Brasil perdeu quase 2 anos de expectativa de vida no primeiro ano da pandemia, mostra estudo

Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

A pesquisa publicada no site Medrxiv mostra que cinco estados brasileiros perderam três anos na contagem de expectativa de vida em 2020

A pandemia de Covid-19 já fez com que os brasileiros perdessem 1,94 ano na expectativa de vida ao nascer – e em alguns estados essa piora passa de três anos, de acordo com um estudo liderado pela pesquisadora brasileira Márcia Castro, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard.

A pesquisa publicada no site Medrxiv mostra que cinco estados brasileiros perderam três anos na contagem de expectativa de vida em 2020. No Distrito Federal, por exemplo, que acumula a maior renda per capita do país, a redução foi de 3,68 anos – a maior entre unidades federativas. Já a região mais afetada foi o Norte, onde a população do Amazonas, de Roraima e do Amapá perderam três anos ao todo.

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“Na média, as maiores quedas na expectativa de vida foram observadas nos estados do Norte, e as menores, no Sul e no Nordeste. Os estados do Norte e do Nordeste têm os piores indicadores de desigualdade de renda, pobreza, acesso à infraestrutura, disponibilidade de médicos e leitos de hospital”, diz o estudo. “No entanto, no Nordeste as estimativas de queda são menores. Os governadores desses estados impuseram as medidas mais rigorosas de distanciamento, em oposição direta às recomendações do presidente”.

O estudo de Castro não incluiu ainda os dados da pandemia de 2021, quando o Brasil bateu recorde de mortes diárias. Entre 31 de dezembro de 2020 e ontem (18), o número de mortes pela Covid-19 no país passou de 195.072 para 373.335, um aumento de 91,4%.

As perdas pela Covid-19 vão levar a uma queda na expectativa de vida do brasileiro pela primeira vez desde a década de 1940. Entre 1945 e 2020, a expectativa de vida ao nascer aumentou constantemente de 45,5 anos para 76,7 anos, sem registrar qualquer reversão.

De acordo com o estudo, a Covid-19 fez esses índices regredirem para os registrados em 2013. Dos ganhos registrados nas últimas duas décadas, mais de um quarto se perdeu no primeiro ano da pandemia. Os pesquisadores consideraram, nesse cenário, apenas as mortes registradas como causadas pelo vírus. No entanto, houve um aumento nos números nas mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave sem diagnóstico definido.

“Assumimos que, durante a epidemia, 90% das mortes por SRAG sem diagnóstico confirmado foram, causadas pela Covid-19. Neste cenário, a queda na expectativa de vida ao nascer estimada para o Brasil seria de 2,52 anos, sendo 2,37 anos para mulheres e 2,56 anos para homens”, apontam os pesquisadores.

O estudo ressalta também que quedas na expectativa de vida são normalmente registradas durante períodos de exceção, como guerras e pandemias, mas costumam se recuperar rapidamente quando a situação volta ao normal. Nos Estados Unidos, por exemplo, a expectativa de vida caiu entre 7 e 12 anos em 1918, ano da epidemia de gripe, mas em 1919 já estava maior do que em 1917.

Os autores, no entanto, apontam que a situação no Brasil não deve se recuperar tão rapidamente. A primeira das razões, apontam, é o fato de que em seu segundo ano, a pandemia está colapsando o sistema de saúde e gerando mais mortes do que em 2020. Além disso, alertam, a situação está comprometendo o restante do atendimento em saúde, levando a uma piora no atendimento de outras doenças e na vacinação infantil. Somando-se a isso, uma crise econômica exacerbada pela pandemia e cortes nos orçamentos de saúde e educação devem piorar a capacidade do país de reagir.

“Em resumo, a mortalidade pela Covid-19 no Brasil em 2020 foi catastrófica. Os ganhos em longevidade adquiridos durante anos ou décadas foram revertidos pela pandemia. A falta de uma resposta coordenada, imediata e igualitária, baseada na ciência, assim como a promoção da desinformação, foram a marca da atual administração”, concluem os pesquisadores.

“No Brasil não falta um sistema de saúde universal ou uma rede de agentes de saúde para atender comunidades vulneráveis, ou dados e um grupo de pesquisadores capazes de desenvolver e avançar conhecimento e políticas públicas. Falta o compromisso das atuais lideranças em salvar vidas.” (Com Reuters)

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