Conheça as dolorosas lições da montanha da primeira brasileira a escalar duas vezes o Everest

Marcelo Rabelo
Marcelo Rabelo

Em uma das trilhas mais lindas da Terra, Karina Oliani contempla o caminho nepalense ao Monte Everest, quando alcançou o cume do planeta (8.848 m) pela primeira vez, em 2013

“Sabe aqueles dias em que você está superfeliz, se sentindo extremamente bem, contagiado pela energia positiva do lugar, realizando um sonho… Estava com excesso de confiança – e isso é muito ruim em uma escalada. A via Golden Finger, no deserto de Wadi Rum [a 120 km de Amã, Jordânia], um dos lugares mais lindos para se escalar, tem 180 metros de altura. Já estávamos a mais de 120 metros do chão. Resolvi guiar o grupo [quatro, ao todo] em um trecho da via de rocha de grande dificuldade técnica – dois graus acima do meu nível. E, em uma fenda, escorreguei bem no lugar onde não podia errar, quase passando a próxima costura… Despenquei. Fiz o pêndulo e, quando vi a rocha vindo na minha direção em alta velocidade, para não estatelar de cara, com tudo na parede, coloquei o pé esquerdo na frente – fíbula e tíbia estilhaçaram em mais de dez pedaços. Fui resgatada, passei por seis horas de cirurgia. Coloquei três placas e 11 parafusos – ossos do ofício. Foi meu primeiro acidente em 20 anos de escalada.”

Médica especialista em medicina de emergência e resgate em áreas remotas, Karina Oliani relata para a Forbes o acidente ocorrido em fevereiro deste ano durante as gravações do sétimo e último episódio da série “Elementos Extremos” para o “Canal Off” – a escalada em Wadi Rum foi escolhida para representar o elemento rocha (veja o quadro com os outros elementos e locais de gravação).

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“Abusei. Prezo sempre, em todas as minhas expedições, 100% em segurança. Sou extremamente cautelosa. Mas amoleci, caí na hora errada, no lugar errado, sabendo que era a única prejudicada, já que estava à frente do grupo. Fiquei um mês com a perna para cima, sem poder pisar. Agora [15 de maio, um dia após completar 38 anos] sigo na fisioterapia, devo demorar mais uns seis meses para voltar a escalar. Minha próxima expedição está marcada para março de 2021 [Annapurna, Nepal]. Até lá, tive que cancelar todos meus projetos e ficar em casa”, conta a médica sobre o momento em que foi obrigada a permanecer imóvel, poucas semanas antes de São Paulo entrar em quarentena.

Maximo Kausch
Maximo Kausch

O deserto de Wadi Rum (Jordânia), onde Karina foi gravar o último episódio da série “Elementos Extremos” e caiu

Karina sentiu o baque do acidente inédito. Até então, estava acostumada com as manchetes que a levaram aos anais do montanhismo internacional. Ela é a brasileira mais jovem a escalar o Monte Everest (8.848 metros), em 2013, pela face sul, no Nepal (expedição de 55 dias); única sul-americana a repetir a façanha no cume da Terra subindo pelo outro lado, em 2017 (face norte, no Tibete, expedição de 20 dias); e, em 25 de julho de 2019, foi a segunda pessoa do país a alcançar o cimo do temido K2 (8.611 metros), no Paquistão, a montanha que mata um a cada quatro alpinistas que chegam ao topo (antes de Karina, o único brasileiro a realizar tal feito foi Waldemar Niclevicz, em julho de 2000).

David Kaszlikowski

Ela é carregada por Maximo Kausch após quebrar a tíbia e a fíbula em mais de dez pedaços. O resgate durou quatro horas

Com produtora própria de vídeos – Pitaya Filmes – desde 2009, Karina virou referência na geração de conteúdo em expedições para lá de ousadas. O programa “Fantástico”, da “TV Globo”, já passou peripécias de Karina como mergulhar com tubarões nas Bahamas e atravessar o maior lago de lava do mundo, na fronteira da Eritreia com a Etiópia. Em um currículo que parece não ter fim, Karina coleciona títulos nacionais no snowboard, no wakeboard e recordes no mergulho livre.

Após o grave acidente na Jordânia e em recuperação no Brasil, Karina começou a andar sem muletas no dia 12 de maio. Três dias depois, já estava escalada como médica em plantão de 12 horas no hospital de campanha montado no Anhembi para atender vítimas da Covid-19, fazendo remoção de pacientes em estado crítico para outros hospitais de São Paulo. O impacto emocional do trabalho ganhou doses extras de intensidade graças ao período de 50 dias que o pai de Karina passou internado, derrubado pelo mesmo vírus.

“O fato de eu já ter experiência em grandes expedições não só na montanha, mas na Amazônia, no deserto, no oceano, muitos lugares em mais de 100 países, me mostrou que é muito importante nesses momentos críticos a gente olhar para o dia seguinte”, compara a médica. “Quando você escala o K2, o Everest, ou atravessa 2 mil quilômetros de mata amazônica como fiz recentemente, você não pode olhar para o final. O objetivo está muito longe, dá um desespero, parece que é muita coisa, que não vai dar. Então, um desafio por vez, e concentração máxima no próximo passo. Não podemos passar por esse momento reclamando do período de isolamento. Desanima atuar em um país em que o presidente desdenha das determinações da OMS. Estamos sem liderança. Cada pessoa deveria se limitar a opinar em sua área de conhecimento e deixar quem estudou cuidar da pandemia. O que mais assusta nesse vírus é o potencial de transmissibilidade, inclusive por pessoas assintomáticas”, desabafa.

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A vivência na montanha também a ensinou a relativizar as dificuldades impostas pelo isolamento. “Na alta montanha, o isolamento é muito mais sério. Agora estamos em isolamento, mas cada um em sua casa, com internet, usando aplicativos que dá para conversar olhando a outra pessoa. Na montanha, há lugares onde nem telefone por satélite funciona. Às vezes, o tempo fica tão fechado que a gente não consegue falar com ninguém por dias e dias. Aprendemos a ficar só com a gente.”

JARDIM GRAMACHO

Em outra trincheira no combate aos estragos causados pela pandemia, Karina organiza a doação e a distribuição de cestas básicas para famílias de comunidades de extrema vulnerabilidade no Rio de Janeiro, como o Jardim Gramacho, desde o fim de março. Trata-se do projeto Juntos Venceremos, realizado pelo Instituto Dharma (Karina preside o instituto desde 2015, quando foi criado para fazer ações humanitárias em áreas remotas do Brasil e do mundo). Com o apoio de parceiros como a Volvo, que disponibilizou os carros, o projeto distribuiu cerca de 2 mil cestas (além de máscaras, álcool em gel e água mineral) até a primeira quinzena de maio.

“No momento da minha recuperação física e mental, recebi a proposta de amigos para ajudar quem está passando fome. A situação financeira, claro, está difícil para todos, mas para muita gente é uma calamidade, coloca famílias em risco de vida, gente que não tem o que comer, gente que ‘hashtag fica em casa com vinho e Netflix’ não existe. Quando você não tem um leite para dar ao seu filho faminto, não dá para ficar em casa. Foi para essas pessoas que começamos a trabalhar.”

Para a camada da população que consegue atravessar uma quarentena com mais tranquilidade, ao lado das pessoas que ama, “a hora é de refletir, aprender coisas novas e lidar de uma forma diferente com o recurso mais precioso que existe para o ser humano, que é o tempo”.

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Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

Como médica durante a pandemia no hospital de campanha do Anhembi (SP)

Quando Karina pensa nas lições aprendidas depois dos apuros que passou na Jordânia em fevereiro, ela entende que, como é uma pessoa que gosta de arriscar – e está sujeita a pagar o preço pelo que faz –, a segurança deve continuar como prioridade. “Tanto na montanha como na pandemia, o importante é viver o presente, sabendo que não temos certeza de nada e os riscos são grandes. Sempre.”

KARINA DECIDE SUBIR K2 APÓS AVALANCHE

Maximo Kausch

“O K2 sempre foi a montanha que mais me atraiu. Acho que pelo fato de ela ter essa fama de mais difícil, mais mortal. Sem contar que é muito bonita. Demorou quatro anos até organizar a expedição do ano passado. Um ano não consegui viabilizar financeiramente, outro ano fui chamada pelo “Discovery Channel” para uma série, outro ano tive uma doença gravíssima no sistema nervoso.

Quando finalmente cheguei lá, todo mundo falava que não ia dar cume pra ninguém, pois foi a temporada de mais neve nos últimos 40 anos. Além de dificultar a subida – você escala com neve na cintura –, aumenta demais o risco de avalanche. Mas o tempo foi ficando estável, algo impressionante para o K2. Resolvemos tentar.

Com muitos dias de sol, fizemos nossos ciclos [de aclimatação] e fomos ao ataque ao cume. A previsão era ótima. Mas, ao sairmos à noite do acampamento 4, vimos um monte de luz descendo. Tinha acontecido alguma coisa. Esperamos as pessoas descerem e soubemos da avalanche gigante que arrancou as últimas duas cordas fixas do K2.

Então, tivemos que descer, assim como todas as outras expedições. Muita gente entendeu como um sinal da montanha e resolveu ir embora – de 120 escaladores, sobraram 20. Eu e meu parceiro Maximo Kausch decidimos ficar. Não sou de desistir fácil. Dois dias depois, abriu uma segunda janela, o que é mais raro ainda. Subimos de novo, sem descanso. Fizemos o cume às 4h40. Vimos o sol nascendo lá de cima. Uma sombra do K2 absurda no céu. Foi espetacular.”

Veja, na galeria de fotos a seguir, aventuras de Karina Oliani:

  • Karina mergulha com tubarões na prisão submersa de Rummu

  • Karina no deserto de Wadi Rum (Jordânia)

    Maximo Kausch
  • Karina encara a travessia de lago de lava na Etiópia

    Marcelo Rabelo
  • Karina filma tornado nos Estados Unidos

    Marcelo Rabelo
  • Ela mergulha com tubarões nas Bahamas

    Pitaya Filmes
  • A cachoeira do Aracá, no Amazonas

    Arquivo Pessoal
  • Karina, de máscara, para respirar oxigênio complementar nos picos mais altos do mundo

    Pemba Sherpa
  • Karina no lago de lava na Etiópia

    Gabriel Tarso

Karina mergulha com tubarões na prisão submersa de Rummu

 

Reportagem publicada na edição 78, lançada em junho de 2020

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