Clube Hípico de Santo Amaro retorna com torneios pós-pandemia

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José Roberto Reynoso Fernandez Filho compete pelo Clube Hípico de Santo Amaro, é pentacampeão brasileiro de salto e foi à Olimpíada de Londres, em 2012

O Clube Hípico Santo Amaro já viu a cidade de São Paulo dar muitas voltas. Na verdade, por pouco não nasceu fora dela: foi inaugurado em setembro de 1935, sete meses depois de o município de Santo Amaro ser incorporado à capital. Quando o grupo de sócios-fundadores comprou a chácara do industrial Jorge Street, a região era rural e convidava a passeios a cavalo no “areião” à margem do rio Pinheiros. Nas décadas seguintes, o entorno mudou com a chegada de empresas internacionais, que costumavam presentear funcionários com títulos do clube. Vieram também comércios, casas, prédios, ruas, a Marginal do Pinheiros. O clube sobreviveu às transformações como uma mancha verde na área urbana, com 330 mil metros quadrados de bosques, jardins e pistas equestres à beira da avenida João Dias. Enfrentou também a pandemia, com restrições de funcionamento e debandada de cavalos para o interior, acompanhando seus donos. Agora vive uma retomada dos torneios e das atividades normais — com limitações. Ao mesmo tempo, busca se abrir mais para o mundo — mas sem soltar muito as rédeas.

À frente do retorno e do esforço de comunicação externa está o empresário do ramo imobiliário Alexandre Leonor, 51, que assumiu como presidente do clube em janeiro de 2020. “Muita gente de São Paulo não conhece o clube”, diz. “Ele sempre foi um pouco fechado, nunca foi amplamente divulgado. E hoje a minha gestão está dando importância a isso, com campanha de marketing, assessoria de imprensa.”

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A abertura para os não sócios costumava vir por meio da escola de equitação e de tênis e dos eventos, como casamentos no casarão da sede social, preservado pela instituição. Visitantes também tinham a oportunidade de entrar no espaço durante o festival gastronômico anual Taste of São Paulo, montado no campo de polo. Mas a pandemia fez com que essas atividades que envolviam aglomeração de público fossem suspensas — e continuavam assim até junho. Ao mesmo tempo, trouxe desafios para conciliar o manejo dos animais e a circulação de pessoas. “O cavalo tem que sair da cocheira”, diz Alexandre. “Não posso trancá-lo por quatro, cinco meses e fingir que nada acontece.”

No início da pandemia, os estábulos abrigavam cerca de 450 cavalos, mantidos por 120 funcionários da vila hípica (há outros 110 funcionários em outras áreas). A readequação para o momento de crise sanitária envolveu testagem da equipe e rodízio de tratadores, veterinários, entregadores de ração e farmácias. Também foram estabelecidos horários para os sócios entrarem para montar. “Os animais são atletas”, diz Alexandre. “Têm hora para comer, para sair, para treinar. Não podem sair da rotina ou sofrem de problemas como cólica e estresse.”

Muitos sócios chegaram a levar seus cavalos para temporadas fora da cidade, em haras ou fazendas. Aos poucos, eles retornaram, lotando as instalações — há fila de espera para as cocheiras e para vagas na escola de equitação. Voltaram as competições. Em setembro de 2020, no aniversário de 85 anos da instituição, houve um torneio nacional com as modalidades de salto, adestramento e concurso completo de equitação (uma espécie de triatlo equestre que voltou a ser praticado no clube depois de mais de 20 anos e inclui provas de adestramento, salto e trilha com obstáculos).

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O antigo casarão da fazenda de café

Em 2021, houve recorde de inscrições para a Copa Santo Amaro (1.115 na primeira etapa, 1.272 na segunda e 1.442 na terceira). Na primeira etapa, em 1 e 2 maio, o cavaleiro olímpico Marcio Appel subiu no primeiro lugar do pódio por sua atuação com a égua Nektar.

No hipismo competitivo, ter mais de uma montaria é a regra, não a exceção. “Quem tem um não tem nenhum”, diz Leonor. “O esporte exige. Porque um cavalo só não aguenta quando se compete a sério, em sul-americano e torneios nacionais.” Nem sempre foi assim. “É como carro. Antes o sócio tinha um cavalo, hoje tem em média dois ou três.” Em compensação, o clube que chegou a ter mil sócios mantém entre 300 e 400 nos últimos dez anos. “A genética e o valor dos animais também estão em outros patamares. Eles eram mais rústicos e baratos, de matrizes nacionais. Muito cavalo foi importado nos últimos 20 anos, criando uma diferença, inclusive de custo.”

Hoje cada cavalo custa entre R$ 100 mil e R$ 2 milhões, dependendo da altura dos obstáculos que é capaz de saltar (em geral de 1 metro e 1,6 metro). A manutenção mensal fica em torno de R$ 8 mil, incluindo mensalidade do clube mais manejo de um animal — há cuidados 24 horas, com um tratador para no máximo cinco cavalos. O nível dos concursos nacionais evoluiu desde os primórdios do clube, assim como a participação nos torneios internacionais. “O coronel Renyldo Ferreira, que foi um cavaleiro muito importante aqui do clube, demorava quatro meses com o cavalo em um navio para chegar a Aachen [polo de hipismo na Alemanha, onde a equipe brasileira levou medalha de ouro no Concurso de Saltos da Copa das Nações de 1956]. Hoje você embarca num avião e em 12 horas está num concurso. Tudo se modernizou.”

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O clube sobreviveu às transformações da cidade como uma mancha verde de 330 mil metros quadrados de bosques, jardins e pistas equestres

Nos anos 1950 e 1960, o desenvolvimento do hipismo no clube contou com a participação de oficiais da Força Pública Paulista e do Exército — alguns tinham passado pela escola de equitação de Saumur, na França, e trouxeram de lá os conhecimentos sobre salto e adestramento. Nos anos 1970 e 1980, competições patrocinadas por instituições privadas, como os torneios do Banco Safra, a Copa Marlboro e a America’s Cup, trouxeram mais contato com cavaleiros internacionais.

“Temos na nossa história cavaleiros importantes, como o José Roberto Reynoso.” Na verdade, as trajetórias de dois Reynoso, pai e filho, se entremeiam com a do centro equestre de Santo Amaro. José Roberto Reynoso Fernandez Filho, que compete pelo clube, é pentacampeão brasileiro de salto e foi à Olimpíada de Londres em 2012. Seu pai, José Roberto Reynoso Fernandez, o “Alfinete”, começou em Santo Amaro, depois seguiu para a Sociedade Hípica Paulista. Ele recebeu a medalha de ouro por equipes no Pan-Americano do Canadá, em 1967, na mesma equipe que o coronel Renyldo, e foi tetracampeão brasileiro nos anos 1970 e 1980. Outro cavaleiro olímpico que começou lá: Doda Miranda, que iniciou seus treinamentos em Santo Amaro, nos anos 1980, e foi bronze nos jogos olímpicos de 1996 e 2000. Entre os frequentadores de destaque, Paulo Maluf, que tinha cavalos, costumava ir com a família e hoje é sócio benemérito. Já o general João Baptista Figueiredo fez várias visitas ao clube.

Famílias com tradição no hipismo se mantêm associadas de geração em geração. Segundo o presidente do clube, a maior parte dos sócios está lá mesmo pelos cavalos. E vai com frequência, não só aos sábados e domingos. Alexandre é um deles. Começou no hipismo há 12 anos, impulsionado pela filha, que entrou na escolinha de hipismo. Hoje, ela não pratica mais, mas o pai transformou em ocupação o que antes era só um gosto por passear a cavalo com a família aos fins de semana. Dedica as terças-feiras aos assuntos administrativos do clube, mas está lá todo dia para treinar com as éguas Land Yula e Coreana. Compete na modalidade de salto. “Às 7h da manhã estou montado, treino até 8h, 8h30, tomo um banho e vou para o meu escritório, que saiu de Moema e veio para a Chucri Zaidan por causa do clube. E saí do Morumbi e vim morar aqui perto. Não sou só eu: muita gente faz isso.” E o que o atrai no esporte a ponto de fazê-lo mudar de casa e de vida? “A adrenalina, o desafio. E é um conjunto: em um campeonato, para sair com um resultado perfeito, você tem que estar bem e o animal também.”

Reportagem publicada na edição 88, lançada em junho de 2021.

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