A retomada do turismo: veja como 7 empresas avaliam o setor no pós-pandemia

Lord Henri Voton/Getty Images
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Transformações digitais e investimentos em tecnologia tornaram-se essenciais para o setor de turismo durante a pandemia

O turismo foi um dos setores mais afetados pela pandemia de Covid-19 e um dos primeiros a sentir os impactos negativos causados pelas políticas de restrições, cancelamento de viagens e fechamento de fronteiras.

Em dezembro de 2020, a OMT (Organização Mundial do Turismo) divulgou uma nota informando que o período entre janeiro e outubro do ano passado perdeu 900 milhões de turistas internacionais, impacto que se traduz na perda de US$ 935 bilhões em receitas.

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Segundo a Fecomercio, no Brasil o setor registrou uma queda de R$ 55,6 bilhões em 2020 na comparação com 2019. O setor aéreo foi o que mais sofreu, perdendo pouco mais da metade da média de seu faturamento anual. No período, o setor, como um todo, eliminou 110 mil postos de trabalho, dos quais 87 mil foram em hotéis, agências de viagens e operadoras turísticas.

Mesmo com programas e políticas para redução e mitigação de impactos, a rede turística sentiu os efeitos da diminuição da demanda, mas, segundo Juliana Bettini, especialista em turismo no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), a crise ofereceu a oportunidade para o setor se articular e coordenar internamente. “O turismo é um setor muito pulverizado e fragmentado, com muitas pequenas e médias empresas. Com a crise, eu vejo um movimento de maior coordenação entre os atores.”

Mesmo com o avanço dos planos de vacinação e a retomada gradual das atividades turísticas, o setor, principalmente no Brasil, ainda vai demorar a registrar números semelhantes aos do cenário pré-pandemia. Segundo Mariana Aldrigui, presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, prejuízo em turismo não se recupera, porque não existe expansão da oferta. “Mesmo que haja uma demanda maior do que a capacidade de oferta, o setor sempre vai trabalhar em um limite definido de lucro. Dessa forma, é preciso que exista uma otimização da receita e uma redução drástica nas receitas operacionais.”

Para a especialista, a percepção do turismo no país ainda é frágil e parte considerável da reconstrução do setor pode acontecer se essas atividades passarem a ser vistas como fontes geradoras de emprego que movimentam a economia e que podem ajudar na recuperação da imagem brasileira. Os esforços dos diferentes níveis de governos têm papel essencial nesse sentido, já que as políticas implementadas hoje serão as responsáveis por suprir e viabilizar a demanda que surgirá no futuro.

“No turismo, há a questão de gerar receitas para populações vulneráveis que conseguem se inserir na cadeia produtiva de forma relativamente fácil e gerar aumento das receitas. Estamos em uma situação em que todo esse mecanismo fica em risco, mas isso dá a oportunidade de repensarmos os modelos de desenvolvimento dos destinos. Essa articulação entre políticas públicas e setor privado é essencial para garantir o crédito que vai fazer com que as empresas não morram e para que elas tenham o olhar no futuro”, completa Juliana.

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TRANSFORMAÇÃO

A pandemia criou tendências e acelerou outras no turismo. A transformação digital tem sido observada há alguns anos nas atividades turísticas e, agora, está mais forte do que nunca. Essa movimentação forçou muitas empresas de pequeno e médio portes a investirem em marketing e numa presença digital. Por outro lado, tornou os consumidores mais independentes na busca e agendamento de passagens e quartos de hotel.

A pauta de sustentabilidade também ficou em alta nas discussões sobre retomada das atividades. As políticas de biossegurança pedem o uso de materiais descartáveis e aumentam a utilização de plásticos de uso único.

As viagens em si também sofreram transformações. Atualmente, quem opta por viajar escolhe rotas mais curtas e, consequentemente, de menor duração para diminuir a exposição ao vírus. Nesse sentido, também observa-se a busca por locais mais ligados à natureza e afastados de aglomerações. Mas, para Juliana, essa é uma tendência que pode diminuir assim que as atividades começarem a sinalizar a volta à normalidade. “Para o longo prazo, quando a população estiver amplamente vacinada, vai haver uma reversão. As pessoas vão querer ver pessoas. Então essa tendência tem prazo de validade, mas oferece uma oportunidade para os destinos de natureza.”

Veja, na galeria de imagens a seguir, como sete empresas do setor de turismo analisam as oportunidades que podem surgir no pós-crise:

  • Azul Linhas Aéreas Brasileiras

    O setor de aviação comercial foi um dos que mais sofreram com o início da pandemia e sentiram muito cedo os impactos negativos das alterações em viagens. Segundo dados da Azul, a empresa operava quase 1.000 voos por dia no início de 2020, mas, em abril, esse número caiu para 70. “Para nos adequarmos a essa situação, suspendemos temporariamente nossa operação em algumas bases e renegociamos contratos. Em outubro do ano passado, lançamos no mercado uma oferta pública em debêntures no valor de R$ 1,6 bilhão para reforçar o caixa. Essas medidas nos ajudaram a atravessar esse momento de forma menos crítica”, afirma o presidente da empresa, John Rodgerson.

    Mesmo durante a crise, a Azul conseguiu identificar oportunidades que transformaram as operações da empresa. Com o crescimento do e-commerce, a companhia investiu na Azul Cargo Express, que inicialmente tinha participação de 5% nos negócios da empresa e acabou ocupando 40% da receita ao longo de 2020. Atualmente, a Cargo tem mais de 300 lojas físicas espalhadas pelo país e atua em cerca de 4.000 municípios.

    A Azul também identificou mudanças nas tendências de viagens, ao observar o fortalecimento do turismo doméstico e o investimento de empresas do setor em transformação digital. A companhia apostou em um recurso de realidade aumentada chamado “Tapete Azul” que indica ao cliente o momento certo de embarcar e desenvolveu uma bancada digital de autoatendimento que deixa as bagagens prontas para despacho.

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    Divulgação
  • Latam Airlines Brasil

    Em janeiro deste ano, a Latam conseguiu retomar 63% da sua capacidade total de voos no Brasil em comparação ao mesmo período de 2020. Mas a segunda onda da Covid-19 no país forçou a aérea a reduzir novamente essas operações, passando a atuar com cerca de 39% da capacidade total.

    Segundo a empresa, a pandemia acelerou o processo de transformação digital, com o lançamento de uma unidade e-business e a renovação da plataforma digital no Chile, Equador e Colômbia. Com o objetivo de reduzir o tempo de compra de passagens e armazenar as preferências dos clientes durante o check-in automático, a Latam decidiu expandir esses investimentos para o Brasil.

    Diversas empresas de linhas aéreas estão desempenhando papel essencial no plano de vacinação nacional no que diz respeito à logística. Segundo a Latam, desde o início do ano, o programa Avião Solidário movimentou gratuitamente mais de 25 milhões de doses de vacina contra a Covid-19, o que corresponde a 52% de todos os imunizantes transportados no país até o momento.

    Divulgação
  • CVC

    A agência de viagens brasileira, que tem quase 50 anos de atuação, registrou em 2020 faturamento negativo ao ver mais cancelamentos do que compras e reservas. Por ser uma empresa aberta, o aporte de capital por parte dos acionistas foi o que manteve a CVC em operação.

    Para Leonel Dias, CEO da CVC, um dos segmentos mais impactados com a crise foi o corporativo, já que, em muitas situações, a dinâmica de encontros remotos funciona muito bem, o que dispensa a necessidade de viagens curtas. Por outro lado, as feiras, eventos e exposições devem retomar em 2022 com o avanço dos planos de vacinação e retomada das atividades.

    Dias projeta que a operadora e o setor, de modo geral, voltarão a ver faturamento semelhantes aos de 2019 apenas em 2023. Mesmo com a recuperação das grandes empresas do setor, há ainda um prejuízo em toda a cadeia.

    Para acompanhar as mudanças impostas pela nova realidade, a CVC investiu em diversos projetos que serão responsáveis por potencializar as operações da agência. “Nós acabamos de lançar um cartão de crédito que faz parte de um programa de fidelidade. Anunciamos um marketplace temático; a VHC Hospitality, um negócio de casa de temporada; vamos lançar uma plataforma de agente de turismo e, no final de maio, anunciaremos um programa de sustentabilidade que vai englobar diversidade e compromisso com a preservação ambiental que envolve nossa pegada de carbono.”

    Athima Tongloom/Getty Images
  • Latitudes, Viagens de Conhecimento

    Parte de um dos grupos que mais sofreram com a redução das atividades turísticas, a Latitudes, agência com foco em viagens de conhecimento, sentiu de forma direta os impactos negativos causados pela pandemia.

    Para compensar os impactos em suas operações, a empresa, junto com uma equipe de especialistas em viagens, desenvolveu cursos para seus clientes, que hoje geram parte considerável da receita. A agência também investiu em roteiros curtos e em grupo a locais próximos a São Paulo, que reproduzem os esquemas de viagens temáticas internacionais que costumava oferecer.

    Segundo Alexandre Cymbalista, CEO da Latitudes, as atividades turísticas serão retomadas de forma gradual em 2021 e as tendências entre os turistas devem variar. “As viagens culturais em lugares menos povoados, como por exemplo à Romênia ou à Eslovênia em vez de Florença ou Dubrovnik, lugares que têm sido explorados pelo turismo de massa, parecem escolhas que farão mais sentido.”

    Divulgação
  • Agência TP Corporate

    A TP Corporate foi oficialmente lançada em fevereiro de 2021 como resultado de uma parceria entre a LTN Brasil e a Teresa Perez Tour. A agência voltada para o segmento corporativo C-level é fruto da pandemia e das transformações motivadas pela nova realidade no setor do turismo.

    “Acreditamos que voltar a viajar a negócios faz parte do processo de retorno à normalidade. Por entender essas nuances, criamos uma agência com uma nova proposta de valor e um novo portfólio de serviços que endereça novas necessidades. Por meio dos clientes da Teresa Perez e da LTN, percebemos que o mercado mudou, que existem novas demandas e que há espaço para uma agência com esse serviço diferenciado”, afirma Gustavo Bernhoeft, sócio da LTN Brasil.

    A TP Corporate by LTN é uma empresa independente com participação de 50% da Teresa Perez Tours e 50% da LTN Brasil, que aplica conhecimento e tecnologia com foco em viagens e eventos corporativos, enquanto a Teresa Perez é responsável pelo marketing, gestão de fornecedores e parcerias.

    Wsfurlan/Getty Images
  • Norwegian Cruise Line Holdings

    Com os impactos causados pela pandemia de Covid-19, a Norwegian Cruise Line Holdings espera que a taxa média de consumo de caixa permaneça temporariamente elevada em cerca de US$ 190 milhões por mês. A companhia, que engloba as marcas de luxo Norwegian Cruise Line, Oceania Cruises e Regent Seven Seas Cruises, planeja uma retomada forte no faturamento e uma normalização de demanda entre 2022 e 2023.

    Inicialmente, os navios irão operar com 60% da ocupação original e, mesmo com um cenário ainda de passos lentos em direção à retomada, as três empresas da companhia têm embarcações encomendadas ou em construção. Segundo Estela Farina, diretora geral do escritório da Norwegian Cruise Line Holdings no Brasil, a intenção é ampliar a oferta para suprir a demanda reprimida de turistas.

    “Os cruzeiros de luxo são interessantes porque um dos pontos que os caracterizam são navios de médio porte em navegações com número menor de pessoas. O conceito de exclusividade e de mais espaço a bordo já fazia parte das viagens. Em uma retomada, isso é considerado também, porque haverá o distanciamento, espaços mais exclusivos e uma maior segurança”, afirma Estela.

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  • Four Seasons Hotels and Resorts

    A pandemia de Covid-19 impactou as atividades turísticas das mais variadas formas e o setor de luxo não foi poupado. Segundo dados da empresa, no auge da pandemia, a rede Four Seasons fechou 70% de seu portfólio.

    Mesmo com a diminuição do números de viagens e queda de demanda, a rede procurou desenvolver e implementar programas que garantissem a segurança dos clientes e uma retomada mais uniforme. Dentre os projetos, a Four Seasons desenvolveu o Lead With Care, programa global aprimorado de saúde e segurança concentrado em fornecer atendimento, confiança e conforto aos hóspedes, funcionários e residentes das propriedades.

    Durante a pandemia, a Four Seasons Private Retreats, coleção de casas e vilas luxuosas, tornou-se muito popular, por oferecer mais espaço, privacidade e exclusividade. A rede também observou um papel essencial da tecnologia no sucesso das operações durante a pandemia. O aplicativo da Four Seasons tornou-se muito popular, oferecendo serviços de check-in e check-out sem contato.

    “À medida que o mundo flexibiliza as medidas restritivas, as viagens internacionais serão possíveis e já podemos ver os turistas começando a planejar aqueles roteiros que sempre sonharam e que, possivelmente, tiveram que adiar por causa da pandemia. Tudo indica que, assim que as fronteiras forem reabertas e, em conjunto com os programas de vacinação em massa, a demanda e a vontade de viajar aumentarão novamente”, afirma John Davison, presidente e CEO da Four Seasons Hotels and Resorts.

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Azul Linhas Aéreas Brasileiras

O setor de aviação comercial foi um dos que mais sofreram com o início da pandemia e sentiram muito cedo os impactos negativos das alterações em viagens. Segundo dados da Azul, a empresa operava quase 1.000 voos por dia no início de 2020, mas, em abril, esse número caiu para 70. “Para nos adequarmos a essa situação, suspendemos temporariamente nossa operação em algumas bases e renegociamos contratos. Em outubro do ano passado, lançamos no mercado uma oferta pública em debêntures no valor de R$ 1,6 bilhão para reforçar o caixa. Essas medidas nos ajudaram a atravessar esse momento de forma menos crítica”, afirma o presidente da empresa, John Rodgerson.

Mesmo durante a crise, a Azul conseguiu identificar oportunidades que transformaram as operações da empresa. Com o crescimento do e-commerce, a companhia investiu na Azul Cargo Express, que inicialmente tinha participação de 5% nos negócios da empresa e acabou ocupando 40% da receita ao longo de 2020. Atualmente, a Cargo tem mais de 300 lojas físicas espalhadas pelo país e atua em cerca de 4.000 municípios.

A Azul também identificou mudanças nas tendências de viagens, ao observar o fortalecimento do turismo doméstico e o investimento de empresas do setor em transformação digital. A companhia apostou em um recurso de realidade aumentada chamado “Tapete Azul” que indica ao cliente o momento certo de embarcar e desenvolveu uma bancada digital de autoatendimento que deixa as bagagens prontas para despacho.

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