Por que a Olimpíada de Tóquio ainda não foi cancelada e o que vai acontecer se for

Carl Court/Getty Images
Carl Court/Getty Images

A marcha da tocha olímpica está seguindo regras de distanciamento social

Não há dúvida que o Comitê Olímpico Internacional e os organizadores de Tóquio estão se mantendo firmes. Em 12 de março, em Olympos, na Grécia, eles realizaram uma bela cerimônia com atores e dançarinos em trajes antigos para acender a tocha, que foi levada no revezamento clássico para o aeroporto, onde a chama seria, de acordo com o protocolo olímpico, transportada para o Japão.

No Japão, a partir de 20 de março, a chama será transportada por uma versão reduzida de seu revezamento de quatro meses pelas prefeituras. O povo do Japão ainda poderá ver a tocha passar. Ninguém menos que Toshiro Muto, presidente dos Jogos de Tóquio, deu uma conferência de imprensa nesta semana afirmando o mesmo.

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No mesmo dia, o vice-presidente do Comitê Olímpico Japonês, Kozo Tashima, testou positivo para a Covid-19.

É uma metáfora para este ano olímpico: como um alto funcionário local é vítima do vírus, o revezamento, que imita um dos esportes ancestrais da Grécia, agora deve passar por alguns protocolos de distanciamento social como efeito direto das dificuldades do país anfitrião –e do mundo– em lidar com o novo coronavírus. De fato, o Japão e os Jogos Olímpicos estão, como diz o ditado, entre a cruz e a espada.

Depois de semanas de forte manutenção da posição de que os Jogos não seriam adiados nem cancelados, essa redução do revezamento da tocha foi o primeiro piscar de olhos olímpico, por assim dizer, à medida que os Jogos se movem inexoravelmente para colidir com a pandemia. Não era uma concessão enorme. Os Jogos ainda vão acontecer. Infelizmente, para os japoneses e para todos nós, a pandemia também.

O problema é que os quatro meses que o Japão tem até os Jogos, supostamente abertos em 24 de julho, não são necessariamente quanto a pandemia vai durar. Ainda falta um ano, ou possivelmente um pouco menos, se tivermos sorte, para uma vacina. Grandes áreas da Terra estão agora no início de sua batalha.

O efeito da pandemia no esporte global não foi nada menos que catastrófico, mas a resposta foi alerta e atenciosa: o Kentucky Derby foi transferido de 2 de maio para 5 de setembro e é apenas o mais recente evento esportivo importante a ser cancelado ou adiado. O Derby segue o cancelamento da March Madness, as próximas três corridas de Fórmula 1, o reescalonamento do Masters de tênis, o cancelamento do treinamento de primavera da Major League Baseball, o esvaziamento de todos os estádios de futebol na Europa e o cancelamento do torneio de futebol da Euro 2020 da Copa América. Com todo respeito aos organizadores da Olimpíada e o que têm feito até agora, a suspensão de eventos têm sido razoável e inteligente.

Compreensivelmente, há um coro crescente questionando a obstinação dos japoneses. As razões epidemiológicas são óbvias: pernicioso e resistente o suficiente para rejeitar o tratamento, o SARS-CoV-2 é ágil, saltando de continente para continente em velocidade. Ele não atingiu todos os continentes simultaneamente, e sua vida útil na coleção de culturas do mundo não é de jeito algum uniforme.

As táticas para a luta são bem conhecidas: para reservar infraestrutura hospitalar e médica para o inevitável aumento da taxa de infecção e poupar o suprimento global de profissionais médicos, a estratégia defensiva básica do distanciamento social é prolongar o início do vírus em cada país, para que haja um número de casos mais leve durante o pico. Em termos gráficos, o objetivo é aplainar o aumento na taxa de infecção. A proposta da presidente da União Europeia, Ursula von der Leyen, em 17 de março, de bloquear o espaço Schengen para o próximo mês é uma dessas táticas.

Infelizmente, para os organizadores dos Jogos de Tóquio, nada disso significa que a duração da pandemia neste ou naquele país será mais curta. Em outras palavras, a direção na qual os países estão agora se esforçando para impulsionar sua versão do pico no número de casos passa por 24 de julho e depois disso.

Isso, por sua vez, significa que as 209 nações que, contribuem com mais de 11 mil atletas para os Jogos, não escaparão do ataque do Covid-19 no mesmo momento. Na Europa, a marcha do vírus é do sul (Itália) para o norte e do oeste para o leste, da França para a Alemanha e para a Polônia e o Leste da Europa. A infraestrutura hospitalar da Itália quebrou devido ao pico do país. A Itália é a garota-propaganda cujo destino está impulsionando grande parte do atual e urgente distanciamento social que está sendo legislado na Europa.

O momento do final da luta contra o vírus em cada país será crucial para determinar quem poderá comparecer aos Jogos. Tóquio é um longo caminho para algumas equipes. Não é como se as equipes aparecessem na noite de 23 de julho, bebessem um pouco de melatonina e comparecessem à competição no dia seguinte. A maioria gosta de uma aclimatação para seus atletas entrarem no fuso-horário e na atmosfera dos Jogos.

Por exemplo, se, por algum coquetel milagroso de tempo e sorte, o Japão conseguir um início em 24 de julho, a capacidade da Itália de montar e colocar em campo sua equipe olímpica será severamente testada. A Alemanha está tentando ganhar tempo, mas não está dando certo no momento, o pico é grave e acontece agora, nesta semana, com casos dobrando a cada dois dias. Mas, com seu sistema superior de saúde e cadeia de suprimentos, os alemães têm a chance de frear o SARS-CoV-2 em poucas semanas. A abordagem bastante desafiadora de Boris Johnson para o Reino Unido ainda coloca a Grã-Bretanha para trás no jogo. O pico do Reino Unido é iminente. Mas, funcionando ou não, são todas estratégias baseadas em soluções de longo prazo.

Pouco depois de sua repentina mudança a favor de uma estratégia mais agressiva contra o SARS-CoV-2 nos EUA, Donald Trump deu a entender de seria uma boa ideia se a Olimpíada fosse adiada. Isso provocou uma réplica feroz do primeiro-ministro japonês, Shinzō Abe, de que nem um adiamento nem um cancelamento aconteceriam. A velocidade e a nitidez da resposta de Abe nos dão um vislumbre de algumas das outras forças que alimentam o sinal verde olímpico.

As forças que mantêm a Olimpíada à tona são financeiras. O setor privado do Japão investiu cerca de 10 trilhões de ienes na realização dos Jogos, ou US$ 9,2 bilhões. Só o custo da construção olímpica é de US$ 5,9 bilhões. Os comitês olímpicos nacionais que disputam os Jogos e os comitês organizadores que os preparam são entidades corporativas, com bilhões em acordos de patrocínio global e local. Mais de um milhão de japoneses serão empregados. Estima-se que os lucros a longo prazo desses investimentos em instalações e infraestrutura sejam de aproximadamente US$ 225 bilhões. Poucas pessoas no Japão, incluindo muito o primeiro-ministro, nem nenhum dos patrocinadores olímpicos querem parar esse trem bala.

Em resumo, a Olimpíada é um negócio global de esportes modernos, com tudo o que isso implica, incluindo direitos de televisão e cinema, sem mencionar transmissão ao vivo, publicações, os direitos de uso de logotipo e marca comercial e o prestígio de ser nomeado como “Tokyo 2020 Gold Partner”, o mais alto dos três níveis de patrocínio disponíveis.

Tudo isso será difícil, quase impossível, de realizar novamente, digamos, daqui a um ano, como sugeriu casualmente Trump. Isso nunca foi feito. Não quer dizer que não possa ser feito, mas julho veria a cerimônia de nascimento de uma nova infraestrutura. Em outras palavras, daqui a um ano, esses ativos deveriam ser motores de dinheiro funcionando em potência total. Isso para não falar dos patrocinadores, cujos orçamentos de publicidade e promoção foram criados em meados de 2020, não 2021.

Talvez essas pressões foram o que levou o vice-primeiro-ministro japonês, Taro Aso, a deixar escapar sua alegação um tanto maluca no parlamento de que, a cada 40 anos, a Olimpíadas é “amaldiçoada”. Aparentemente, ele se referia sem ironia ao boicote aos Jogos de Moscou de 1980 e ao cancelamento dos de Tóquio de 1940, com a Segunda Guerra Mundial. A maldição foi “um fato”, disse Aso.

A questão é: o que realmente importa para o Comitê Olímpico Internacional e o anfitrião dos Jogos, e quando isso começará a afetar planos. O presidente do COI, Thomas Bach, e sua equipe estão monitorando de perto o vírus. Mas os Jogos Olímpicos terem participação de 100 das (esperadas) 209 equipes é uma perspectiva sombria, mas muito real. Nem o Japão nem mesmo o patrocinador mais importante do “Tokyo 2020 Gold Partner” receberiam seu dinheiro que valesse isso.

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