Brasileiro Kobra colore cidades pelo mundo com seus grafites inconfundíveis

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

Mural grafitado por Kobra no MIS Experience, em São Paulo, para a exposição “Leonardo da Vinci – 500 anos de um gênio”

Eduardo Kobra começou cedo: aos 9 anos já ensaiava desenhos em seus cadernos no Jardim Martinica, zona sul de São Paulo. Pouco tempo passou até começar a pintar nas ruas, aos 12 anos, uma jornada de árduo trabalho para conquistar seu espaço. Primeiro o brasileiro ganhou os muros, depois os primeiros admiradores e, com muito esforço e resiliência, o mundo. Seus traços inconfundíveis estampados em murais gigantes colorem cidades e fazem os espectadores até duvidarem de tamanha destreza. Mas basta uma conversa para entender que tudo isso é fruto de uma mente incansável, muito estudo e um olhar sensível e apurado para o mundo. Aos 45 anos, casado e pai de um filho, Kobra conversou com a Forbes sobre sua arte, seu processo criativo, os projetos futuros – o que inclui a criação do Instituto Kobra – e o tão desafiador ano de 2020. Confira trechos da entrevista.

Forbes: Nesses 30 anos de trajetória, o que foi fundamental para você atingir o sucesso?

Kobra: Eu atravessei muitos impedimentos, dificuldades e barreiras. No lugar onde eu nasci, em 1975, era muito limitado o acesso à cultura, educação e saúde. Isso por um lado foi difícil, mas fez com que eu tivesse que me esforçar dez vezes mais, ser dez vezes mais forte. Eu nunca me senti acovardado, mas exigiu muita superação. Existe um desequilíbrio, é muito desproporcional se a gente pegar pessoas que tiveram melhor acesso à educação. Mas minha mente não se aprisionou, eu sempre a deixei livre e sempre fui muito impetuoso naquilo em que acreditei, no que eu queria fazer. Sou autodidata, não me lembro de alguma pessoa me apoiando e dizendo o que fazer. Corri uma corrida solitária. Mas cultivei a terra muito bem, preparei o terreno e hoje posso colher os frutos do longo trabalho de 30 anos.

F: Quando percebeu que seguiria o caminho da arte?

K: Tudo começou em casa, em cadernos de desenho, e aos 12 anos eu já estava pintando nas ruas. Claro que de forma ilegal e irregular, mas, logo na sequência, na década de 90, já estava fazendo meus grafites. Em 1993 recebi o meu primeiro contrato grande, que foi para pintar no parque Playcenter. Isso acabou me dando uma nova perspectiva, a estrutura e a possibilidade de evoluir com a minha arte e trabalho.

F: Como funciona o seu processo criativo?

K: O processo sempre foi muito intuitivo, natural e espontâneo. Eu não tive contato com outros artistas, levei muito tempo para entrar em uma galeria de arte, para entrar no circuito oficial das artes. Toda a minha formação aconteceu nas ruas. Eu fui guardando tudo isso, tudo que observava, e tudo de bom que presenciei na periferia, como as pessoas que são as verdadeiras locomotivas do país, acordando cedo, trabalhando, batalhando e ainda estudando à noite. Pessoas realmente dedicadas. Eu sabia que teria que lutar, então busquei me inspirar nelas. Costumo dizer que a criação, embora eu seja um pintor, é muito mais importante do que a pintura. É o coração de tudo. Quando recebo convites do mundo todo – já passei pelos cinco continentes, mais de 40 países – é sempre isso: um muro branco e o desafio de criar. Procuro sempre pintar com meu próprio pincel, ser bem seguro no que eu acredito, bem convicto, e observo tudo. Gosto de arquitetura, paisagismo, das artes plásticas de forma geral, tanto as artes contemporâneas como as mais antigas. Tenho um método que eu desenvolvi e procuro seguir firme nisso, é o meu caminho da criação, é o que eu sou, o que acredito, o que vejo. Acabei dividindo minha criação como se fosse um armário com várias caixas. Em cada uma delas tem um tema que eu gosto de tratar: proteção dos animais, meio ambiente, natureza, paz, tolerância, união dos povos, racismo, recortes históricos, muros das memórias, muros em 3D. Tudo isso surge das minhas vivências, de um comentário que eu ouvi, um documentário, uma agressão que me tocou… E aí faço disso uma forma de protesto. Tudo o que observo acaba interferindo no meu processo criativo.

F: Quais são as maiores dificuldades ao pintar um mural?

K: Pintar o mural é a última fase. Antes disso, tem todo um processo burocrático: os contratos, as permissões, itens de segurança, viagens, alimentação e o desafio de ficar longe da família. A pintura do mural em si depende de vários fatores: alguns são feitos de forma mais rápida, o que tem a ver com o tema escolhido e também com a dificuldade. Outros são mais complexos, como o maior do mundo, com 6 mil metros quadrados, que está no Guinness Book [em Itapevi, a 35 quilômetros do centro de São Paulo, na fábrica da Cacau Show]. Também já cheguei a pintar prédios com 99 metros de altura, o que exige preparo físico e que vai além da questão psicológica e o controle do medo. Tudo é feito antes, todos os estudos. Para cada espaço eu faço de dez a trinta criações até decidir. Sou talvez o maior crítico do meu trabalho.

F: O que mais te inspira?

K: Vários elementos. Existem sim alguns dias que acordo de manhã, vejo que tive uma ideia e anoto no meu bloco do celular. Mas também pode partir de algo que pensei, vi ou escutei, e a partir daí é um mergulho. Por exemplo, quando vou fazer um trabalho sobre Martin Luther King, vejo todos os documentários, filmes, livros, a parte iconográfica, tudo. O que me inspira são pessoas que fazem ou fizeram o bem, que lutaram pela paz. Quanto mais eu viajo pelo mundo, melhor compreendo as culturas, suas tradições, e vou aprendendo a respeitar tudo isso. As diferenças culturais, filosóficas, pensamento de todos os tipos, formação, origem, etnia, eu gosto muito de refletir sobre tudo isso e pensar de que forma eu poderia fazer um mundo melhor através da minha arte, conscientizar as pessoas. Estou sempre criando muita coisa, devo ter agora pelo menos 300 a 400 criações que estão no papel e ainda não foram para os murais.

F: O que faz no tempo livre?

K:Tenho pouco tempo livre. A cada dia que passa meu tempo diminui mais. Mas percebi que não é possível fazer tudo. Estou valorizando outras coisas: deixar a nossa casa mais bonita, o ambiente mais agradável, estar com os amigos, visitar a família e aproveitar ao máximo meu filho, que é uma bênção de Deus. Estar com ele me traz muita alegria. Atualmente, na maior parte do tempo fico em casa. Mas adoro visitar livrarias, bibliotecas, gosto muito de ficar folheando livros, caminhar pela cidade, ver os prédios, a arquitetura.

F: Que obras mais marcaram sua carreira?

K:Todas elas têm um porquê, todas me marcaram de alguma forma. Não faço diferenciação entre os lugares: alguns são incríveis, como em Abu Dhabi, onde tenho o maior mural local, que pintei a convite do xeique, mas também estar presente em lugares mais simples me motiva na mesma proporção. Fui para o Malawi, na África, a convite da Madonna, onde pintei um hospital pediátrico que ela criou. Também tem uma sequência que fiz em Nova York, chamada “Cores pela Liberdade”, todos diziam que era impossível, mas eu fiz 18 murais, morei lá, e isso tem uma grande importância na minha vida. Aqui em São Paulo talvez o mural do Oscar Niemeyer seja um marco, pela minha história de preconceito e tudo mais, conseguir ocupar um lugar tão nobre é superimportante. A arte vem abrindo portas para mim no mundo todo.

F: Quais são seus projetos atuais?

K:Estou com um trabalho na fachada do World Trade Center, em Nova York, no local onde vão construir a segunda torre. Estive lá em fevereiro e, por causa da pandemia, não foi possível realizar. Também tenho o projeto de uma estação de trem em Paris muito incrível, outro em Dubai e pelo menos cinco ou seis pela Europa. Na China há um trabalho que está sendo discutido. Nos Estados Unidos tenho projetos em várias cidades. Espero que, assim que passar a pandemia, eu consiga concluir. Mas o maior projeto de todos é a criação do meu instituto. Estou com a documentação praticamente pronta e quero em breve estar com o espaço físico para poder, pela arte, apoiar a vida de tantos que estão precisando de apoio. Quero que o Instituto Kobra seja um veículo para que as empresas possam ter esse acesso de apoio às comunidades e crianças de várias partes do Brasil.

F: Quais são as maiores dificuldades que os artistas de rua brasileiros enfrentam?

K:Não há diferença entre a arte que é feita na rua, na galeria ou em um museu. Cada artista tem a sua história, alguns têm o privilégio de ter nascido na classe mais alta, ter o acesso mais fácil às informações e aos materiais. Mas outros vêm da comunidade, trazem algo do coração, de dentro para fora, e passam as mesmas dificuldades que eu passei, de comprar uma lata de tinta, uma tela, um pincel, tudo isso é muito caro. É necessário incentivo. Muitos desistem, seguem outros caminhos ou acabam cedendo a caminhos errados como as drogas, a criminalidade. A dificuldade que eu tive 30 anos atrás acontece até hoje, mas isso depende muito de cada um. As ruas dependem de muita renúncia, eu renunciei a tudo isso: crime, drogas, violência, álcool… Eu vi pouca coisa mudar, e muitos ainda são preconceituosos com os artistas que estão nas ruas, mas é por simples falta de conhecimento. Coloquei meu coração nas artes e ela me salvou de tudo isso. Quanto mais incentivo houver, mais a gente vai ter um futuro melhor e a situação do país vai melhorar para todos.

F: Como é a experiência de pintar na rua e ter a constante interação do público?

K:A troca de experiências é muito rica e muito forte. Você tem ali pessoas muito simples, que nunca entraram em um museu, mas estão contemplando aquela obra para a qual têm acesso. A rua é a galeria de arte do futuro, com todos os tipos de instalações, intervenções e esculturas. E os artistas podem ter esse contato direto, o retorno imediato, pessoas que estão interagindo e comentando. É o visual da cidade que vai sendo modificado através da arte. Às vezes, as paredes falam, passam diversos tipos de mensagens. O trânsito caótico, a ansiedade, a depressão… A arte traz um alívio para isso tudo. O contato com o público é muito intenso e igualitário, da pessoa mais culta até alguém mais simples. É um trabalho manual, mas ali eu coloco meu espírito. As pessoas sentem isso.

F: Você se imagina fazendo outra coisa?

K:Não me imagino, e acho que não dividiria meu tempo com outros negócios. Devo continuar pintando até os últimos dias da minha vida, enquanto eu tiver força para subir no andaime e na escada. Mesmo depois de 30 anos pintando, quando eu entro em uma Capela Sistina, vejo que não sei nada, que tenho muito a evoluir. Os muros em branco são uma infinita possibilidade, a cidade é infinita. Não vou fazer mais nada além de pintar.

F: O que 2020 alterou em seus planos?

K:O ano foi atípico. Logo no começo de 2020 perdemos uma filha, a Catarina, que nasceu e depois de 12 horas faleceu. Foi um momento bem delicado. Na sequência, o coronavírus estava aí e desencadeou toda uma mudança de hábitos. Fiquei bastante ansioso com tudo, bastante triste e depressivo com o luto, e ao mesmo tempo toda minha agenda internacional foi modificada. Tive medo, acabei ficando doente, me senti meio sem saída. Mas o negócio é sair. E foi o que tentei fazer, busquei através da fé em Deus sair de tudo isso. Pude criar arte com propósito, como painéis para ajudar o Líbano, um leilão e também a obra “Coexistência”, onde ajudei 20 mil moradores de rua doando o cachê para associações. Percebi que estava passando por um momento muito difícil, mas outras pessoas tinham até mais dificuldades. Com tudo fechado, outros artistas também me procuraram, alguns não tinham nem recurso para sobreviver. Acabei fazendo uma corrente solidária para colaborar com eles.

F: Com tanta vivência internacional, pensa em se mudar do Brasil?

K:O Brasil é para mim o melhor país do mundo, com as melhores oportunidades e os melhores desafios. Devo tudo o que eu sou ao Brasil. Até hoje, em todos os países por onde passo, sempre coloco minha assinatura e uma bandeira do Brasil. Tudo está aqui: os amigos, a família e meus ateliês [ambos no bairro da Vila Madalena, em São Paulo]. Já recebi vários convites para morar na Europa, nos Estados Unidos, em muitos lugares. Mas ser brasileiro é algo que trago no meu coração.

Veja, na galeria de fotos a seguir, algumas obras de Kobra:

  • “Tupac & Biggie”, localizado em Miami, EUA

    Arquivo Pessoal
  • “Madonna & Basquiat”, técnica mista sobre tela

    Arquivo Pessoal
  • Mural “Stop Wars”,
    localizado no bairro
    Wynwood, em
    Miami, EUA

    Arquivo Pessoal
  • Mural “Mount
    Rushmore”, no bairro Chelsea, em Nova York, EUA

    Arquivo Pessoal
  • Mural “Auto-retrato”, pintado durante o MIS Experience, em São Paulo

    Arquivo Pessoal
  • Mural “A Magia do
    Cacau”, localizado na fábrica da Cacau Show, em Itapevi (São Paulo), considerado pelo Guinness Book o maior do mundo

    Arquivo Pessoal
  • Mural “Ellis”, em Nova York, EUA

    Arquivo Pessoal
  • “Davi”, técnica mista sobre tela

    Arquivo Pessoal

“Tupac & Biggie”, localizado em Miami, EUA

Reportagem publicada na edição 83, lançada em dezembro de 2020

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