Nem todos os créditos de carbono são iguais; entenda a diferença

Alguns são vinculados a governos e órgãos de fiscalização, enquanto outros estão ligados a mercados voluntários difíceis de averiguar

Ken Silverstein
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Existe uma diferença significativa entre os créditos de carbono vinculados à nações e a projetos voluntários

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Empresas que vão desde Xerox a Walmart e Delta Airlines estão se comprometendo a ser net-zero e compensar suas emissões de carbono usando eficiência energética, energia renovável ou créditos de carbono. Mas esse mercado é variado e nem todos os créditos são iguais. Então o que uma empresa deve fazer?

Se o Acordo de Paris adotou os créditos, eles são seguros para empresas comprarem – o que implica que foram examinados e verificados. Essencialmente, ele garante que o dinheiro seja distribuído para as nações que preservam as árvores em suas florestas tropicais. Mas as empresas querem evitar comprá-los de proprietários que não divulgam totalmente como gastam o dinheiro. Os mercados voluntários, em geral, carecem dessa fiscalização, manchando sua imagem. As nações com florestas tropicais podem acabar ganhando centavos por dólar pago.

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“Se eles são voluntários, nada foi acertado pelos governos que precisam do dinheiro”, diz Federica Bietta, diretora-gerente da Coalition for Rainforest Nations, em entrevista. “Eles estão tentando empurrá-los para o Acordo de Paris, mas muitas vezes não são verificados e são abaixo do padrão”.

Foi desenvolvido um crédito verificável chamado ‘Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal’, ou REDD+, no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Ele recompensa um país por salvar suas florestas e é uma solução baseada na natureza. O Acordo de Paris adotou esse mecanismo financeiro em 2015. Os governos se responsabilizam por suas terras florestais e como são monitoradas – uma avaliação de todo o país. Em contraste, os créditos voluntários estão vinculados a projetos específicos.

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A diferença é relevante. A Natural Capital Partners divulgou seu terceiro estudo anual em setembro do ano passado, que avalia o que as empresas da Fortune 500 estão fazendo para gerenciar seus riscos climáticos. O documento informa que 38% delas alcançaram um marco climático significativo ou estão publicamente comprometidas em fazê-lo até 2030, um aumento de oito pontos percentuais em relação a 2020.

Normalmente, as empresas não podem alcançar a neutralidade de carbono gerando toda a sua eletricidade com energia renovável no local ou aumentando suas estratégias de eficiência energética. Elas têm que entrar em acordos de compra de energia. E têm que comprar créditos de carbono – que podem compensar suas emissões.

Por exemplo, elas compram créditos de uma nação de floresta tropical que concorda em salvar suas árvores ou reestruturar suas terras. O desafio com o replantio é que não há garantia de que alguém esteja fiscalizando para garantir o sucesso. Se a biodiversidade se perde, os animais não voltam.

“As empresas vão se unir em torno do Acordo de Paris que tem como foco a manutenção das florestas”, diz Bietta. “Elas não podem atingir o net zero apenas com energias renováveis. Eles vão procurar os produtos certos e REDD+ é uma parte extremamente importante da solução climática. O setor privado precisa ser educado.”

Uma troca honesta

As nações da floresta tropical se esforçaram muito para diminuir sua taxa de desmatamento. As árvores sugam CO2 da atmosfera e, se continuarem vivas, seguirão fazendo isso. É a solução da natureza e o remédio mais barato para combater as mudanças climáticas – ainda mais acessível do que as energias renováveis. Desde 2009, o mundo desenvolvido prometeu financiamento para fazer essas árvores valerem mais vivas do que mortas ou usadas para madeira ou agricultura. Mas isso não se concretizou.

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Considere a Libéria na África Ocidental, parte da Floresta da Alta Guiné que abrange 10 nações: o país representa 43% disso. Muitos interesses concorrentes querem acesso a essas florestas – de madeireiros a agricultores. As pessoas precisam de empregos e precisam de dinheiro para comer.

Wilson Tarpeh, diretor executivo da Agência de Proteção Ambiental da Libéria, disse à Forbes em Bonn, na Alemanha, na reunião da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em junho, que o país recebeu uma doação da Noruega – “mas nem um centavo de mais ninguém. ”

“A Libéria é uma nação de floresta tropical que possibilita que a maior parte do mundo respire”, acrescenta Tarpeh. “Queremos mantê-la, mas precisamos de ajuda. O setor privado é necessário”. A Libéria endossa créditos de carbono de REDD+ — não créditos voluntários que são difíceis de verificar.

As trocas voluntárias de crédito agora alcançam a grande maioria das compensações de carbono. Em vez de lutar contra isso, os norte-americanos e os britânicos optaram em novembro de 2021 por permitir que os créditos voluntários se tornassem parte do Acordo de Paris – se forem auditados. Mas essas avaliações são feitas por grupos privados, ainda não por integrantes do Acordo de Paris.

Como funciona a negociação? Os governos estabelecem limites de emissões e as empresas que os têm de sobra podem vender créditos para aqueles que não conseguem. À medida que os limites se tornam mais rigorosos, os níveis de CO2 caem. Mas essas plataformas só funcionam quando existem mecanismos de transparência e fiscalização financeira.

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Às vezes, as empresas compram créditos porque isso contribui para boas relações públicas. Em outras circunstâncias, elas não entendem as diferenças.

Processo Rigoroso

Kevin Conrad, diretor executivo da coalizão de florestas tropicais, aponta para a Bolívia, onde organizações não-governamentais deram dinheiro às comunidades para salvar suas florestas. Enquanto evitavam o desmatamento das encostas, ainda derrubavam árvores nas planícies. O impacto do carbono acabou superando o crédito, permitindo que as comunidades vendessem a madeira e fossem pagas para preservar algumas árvores.

“Sob REDD+, há um processo rigoroso: um país deve provar que protegeu sua floresta tropical e fez reduções de carbono antes que os créditos possam ser vendidos”, acrescenta Consuela Paloeng, gerente do Programa do Sistema Nacional de Monitoramento Florestal e especialista em relatórios do Suriname. “Compare isso com o mercado voluntário que promete isso e aquilo aos latifundiários.”

A mineração de ouro é o principal motor econômico do país sul-americano. E pode entrar em conflito com o manejo florestal. Mas sob REDD+ há uma estratégia nacional que define o uso da terra – e limita a mineração a certas áreas. A maior parte do território é mantida e utilizada para o turismo. Na verdade, 93% do Suriname é floresta tropical, e o país tem uma das menores taxas de desmatamento do mundo.

A República Dominicana tem as mesmas pressões econômicas e ambientais. A nação insular está sofrendo com as mudanças climáticas – eventos climáticos que afetam a agricultura, o turismo e a habitação. Nathalie Flores, diretora de adaptação e mitigação das mudanças climáticas do Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais, disse à Forbes que a preservação da floresta tropical é a “única maneira de reverter as mudanças climáticas e proteger nossa economia para que as pessoas possam prosperar. Mas precisamos de compensação para proteger o meio ambiente.”

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No mundo corporativo, que cada vez mais promete atingir metas carbono neutro, deve-se entender que o mercado de créditos de carbono é diversificado. Se os governos nacionais emitirem os créditos, o processo será transparente e as árvores serão salvas. E, importante, as pessoas recebem o dinheiro. Se forem negociados em particular, essas garantias não existem.

A Bloomberg apresentou um relatório que diz que as empresas às vezes estão pagando para preservar as árvores que já foram ‘salvas’. Segundo ele, Delta, Alphabet e Disney estão entre os maiores compradores de créditos de carbono. Essas empresas compraram 7,8 milhões, 3,5 milhões e 2,5 milhões de toneladas de CO2 equivalente, respectivamente, entre 2017 e 2019. Em alguns casos, compram de grupos ambientalistas como a Nature Conservancy, que ganham muito dinheiro com eles.

Se uma empresa pode gastar milhões de dólares comprando créditos de carbono, ela pode se dar ao luxo de fazer a devida diligência para garantir que os créditos que compram tenham impacto.

Agora também podem comprar diretamente da fonte – do governo que tenta proteger a floresta tropical. Com isso, as companhias devem perguntar se os créditos são compatíveis com o Acordo de Paris e se o dinheiro vai para salvar todas as florestas tropicais – não enriquecendo certas partes.

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