimentos.

ESG não é mais um diferencial, mas sim uma necessidade que qualquer empresa deve medir e implementar em sua gestão. No Brasil, a temática ganha ainda mais relevância pela importância do país na discussão ambiental.

Seja nos processos de IPO, de M&A ou mesmo no dia a dia das empresas está claro que o tema da sustentabilidade e governança não pode apenas ser visto como uma questão de atratividade para um processo específico, mas sim como uma questão intrínseca à sobrevivência do próprio negócio.

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