Família Schurmann se lança em expedição de dois anos para estudar e alertar para a situação do lixo em alto-mar

"É preciso entender que a situação vai além da tartaruga e do golfinho. É a vida humana que está em jogo", diz David Schurmann.

Amanda Tucci
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Veleiro Kat (80 pés), na costa brasileira, em 2017. É com este barco que a família realizará o novo projeto

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As algas marinhas e o fitoplâncton – responsáveis por 70% da produção de oxigênio do planeta – são os verdadeiros pulmões do mundo, e não as florestas. E, se a principal selva do planeta arde em chamas, as notícias vindas dos sete mares também não são nada acalentadoras. Os oceanos estão ameaçados, sufocados por um produto que coloca em risco a espécie que o criou: o plástico. O descarte irregular de lixo está comprometendo o complexo ecossistema marinho de tal forma que as catastróficas consequências logo afetarão a vida humana de forma irreversível. Segundo dados levantados pelo World Wide Fund for Nature, cerca de 8 milhões de toneladas de plástico vão parar nos oceanos anualmente. Quantidade suficiente para deixar 90% das aves marinhas com conteúdo plástico no estômago – do jeito que a coisa vai, até 2050 plásticos serão mais numerosos do que peixes no mar. Então, se a existência da humanidade depende da saúde do habitat marinho, quanto tempo podemos viver matando nossa fonte da vida?

A pergunta assustadora mobilizou uma família brasileira que, há décadas, trocou a segurança da terra firme pelas incertezas e horizontes sem fim dos oceanos, regidos por ventos e marés: os Schurmann. Com o intuito de mobilizar o planeta para o cenário aterrorizante a partir da observação das expedições mais recentes, criaram o projeto Voz dos Oceanos. “Em 1998, durante nossa segunda expedição de volta ao mundo, nós chegamos a uma ilha super-remota e de difícil acesso, chamada Henderson Island [Oceano Pacífico Sul]. Ninguém mora nesta ilha, mas nós a encontramos coberta de lixo plástico”, lembra-se David Schurmann, de 46 anos, filho de meio de Vilfredo e Heloísa [leia mais sobre a família abaixo]. “Desde então a gente vem assistindo à gradual degradação dos oceanos. Há diversos problemas: a pesca desenfreada, o branqueamento dos corais, mas a invasão plástica é a pior delas.”

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Lixo encontrado pelos Schurmann na ilha West Fayu, em 2016

Outro episódio marcante para a família aconteceu, em 2016, durante a expedição de volta ao mundo mais recente. Quando eles chegaram a West Fayu, ilha paradisíaca e desabitada, localizada entre Papua Nova Guiné e Japão, encontraram mais uma vez a praia coberta de lixo. “Em 150 metros, nós tiramos 30 sacos de lixo”, lamenta David. Na ocasião, a família fez um vídeo sobre o estado da ilha que chegou a mais de 2 milhões de visualizações orgânicas na internet. “Foi neste momento que nós decidimos fazer algo. As pessoas precisam entender que a situação vai muito além da tartaruga, do golfinho. É a vida humana que está em jogo”, alerta.

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Heloísa fica pequena frente ao lixo compactado para descarte em local apropriado

A primeira etapa do projeto Voz dos Oceanos será uma expedição de 24 meses focada na problemática do plástico. Os objetivos da expedição: testemunhar a situação do resíduo plástico nos oceanos, buscar soluções inovadoras e oferecer as ferramentas e as informações necessárias para que outros também o façam, além de conscientizar as pessoas sobre um problema que as afetará diretamente, educando crianças e adolescentes para passar essa mensagem aos quatros ventos. “A comunicação é o ponto-chave para nós. Nossa família sempre foi uma grande contadora de histórias. Desta vez, não será diferente”, garante David.

Por isso, o projeto terá um forte plano de comunicação que envolve a produção de conteúdo para as redes sociais,
parcerias com influenciadores digitais e personalidades de vários países, além da divulgação de fotos, vídeos e palestras realizadas no próprio barco a serem transmitidas pela internet. O objetivo é estimular ao máximo o engajamento das pessoas. Atualmente, David está apresentando o projeto para empresas, entidades e pessoas de diversos setores para angariar o patrocínio de R$ 19,5 milhões e o apoio de que a expedição necessita.

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Um dos momentos mais marcantes de Vilfredo: encontro com baleia jubarte nos mares de Moorea, na Polinésia Francesa, durante Expedição Oriente (2014-2016)

Ao buscar soluções inovadoras, o projeto aposta na promoção do empreendedorismo consciente. Para isso, a família firmou uma parceria com a Spin, uma das maiores incubadoras de startups do Brasil, focada em encontrar soluções ambientais para as indústrias. O objetivo da parceria é buscar e fomentar empreendedores e startups com ideias e propostas inovadoras para encontrar soluções para a situação da poluição plástica dos oceanos.

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Wilhelm, Vilfredo, David e Heloísa a bordo do veleiro Kat

A conscientização é outro ponto fundamental do projeto. Levar informação sobre o que está acontecendo no mundo em função do lixo produzido pela humanidade é, para a família Schurmann, uma missão de extrema importância. “O nosso planeta não tem ‘lado de fora’. Precisamos parar de achar que jogamos o lixo ‘fora’; na verdade, nós apenas o
deslocamos, tiramos da nossa frente, e ele vai parar nos nossos oceanos. E isso é um problema de todos os países, sem exceção. O oceano não tem fronteiras, a água que bate hoje em Ilhabela, bate na África daqui a uns anos”, explica David.

A Voz dos Oceanos Educacional é o braço do projeto que dialoga com as crianças e adolescentes. “É preciso falar diretamente com eles. Os jovens não são os agentes transformadores do futuro, são os maiores transformadores do presente. Hoje, os pais aprendem com seus filhos”, continua David. A ideia é que o conteúdo do projeto chegue às escolas e, para isso, será desenvolvido um material educacional bilíngue sobre cuidados com o plástico e como reduzir o seu uso, que será disponibilizado gratuitamente.

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As ações são voltadas à sociedade em geral. A mais ambiciosa é o braço científico do projeto. Cientistas, ambientalistas e estudiosos de vários cantos do mundo terão a chance de estudar a condição da água e a situação dos oceanos in loco em alguns dos lugares mais remotos do globo.

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Ducie Island, atol pertencente às ilhas Pitcairn, um dos lugares mais remotos do planeta e, para Heloísa, um dos mais incríveis por ela visitados

Uma nova tecnologia alemã, que utiliza drones, fará fotografias aéreas dos oceanos, captando a quantidade de partículas de plástico que existem em um determinado lugar. O veleiro vai funcionar como um verdadeiro laboratório de importantes pesquisas cujos resultados ficarão à disposição de diversas universidades e entidades científicas do mundo. Há três anos, a família vem se preparando para esta nova empreitada. A primeira expedição, que foca no resíduo plástico, será apenas o começo. Outras virão com novos temas, mas sempre com o mesmo propósito: escutar e propagar o grito de socorro dos oceanos.

MAR, DOCE LAR: COMO NASCE A PAIXÃO POR VELEJAR

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Vilfredo enfrenta mar agitado na Expedição Oriente

Heloísa e Vilfredo Schurmann, hoje com 74 e 72 anos e três voltas ao mundo de veleiro no currículo (1984-1994; 1997-2000 e 2014-2016), nunca tinham colocado os pés em uma embarcação dessa até a década de 1970. Catarinense de Florianópolis, Vilfredo graduou-se em economia, foi consultor financeiro de grandes corporações brasileiras e chegou a ser convidado para a presidência de um banco, antes de trocar a terra pelo mar. Já a carioca Heloísa cursou inglês na New York University e se especializou em pedagogia, quando veio passar férias no Brasil e o destino amarrou o casal em 1967.

Curtindo as férias de verão no Caribe em 1974, eles tiveram a ideia de passear de veleiro. Foi paixão à primeira vista. De imediato, fizeram uma promessa que voltariam um dia, em seu próprio barco. Nascia também o sonho de dar a volta ao mundo. De volta a Florianópolis, compraram uma casa perto do mar e o primeiro barco. “Era um barco simples, pesado, aquele que ninguém queria”, lembra Vilfredo. A partir dali, junto com os filhos Pierre, hoje com 52 anos, David, 46, e Wilhelm, 44, a família se uniu no aprendizado da arte de velejar.

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Pierre, David e Wilhelm se divertem no botinho antes de darem a volta ao mundo, no início do anos 1980

“Certo dia, li em uma revista que o primeiro passo para realizar algo é marcar a data. Pois bem, marcamos. Quando David completasse 10 anos nós partiríamos”, conta Heloísa. Em 14 de abril de 1984, pais e filhos, então com 15, 10 e 7 anos, zarparam a bordo do veleiro Guapo Frers, de 44 pés, para uma expedição que inicialmente duraria três anos – passado esse período, porém, perceberam que não tinha volta. “Era aquilo o que queríamos da vida: viver do mar, e no mar”, conta Heloísa, que já escreveu quatro livros sobre as andanças da família, o mais recente “Expedição Oriente: 812 dias de uma volta ao mundo”, de 2019.

Os três meninos estudavam com as aulas que Heloísa dava a eles em alto-mar e, depois, em uma escola norte-americana por correspondência. Em 1990, Pierre desembarcou nos Estados Unidos para cursar administração. Dois anos depois, foi a vez de David descer na Nova Zelândia para estudar cinema (ele dirigiu o documentário “O mundo em duas voltas”, lançado em 2007). Wilhelm foi o único dos três que completou 10 anos de expedição, retornando com os pais em 1994. Mais tarde, ele se transformaria em um campeão de windsurf; hoje, é o segundo capitão da família.

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Com os três filhos criados, a família teve uma surpresa em 1995, no lançamento do primeiro livro de Heloísa, “Dez anos no mar”. Robert, um amigo neozelandês do casal, veio visitá-los com a filha, Kat. “Nós nos surpreendemos de ver o Robert, sem a [mulher] Jeanne. Ele, então, nos disse que ela havia falecido de HIV: havia recebido uma transfusão após ser atropelada”, conta Heloísa. Robert e Kat, na época com 3 anos, também estavam infectados. Sem saber quanto tempo tinha de vida, Robert pediu ao casal brasileiro que adotasse sua filha.

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Heloísa e Kat brincam na Ilha Henderson (1998)

“Nós a adotamos, e ela virou nossa pequena aventureira. Era muito inteligente e curiosa”, lembra Heloísa. Kat faleceu aos 13 anos, em 2006. A revelação de condição aparece anos depois, no livro “O Pequeno Segredo”, que, mais tarde, seria adaptado para cinema por David.

A pequena marinheira segue presente: Kat é o nome do atual veleiro de 80 pés dos Schurmann, embarcação que virou o endereço da família e foi construída para a terceira volta ao mundo. É a bordo de Kat que farão o projeto Voz dos Oceanos.

Reportagem publicada na edição 81, lançada em outubro de 2020

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