Conheça a pesquisadora brasileira que trabalha com o ganhador do Nobel de Medicina de 2020

Divulgação
Divulgação

Mais do que os aprendizados que acumula no laboratório, Mariana ressalta a relevância de trabalhar com o Dr. Charles Rice

Em uma farmácia do município de Nova Granada, interior de São Paulo, Mariana Nogueira teve seu primeiro contato com o mundo dos remédios. Naquele momento, a relação se limitava a observar seu pai, um farmacêutico, vendendo os medicamentos para os clientes. Atualmente formada em Ciências Biológicas pela UNESP e pós-doutoranda pela Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos, seu trabalho como pesquisadora ajuda no desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas. “Eu vi meu pai em meio aos remédios desde sempre. Não produzindo, mas isso pode ter me influenciado”, relembra com bom humor.

Seja por essa influência paterna ou pelo destino, Mariana sempre soube que queria ser pesquisadora e cientista, e foi exatamente esse o caminho que seguiu. Hoje, ela toca uma linha inteira de pesquisa sobre o vírus da Hepatite C em um laboratório comandado pelo ganhador do Nobel de Medicina de 2020, Charles Rice, na Universidade Rockefeller. Com 28 anos, ela já alcançou mais do que esperava quando iniciou os estudos, quase uma década atrás.

LEIA TAMBÉM: Pesquisa brasileira que usa IA para enfrentar o câncer de pulmão ganha prêmio internacional

Como a maioria dos jovens recém-formados no Ensino Médio, Mariana não tinha muita ideia de como seria o seu futuro, embora tivesse certeza sobre a área acadêmica. “Primeiro eu queria fazer biotecnologia. Depois queria trabalhar com células-tronco porque gostava muito de genética. Mas foi só chegar na faculdade para ter uma visão completamente diferente de tudo isso”, conta. Nessa mesma época, seu pai lhe deu uma revista de virologia com uma manchete da qual ela não se esqueceu nunca mais: “Vírus, Inimigos Úteis”. “Esse fato me ajudou a decidir a estudar os vírus.”

A publicação mostrava diversas aplicações e novas perspectivas de tratamento utilizando o agente infeccioso. Admirada com o mundo de possibilidades, Mariana direcionou seu foco acadêmico para a virologia básica. “O vírus é uma unidade genética tão pequena, mas com uma capacidade enorme de impactar nossas vidas. Eu comecei a fazer muitos questionamentos sobre o funcionamento e a forma de lidar com eles.” Foi a partir dessa busca por respostas que começou a tentar ingressar nos laboratórios da universidade.

Após algumas tentativas, Mariana conseguiu um espaço em um laboratório de desenvolvimento de antivirais e cultura de células. Ainda assim era virologia, mas não básica, então a pós-doutoranda se afastou um tempo de seus questionamentos estruturais. “Fiquei nesse time de pesquisa por sete anos. Fiz estágio e aprendi muito de química e biologia para aplicação em estudos in vitro.” Por anos, o estudo foi constante, até a situação começar a ficar difícil por conta dos cortes nas bolsas estudantis.

“Eu precisava de outra alternativa, então comecei a procurar vagas na indústria. Mas, quando tinha vaga para produção de drogas, era necessário ter experiência em trabalho in vivo”, lembra. Para Mariana, que havia estudado in vitro durante anos, isso significava uma coisa: “Eu precisava completar meu treinamento”.

Com foco em estudar no exterior para se aperfeiçoar, ela começou a contatar diversos cientistas até que, coincidentemente, o Dr. Charles Rice veio ao Brasil para dar uma palestra no Congresso Nacional de Virologia. “Minha orientadora, que trabalhou todos esses anos no laboratório comigo, teve um contato pessoal com ele e sugeriu conversarmos sobre a minha vontade de estudar fora. Eu pensei: o não a gente já tem”, brinca. Bastou um e-mail explicando sobre a atuação de Mariana e seu interesse em aprender com modelo murino de infecção para que o especialista respondesse com uma data para a entrevista. “Eu fiquei desesperada, era a chance da minha vida.”

VEJA MAIS: Projeto brasileiro treina cães para detectarem mais de 40 tipos de câncer de mama

UMA CADEIRA EM ROCKEFELLER

A animação de Mariana sobre a entrevista não foi exagerada. Foi esse processo que garantiu a ela a oportunidade de trabalhar em um estudo imune no exterior, mais especificamente na busca por avanços científicos que ajudarão no combate à Hepatite C. Rice ganhou o prêmio Nobel este ano pela descoberta do vírus da doença em uma pesquisa que realizou em 1997 com mais dois pesquisadores, Harvey J. Alter e Michael Houghton. Desde então, comanda o Laboratory of Virology and Infectious Disease (Laboratório de Virologia e Doenças Infecciosas), também conhecido como “Rice Lab”, na Universidade de Rockefeller, nos Estados Unidos.

“Ele financiou meu material de pesquisa e o meu salário era pago pela Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo”, conta. Com a bolsa estudantil tão desejada em mãos, a pesquisadora voou para os Estados Unidos em 2017. “Cheguei em abril e tive o ano inteiro para trabalhar. Retomei os questionamentos de virologia básica que me encantavam desde o início da faculdade. Foi um reencontro comigo mesma”, revela Mariana. Ao final de 2017, ela já esperava voltar para o Brasil com uma bagagem inestimável, mas a atitude do Dr. Charles Rice a surpreendeu. “Faltando uma semana para eu ir embora, ele disse: ‘Precisamos fazer uma reunião para ver como vamos continuar essa parceria. Você gostaria de tocar a linha de pesquisa?’. Eu fiquei muito surpresa.”

Honrada, a pesquisadora conquistou sua cadeira como pós-doutoranda na Universidade Rockefeller. Sobre o estudo que conduz, ela explica que o foco é caracterizar o processo de desenvolvimento do vírus da Hepatite C. “Infectamos o camundongo com um parente do vírus estudado e observamos o processo de desenvolvimento do câncer hepatocelular e da cirrose”, diz. Segundo ela, essa linha de pesquisa é necessária porque ainda há muitas dúvidas sobre a ocorrência da Hepatite C e seu impacto no organismo. “Já temos um tratamento antiviral extremamente eficiente, que elimina 95% do vírus em pacientes cronicamente infectados. O problema é que eles podem ser reinfectados, ou seja, não gera memória imunológica. Não entendemos muito bem como isso acontece.”

Além disso, Mariana explica que o processo de desenvolvimento de doenças como o câncer hepatocelular ainda é desconhecido e incerto. “A Hepatite C fica silenciosa por cerca de 20 anos. O paciente normalmente só descobre quando desenvolve câncer ou cirrose, por isso temos pouca opção de tratamento. Com esse estudo podemos entender a doença e futuramente encontrar vacinas, remédios e tratamentos.”

Para a pós-doutoranda, fazer parte dessa linha de pesquisa é vivenciar da forma mais clara a importância dos questionamentos biológicos básicos – seu direcionamento favorito desde o início da faculdade – na ciência e na medicina. “O Nobel premiou esse ano trabalhos de virologia básica. Isso mostra o quanto essa etapa é importante como uma ferramenta de construção para as pesquisas”, destaca.

E MAIS: “A pandemia colocou as disciplinas STEM no foco da educação”, diz Jayshree Seth

Mais do que os aprendizados que acumula no laboratório, Mariana ressalta a relevância de trabalhar com uma personalidade como o Dr. Rice. “Ele é um cientista de primeira classe. A primeira coisa que faz quando avalia nossos resultados de pesquisa é questionar se temos certeza daquilo. É preciso procurar a mesma coisa por diversos pontos de vista para ver se a resposta é a mesma. Isso dá uma segurança imensa na veracidade da ciência.” Para a pesquisadora, assisti-lo atuar dessa forma deixa claro que o processo científico é uma construção colaborativa. “Você coloca um tijolinho e abre espaço para que outro pesquisador possa colocar mais um em busca de uma construção sólida.”

Cada vez mais inspirada pelo caminho que trilhou, Mariana também destaca a importância de falar sobre as conquistas da ciência, principalmente em um país como o Brasil, que vem realizando cortes de bolsas estudantis nos últimos anos. “Muitas vezes, quando se recebe tanto desestímulo, você questiona se a ciência realmente vale a pena. Ser pesquisador é uma função altruísta: você faz algo pela humanidade que nem sempre é valorizado”, desabafa. Para ela, o posicionamento de admiração é muito claro: “Muitos são fãs de artistas, eu sou de cientistas”.

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube
LinkedIn

Baixe o app da Forbes Brasil na Play Store e na App Store.

Tenha também a Forbes no Google Notícias.

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil ([email protected]).