Alexandre Birman investe na digitalização dos negócios após aquisição do Grupo Reserva

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Alexandre Birman (Arezzo&Co) e Rony Meisler (Grupo Reserva): novo conglomerado de moda no país, unindo as labels dos dois grupos e oferecendo calçados e peças de vestuário

O empresário Alexandre Birman decidiu pisar forte no acelerador em 2020. À frente do grupo Arezzo&Co, empresa fundada por seu pai, Anderson Birman, em 1972 – originalmente como uma marca de calçados masculinos –, ele comanda atualmente marcas próprias (Arezzo, Alexandre Birman, Alme, Anacapri, Brizza e Fiever), é responsável pela distribuição da Vans no Brasil e, no final de 2020, acrescentou ao seu império de calçados o Reserva, grupo de seis marcas fundado por Rony Meisler e o sócio Fernando Sigal, e a Troc, brechó online de luxo. Simultaneamente, em meio à pandemia, lançou o marketplace ZZ Mall, que abriga curadoria de marcas do grupo e externas.

Birman conversou com a Forbes sobre a entrada no segmento de vestuário, o bom ano de 2020 e os planos para 2021. Para complementar a conversa, Meisler falou sobre o novo momento do Grupo Reserva.

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Forbes: Sua relação com o universo dos calçados mudou ao longo do tempo ou a paixão segue a mesma?

Alexandre Birman: Continua a mesma. Inclusive enquanto falo com você, estou na nossa sede, em Campo Bom, Rio Grande do Sul, onde temos todas as marcas e concentramos todos os nossos lançamentos. Estou aqui revendo cada detalhe, cada etapa de montagem. Para mim é sobre o conjunto do que o calçado é, como ele é feito de forma totalmente artesanal, é o poder que ele tem de alterar o look de uma pessoa, mudar o astral. Por exemplo, você troca o tênis por um scarpin, na mesma roupa, e fica totalmente diferente. É justamente essa capacidade que me fascina.

F:Como é o seu dia a dia?

AB: É uma loucura. Eu começo a minha segunda-feira em São Paulo, religiosamente com uma reunião chamada Comitê Executivo, e logo às 11h temos uma apresentação de todos os resultados de todas as marcas, com vários demonstrativos, indicadores de conversão de fluxo, destaques e vendas de todos os canais. Na sequência, almoço com meus diretores executivos e depois vou ver lojas. Na terça de manhã vou para o Rio Grande do Sul, onde temos seis marcas e lançamos uma coleção a cada 15 dias. Sempre acompanho tudo de perto, vejo os desenhos, faço reunião com a nossa área de sourcing e toda quarta-feira tenho a revisão da qualidade; na sequência, reunião com o diretor de TI. A quinta-feira eu deixo livre para visitar novos fornecedores e, à tarde, deixo uma pauta para o meu financeiro. Na sexta volto para São Paulo e passo na loja da Schutz da Oscar Freire, onde fica o showroom, o escritório e parte da equipe. As semanas são bem definidas.

F: Quais são os valores e as atitudes que dão sustentação ao grupo?

AB: O primeiro é algo muito simples, mas só literalmente conhecendo a Arezzo&Co é que você vai ver o que é trabalho. O ritmo é diferente. A gente conseguiu colocar um legado aqui, é a forma que as pessoas se desenvolvem e trabalham. Aqui tem que ser high achiever, é o que funciona. É a paixão por trabalho. Temos uma cultura de formar pessoas. No meu time direto não tem ninguém que está há menos de sete anos, todos já são funcionários faz um bom tempo.

F: Como é possível ter um ritmo tão acelerado de produção e se manter alinhado com a sustentabilidade?

AB: Sem dúvida, é um ponto muito importante. E, quando você fala em sustentabilidade, existe uma série de vertentes: a primeira é a ambiental, e isso não tem muito a ver com o ritmo de lançamentos – o importante é usar as matérias de origem e componentes menos poluentes. Um ponto muito importante é relativo ao reuso, e nisso nós temos prestado bastante atenção.

F: Por que você decidiu abrir o marketplace ZZ Mall com marcas que não são do grupo?

AB: Para você aumentar o seu tráfego, é necessário ter um negócio híbrido, com mais produtos, e não justifica mais comprar e ser um comerciante de compra e revenda. O que oferecemos na plataforma é muito mais do que só comercialização. É sobre conteúdo e economia circular [dentro desse conceito, em novembro de 2020 foi adquirido o brechó online de luxo Troc]. É um one stop shop para a mulher que quer consumir moda digital. Um ramo que se desenvolveu recentemente foi o marketplace dos shopping centers. Nós surgimos com o intuito de curadoria, complementado por conteúdos.

F: A aposta no omnichannel foi acelerada com a pandemia?

AB: Já era algo planejado. Fizemos um projeto com a consultoria Bain & Company, e um dos nossos maiores ativos é a nossa base de dados de mais de 10 milhões de clientes. A partir daí ficou definido que lançaríamos a plataforma com produtos e conteúdo. Era para estar no ar no meio de 2021, mas aceleramos.

F: A marca Arezzo tem muitas franquias. Você acredita que em algum momento do futuro haverá uma redução nas lojas físicas?

AB: Não, as lojas físicas vão capitanear o processo de distribuição e o ponto de contato com os clientes, o famoso calor humano. Pontos de experiência, há sim uma importância, e estamos longe de ter uma redução dos pontos físicos. A Arezzo fechou 2020 com mais lojas do que em 2019 – atualmente são 430.

F: Como será a plataforma de aquisições que seu agora parceiro Rony Meisler vai assumir?

AB: Bom, primeiro nós temos uma experiência muito grande em calçados e acessórios, somos a empresa líder, com o maior market share do mercado. Tinha o plano de um braço de aquisições nos próximos dois anos, mas quando passou julho do último ano e vi que a gente ia voltar aos ótimos resultados, aceleramos o processo. As marcas da Reserva têm muito potencial, assim como o Rony e todo o time, então estamos delegando para eles toda essa praça nova da Ar&Co.

F: Como define o momento que a indústria de moda nacional atravessa?

AB: É um momento de fragilização. Nos últimos anos a gente viu um aumento dos magazines, quase lojas de departamento, e as lojas boutique muito pulverizadas. São marcas boas, mas sem uma estrutura que fosse condizente com o mundo moderno.

F: Já pensou em parar de trabalhar ou mudar sua área de atuação?

AB: Não, isso nunca passou pela minha cabeça. Sou nascido e criado desde os 4 anos dentro de uma fábrica de sapatos, aos 18 montei a Schutz e hoje é onde eu dedico minha vida.

F: O que está por trás do lema “Rumo a 2154”? É uma invenção sua?

AB:Não, é do meu pai. Ele criou no período do Plano Collor [1990]. A empresa não era tão nova, já tinha 25 anos. A gente sofreu com aquela crise e ele teve a ideia de criar um slogan que trouxesse a questão da longevidade (ele nasceu em 1954), de que iríamos superar aquele momento. Até hoje, tudo que a gente faz finaliza com essa frase.

F: Qual é sua marca preferida?

AB:Aí você me aperta, hein? [risos] Se eu responder essa pergunta, me matam na empresa. É uma relação diferente, como se fossem filhos, é como se me perguntassem se eu tenho um filho preferido – é difícil, cada um tem seu jeito. Mas, obviamente, a Schutz, por ser a primeira que eu criei, tem um apelo especial. Recentemente, a Schutz passou por mudanças e fechou alguns pontos no mercado internacional. A marca tem conseguido trazer excelentes resultados, com um bom posicionamento digital e com alguns pontos internacionais que são fundamentais. Também tivemos um crescimento muito grande nas lojas de departamento e conseguimos nos posicionar bem.

F: Para finalizar, quais são os principais planos para este ano?

AB: O primeiro é consolidar a integração com a Reserva e o fortalecimento no canal de franquias e multimarcas, além de introduzir a Reserva no feminino. Iremos continuar com o trabalho na Arezzo e na Schutz, buscar a consolidação da Brizza [nova marca de chinelos e sandálias], que já é um grande sucesso, e retomar os investimentos na marca Alexandre Birman, principalmente no mercado internacional.

RONY MEISLER FALA SOBRE A UNIÃO ENTRE SUA RESERVA E A AREZZO

Forbes: Como aconteceu o casamento entre os dois grupos?

Rony Meisler: Conheço o Alexandre e o Anderson há muitos anos. Entre o fim de abril e começo de maio de 2020, a gente fez uma parceria inicial, que foi trocar a nossa base de usuários com uma campanha. Tudo aconteceu muito rápido, em questão de uma hora já estávamos pensando nas ações – que foram bem-sucedidas. Um amigo em comum viu essa ação e provocou separadamente nós dois para uma parceria mais concreta, para ver o que cada um achava. Aí fizemos um primeiro zoom e, desde então, entramos em conversas e tratativas. O negócio nasceu de forma orgânica, como eu acho que deve ser. As duas empresas estão em um momento muito próximo, a gente se saiu muito bem usando a cultura e a digitalização no período de pandemia. É sempre uma figura de linguagem, comunicação para dentro e para fora. Na realidade, o que aconteceu foi uma incorporação, a gente trocou a maior parte de uma empresa por uma menor parte de outra, foi um movimento de ações. Estamos 100% compromissados com um plano que decidimos fazer juntos.

F: O que podemos esperar da Ar&Co, braço do qual você é o responsável?

RM: A gente entendeu que é uma plataforma que agrega valor. Com a Ar&Co, o que queremos é ser a melhor house of brands do Brasil. Eu venho brincando que a gente já é a melhor house of people, nós já temos um grupo de pessoas que é diferente, são especiais e empreendedores, tanto aqui como lá. É muito difícil consolidar CNPJ sem CPF, e com isso vamos expandir para os segmentos de vestuário e lifestyle.

F: Qual é a sua visão sobre o mercado da moda brasileiro?

RM: Infelizmente, nosso mercado foi muito maltratado nos últimos anos por vários motivos. Existe uma oportunidade cidadã e social para trabalhar e recuperar o terreno – por isso falo do house of people. É resgatar o orgulho das pessoas e ressaltar o propósito das marcas. Sobre comentários do tipo “Vocês fundaram a marca e venderam”, eu faço a ressalva de que somos empreendedores e vivemos muito mais pela animação do caminho do que pela certeza do destino.

F: Que valores são fundamentais para sustentar o grupo?

RM: Em primeiro lugar, a paixão. Amar o que se faz. Empreender neste país, em qualquer circunstância, é muito difícil. Tem um conselho que me davam quando eu estava na faculdade que era “Faz o que você ama”. Ao longo do tempo, quando o meu negócio foi dando mais certo, as pessoas foram me perguntando isso e eu não sabia o que responder. Empreender é como um casamento: maravilhoso, mas ele vence pelo amor e pela flexibilidade. Se você tem a certeza de que as pessoas que estão embarcando com você amam aquilo profundamente e têm isso como vocação, é o mundo ideal. O entendimento do propósito é fundamental; transparência e honestidade são obrigatórias. E saber que tem vezes que a gente vai acertar e tem vezes que a gente vai aprender.

Reportagem publicada na edição 84, lançada em fevereiro de 2021

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