Patinetes e bikes elétricas são tendência, mas negócio de aluguel ainda não é rentável

Oleg Elkov
Cálculos mostram que vida útil média dos patinetes é menor do que a esperada

Resumo:

  • O serviço de aluguel de bicicletas e patinetes está em alta, e as vendas globais de bikes elétricas devem atingir US$ 24,4 bilhões até 2025, segundo estimativas;
  • No entanto, cálculos colocam a rentabilidade das operadoras em xeque, já que a vida útil média dos patinetes é menor que a esperada;
  • Outro fator relevante, e que gera impactos na movimentação financeira, é a duração da bateria dos veículos.

Nos últimos anos, bicicletas e patinetes elétricos têm abarrotado os centros urbanos. A micromobilidade virou tendência. A súbita popularidade dos veículos individuais se deve não apenas a questões culturais, como a busca por status e por meios sustentáveis de locomoção, mas também – e sobretudo – pelas oportunidades de negócios que gera.

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Com foco em sustentabilidade, surgem desde soluções simples, como o serviço de aluguel de bicicleta comum, a sofisticadas, como os veículos elétricos. Além de beneficiar o meio ambiente, o uso de transporte individual reduz engarrafamentos de automóveis e combate o sedentarismo. O cenário em que tudo isso se passa, segundo Andrea Bisker, especialista em tendências e head da consultoria Stylus Brasil, é o de um mundo em que o “carless” (estilo de vida sem carro) é “cool” (legal). “O carro deixou de ser o sonho do brasileiro”, afirma. Logo, as pessoas recorrem a meios de transporte alternativos, sejam coletivos, caso do compartilhamento de aplicativos como Uber, 99 e Cabify, seja individual.

A utilização de bikes e patinetes é feita principalmente na “last mile” – última milha, ou seja, o trecho final percorrido pelas pessoas no trajeto diário que geralmente não é suprida pelo transporte coletivo e precisa ser feita a pé. “A escolha do modal combina três dimensões: a ambiental, voltada para a saúde das pessoas; a social, a respeito de uma tarifa justa e inclusiva; e a econômica, para a sociedade como um todo”, explica Roberto Gregório, vice-presidente de mobilidade urbana do Instituto Smart City Business America.

No conceito de cidade inteligente, baseado no uso intensivo de tecnologia, a mobilidade urbana é multimodal, segundo Gregório. “O que nós temos e o que está sendo construído é uma complementaridade de modais.” Ele defende que as cidades façam uma pesquisa de origem e destino para entender como a matriz de mobilidade poderia se adequar às demandas da população.

Um mapeamento necessário, já que não é só o comportamento da população que está mudando, mas também a economia: as empresas apostam cada vez mais na micromobilidade. “A indústria automotiva está super interessada”, diz Andrea. Segundo relatório da Stylus Brasil, feito com base em dados de 2016 da consultoria Navigant Research, as vendas globais de bicicletas elétricas devem atingir US$ 24,4 bilhões até 2025.

Como em uma reação em cadeia, a eletrificação de bikes e patinetes dá origem a outros negócios igualmente inéditos. Empresas de micromobilidade já contam com prestadores de serviços para coletar e redistribuir carros. “O setor está movimentando a economia de maneira significativa: estão surgindo os ‘chargers’, parceiros fornecedores que se oferecem para recarregar a bateria e armazenar equipamentos”, afirma Denis Lopardo, CEO da operadora Scoo.

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Patinete elétrico e cifras na cidade

Apesar da efervescência, o serviço de aluguel de patinetes ainda não é rentável. “A conta não fecha”, diz a head da Stylus Brasil, Andrea Bisker. Um apontamento da consultoria mostra que a vida útil média de um patinete é de 28,8 dias – um período claramente curto. A estimativa é baseada em um levantamento do site “Quartz” de março de 2019, um estudo sobre os primeiros 129 patinetes da operadora Bird na cidade de Louisville (EUA), em agosto de 2018.

“As pessoas ainda não cuidam direito, largam o patinete em qualquer lugar. O veículo rapidamente vira lixão e as empresas não conseguem se pagar”, diz Andrea. “Trata-se de um negócio rentável ou só uma febre? Quantas dessas operadoras são lucrativas?”, pergunta.

Em simulação para a Forbes, o gerente comercial da operadora de patinetes FlipOn, Rodrigo Costa, faz o seguinte cálculo: um patinete realiza, em média, oito viagens por dia, a um tíquete médio de R$ 8. Isso dá uma arrecadação diária de cerca de R$ 64 ou R$ 2 mil por mês. Como um patinete custa, aproximadamente, R$ 3,2 mil, o retorno sobre o investimento demora 50 dias para acontecer. Como a vida útil do veículo é de 28,8 dias, o lucro fica em xeque.

Segundo o executivo, o faturamento médio da empresa tem como base a quantidade de patinetes na frota. A FlipOn tem a meta de terminar 2019 com uma fábrica em São Carlos (SP) e mais de 1 mil patinetes nas ruas – o que representaria um faturamento aproximado de R$ 2 milhões por mês. A título de comparação, a frota da Scoo, que se posiciona como uma empresa aberta para parcerias corporativas, aproxima-se de 500 patinetes e deve chegar a 2 mil em setembro deste ano, enquanto a Grow (da fusão entre Grin e Yellow) trabalha, atualmente, com 4 mil desses veículos. Embora os dados não sejam os mais promissores, Costa acredita que o mercado seja “extremamente rentável, com potencial enorme de crescimento e de geração de lucros”.

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Os outros fatores na equação

Há outros fatores que pesam na equação dos patinetes elétricos. “Não é só comprar da China e usar para compartilhamento. O serviço envolve a própria customização do veículo, o desenvolvimento da manutenção de fornecedores e o próprio processo logístico”, diz Denis Lopardo, da Scoo, empresa de capital próprio que teve investimento inicial de R$ 1 milhão.

Outro fator importante, com impacto na movimentação financeira, é a duração da bateria. De acordo com o executivo, ela dura, em média, de duas a três horas, período que a FlipOn quer ampliar para 10 horas, reduzindo a necessidade de recarregar e armazenar.

O lado negativo é que a evolução da bateria e da vida útil média dos patinetes geraria um menor fluxo de renda para aqueles que trabalham como “chargers”. Segundo Marcelo Loureiro, CEO da Grow no Brasil, a operadora desempenha um papel social de relevância ao empregar “mão de obra primária” para a função de “charger”.

A companhia, que captou US$ 150 milhões ao longo de seus dois anos de existência, conta com 1,5 mil funcionários, dos quais 1 mil integram o time de operação de rua, com 80% deles advindos de “comunidades de baixa renda”. “O valor médio para carregar um patinete é de R$ 7. Se carregar seis patinetes por dia, cumprindo uma hora pela manhã e uma pela noite, o trabalhador arrecada R$ 42 e fecha o mês com renda complementar de R$ 300 a R$ 3 mil ”, afirma Loureiro.

Com casos de acidentes graves nas ruas, as companhias ainda precisam enfrentar o grande problema da segurança dos usuários. “Além de buscar uma durabilidade maior para os patinetes, as empresas devem investir em segurança”, comenta Andrea Bisker.

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Em geral, o negócio “é um mercado que vem gerando empregos em áreas como tecnologia, logística, engenharia, administração, finanças, advocacia e contabilidade”, enumera o executivo da FlipOn. No entanto, em vista do problemas já mencionados, ainda há diversas arestas a serem aparadas para atingir a rentabilidade.

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