Startup quer descobrir efeitos da cannabis contra a gordura

A companhia de biociência Brightside tem tecnologia inovadora que permite identificar compostos ativos em plantas e aplicá-los em potenciais remédios.

Will Yakowicz
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A startup Brightside usa de inteligência artificial para encontrar compostos ativos relevantes para humanos em plantas como a da cannabis

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Por seis semanas em julho de 2017, Lee Chae, um biólogo de plantas formado em Stanford, sentou-se à mesa de sua cozinha em São Francisco – onde ele pode cheirar e ouvir o Oceano Pacífico – e abriu seu laptop. Pode parecer uma manhã típica de trabalho para muitos, mas Chae fez bem mais do que apenas preencher algumas planilhas. Ele começou a construir uma plataforma de inteligência artificial que pode reconhecer compostos bioativos em plantas e identificar potenciais remédios para doenças humanas específicas.

Naquele mesmo ano, Chae, juntamente com os cofundadores Jim Flatt e Sofia Elizondo, lançou a startup de biociência Brightseed para identificar compostos desconhecidos presentes em plantas e desenvolvê-los em vários ingredientes alimentares, suplementos e medicamentos.

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Nos últimos cinco anos, o trio vem coletando plantas que os humanos usam como alimento e remédio há milênios, moendo-as em pó, extraindo os produtos químicos ativos e processando-os através de sua plataforma de IA – que eles carinhosamente chamam de “Forager” – para encontrar o próximo suplemento de grande sucesso.

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Da esquerda para a direita: Lee Chae, Sofia Elizondo e Jim Flatt

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A primeira descoberta da empresa é um par de compostos – N-trans-cafeoiltiramina (NCT) e N-trans-feruloiltiramina (NFT) – encontrados nas cascas de sementes de cannabis e de pimenta preta, que se mostraram promissores em dois estudos pré-clínicos em camundongos para remover gordura do fígado. Os estudos, ambos publicados no Cell Death and Disease, um periódico revisado por pares da Nature, sugerem que esses compostos podem ser usados ​​para controlar a doença hepática gordurosa não alcoólica, uma condição crônica que aflige cerca de um quarto da população mundial.

Atualmente, não há tratamento aprovado pela FDA (Agência de Alimentos de Drogas dos EUA) para a doença, mas os pacientes são incentivados a perder peso e comer de forma saudável. Casos graves requerem cirurgia para perda de peso ou até mesmo um transplante de fígado.

“A cannabis é conhecida pelo THC e o CBD”, diz Chae, nomeando o componente psicoativo da maconha que deixa as pessoas chapadas e o composto químico associado ao efeito anti-inflamatório e outros benefícios relacionados à saúde. “E, no entanto, existem esses outros dois compostos com uma química totalmente diferente na cannabis que nos ajudam a processar a gordura do fígado. Isso apenas diz o quão pouco sabemos mesmo de plantas que temos um conhecimento muito íntimo e que ainda há muito a descobrir sobre como se pode usar as plantas.”

Com sede no sul de São Francisco, a Brightseed fechou uma rodada da Série B de US$ 68 milhões (cerca de R$ 350 milhões) este mês e levantou um total de US$ 120 milhões (R$ 616 milhões) no que a Forbes estima ser uma avaliação de US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão). A empresa está usando esse capital para expandir sua pesquisa e desenvolvimento e acelerar a comercialização dos dois compostos de sementes de cânhamo.

Mas a cannabis não é a única planta que a empresa está pesquisando. A Brightseed, que aparece na lista Forbes AI 50 este ano, está em uma missão para catalogar os compostos bioativos em aproximadamente 60 mil espécies de plantas comestíveis. Até agora, tem uma biblioteca de cerca de 2 milhões de compostos, com a meta de extrair 10 milhões até 2025.

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Elizondo, que trabalhava para o Boston Consulting Group antes de conhecer Chae e Flatt, diz que a Brightseed acredita que os humanos apenas exploraram a ponta do iceberg quando se trata de identificar e desenvolver compostos encontrados em plantas que podem beneficiar a saúde das pessoas.

“A hipótese é que a natureza é pouco explorada por suas potenciais soluções para a saúde”, diz Elizondo. “As plantas são produtoras prolíficas de substâncias químicas naturais, algumas das quais nós sentimos, como a cafeína. Mas há um monte que não sentimos e que são responsáveis ​​por manter nosso corpo funcionando em plena capacidade. Existem milhões de compostos bioativos e produtos químicos naturais por aí e nós realmente aproveitamos apenas cerca de 1%.”

A Brightseed ainda é pequena — a Forbes estima que sua receita seja inferior a US$ 20 milhões (R$ 102 milhões), mas já tem alguns grandes parceiros. Danone, o conglomerado de leite e iogurte, aproveitou a companhia para explorar novos ingredientes potenciais à base de plantas para seus produtos. E a gigante de suplementos Pharmavite, a comerciante de especiarias OFI e a Ocean Spray também estão usando a Brightseed na esperança de descobrir novos ingredientes associados ao bem-estar.

Tobe Cohen, diretor de crescimento da Pharmavite, diz que a empresa fechou um acordo para usar o Forager para ajudá-la a criar uma nova marca de suplemento de sono de US$ 100 milhões (vendas anuais) a partir de um biocomposto que Flatt diz que poderia ajudar a prolongar o sono das pessoas sem que elas se sentissem grogues ou de “ressaca”. “A descoberta de compostos está fora de alcance, a menos que você esteja na área farmacêutica”, acrescenta Cohen. “O banco de dados Forager abriu caminho para explorar e descobrir novos compostos ativos de plantas”.

A própria Brightseed está lançando uma linha de produtos químicos focados em três áreas: saúde metabólica, função cognitiva e saúde intestinal. O próximo passo é um composto encontrado em uma planta – os fundadores não dizem qual – que pode ajudar o corpo a controlar os níveis de glicose no sangue e poderia ser usado em conjunto com medicamentos para diabetes.

Esta não é a primeira incursão de Flatt em suplementos de saúde. Além de atuar como chefe de pesquisa e desenvolvimento na startup de alimentos Hampton Creek, ele liderou a mesma área da Martek Biosciences, que comercializava DHA e ômega-3 – dois lipídios que promovem a saúde do cérebro e dos olhos e agora são usados ​​em fórmulas infantis, leite e outros produtos. Em 2011, a Martek foi adquirida pela DSM por US$ 1,1 bilhão.

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Chuck Templeton, fundador da OpenTable e diretor administrativo da S2G Ventures, um dos primeiros investidores da Brightseed, diz que a companhia está perseguindo grandes mercados que carecem de soluções. O primeiro produto da empresa tem como alvo a doença hepática gordurosa não alcoólica, que atualmente não tem tratamento farmacêutico e custa aos americanos dezenas de bilhões de dólares por ano em saúde. Templeton acrescenta que o objetivo da Brightseed de criar ingredientes e suplementos alimentares que ajudem a resolver grandes problemas de saúde é um modelo de negócios renovador. “É uma equipe fantástica que tem uma ideia fantástica. Enquanto todas as ferramentas computacionais estão sendo usadas para vender anúncios caros ou construir sites de namoro, eles as estão usando para descoberta de fitonutrientes”, diz Templeton.

Flatt tem seu próprio toque na missão da Brightseed, soando como um cruzamento entre um bioquímico e um xamã. “Há muito a ganhar olhando para a medicina tradicional”, diz ele. “Nossos ancestrais entenderam que a natureza, de fato, oferecia várias soluções para as condições. “Pense em coisas como aspirina, vinda da casca do salgueiro, e a metformina, do lilás francês, que é um tratamento de primeira linha para diabetes tipo II…Todos originados em plantas. Esta é uma abordagem comprovada.”

 

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